O novo acordo

Os riscos da cooperação fechada pelo Ministério da Saúde para produzir a vacina desenvolvida por Oxford, ainda sem eficácia comprovada

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O governo federal anunciou no sábado um acordo de cooperação com a Universidade de Oxford e o laboratório farmacêutico AstraZeneca para produzir uma vacina. A fabricação no Brasil será feita por BioManguinhos, unidade da Fiocruz responsável pela produção de vacinas, e o investimento pode chegar a US$ 288 milhões – R$ 1,6 bilhão.

O risco não é pequeno. Afinal, não há eficácia comprovada, embora o imunizante de Oxford esteja avançado em seus ensaios clínicos. Além dele, há hoje outros 200 em desenvolvimento, e pelo menos 15 já começaram a ser testados em humanos.

“Quem ganha uma corrida de vacina não é quem chega primeiro, é quem chega em melhores condições. (…) O que é preocupante nessa vacina de Oxford, embora todos aqui estejam torcendo para que ela dê certo e diminua essa pressão social que estamos sofrendo, é que, no experimento em macacos, ela mostrou que protegia da pneumonia, mas não eliminava o vírus circulante nas mucosas. Não sabemos se isso seria extrapolado para os homens, mas isso pode significar – não sabemos – que o indivíduo ficaria protegido da doença grave, mas continuaria transmitindo o vírus. É uma coisa grave em termos de saúde pública, porque as pessoas que não estiverem vacinadas estarão sob ameaça”, explicou o imunologista Jorge Kalil em um debate promovido pelo Estadão.

Diante do fracasso absoluto em controlar as transmissões, porém, talvez não reste muita alternativa ao Brasil além de apostar em acordos do tipo. O governo espera ter resultados preliminares nesse sentido em outubro ou novembro. Se os resultados forem negativos, o país perde o dinheiro. Se os resultados forem positivos, mas outras vacinas melhores e mais baratas forem descobertas, o acordo também pode não se mostrar muito vantajoso. 

Mas se tudo der certo a distribuição pode, em tese, ser rápida. Pelo menos o Brasil tem um histórico de sucesso na fabricação e distribuição de vacinas, graças ao SUS. É verdade que, nos últimos anos, com o intenso desfinanciamento do Sistema, as coberturas vacinais em geral vêm caindo, mas o programa de imunização ainda é muito robusto, de modo que existe um bom modelo.

A ideia éque o país produza 30,4 milhões de doses entre dezembro deste ano e janeiro de 2021. Essas já seriam distribuídas a idosos e pessoas com comorbidades. Em seguida, depois que houver aprovação pela Anvisa, serão fabricados outras 70 milhões de doses. As cem milhões de doses no total, segundo o Ministério da Saúde, seriam suficientes para cobrir todos os idosos, profissionais de saúde, professores, indígenas, pessoas em privação de liberdade, profissionais da segurança pública e motoristas de transporte coletivo.

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