Dengue no Brasil, uma vergonha continental

Mortes diminuíram, mas epidemia bate recorde nas Américas, com 2,7 milhões de casos em 2019. No Brasil, estão 74%. Infecção custou ao SUS R$ 770 milhões entre 2012 e 2013. Leia também: negros já são maioria em universidades públicas

Foto: Agência Brasil

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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OS PIORES NÚMEROS DA DENGUE

A dengue bateu recorde nas Américas em 2019: até o final de outubro foram contabilizados mais de 2,7 milhões de casos – um número 13% maior do que o registrado em 2015, quando houve a última epidemia da doença. Segundo a Organização Pan-americana da Saúde (Opas), o Brasil responde por mais de dois milhões das infecções registradas, seguido muito de longe por México (213 mil) e Nicarágua (157 mil). De acordo com os registros oficiais do Ministério da Saúde, porém, foram notificados 1,5 milhão de casos este ano – um volume gigantesco, mas, ainda sim, menor do que dois milhões. 

Os dados divulgados ontem pela Opas incluem informações sobre os casos graves (22.127) e as mortes (1.260). Apesar do aumento no número de casos no continente, a proporção de óbitos foi 26% menor em 2019 na comparação com 2015. Já no Brasil, foram registradas até o dia 2 de novembro 710 mortes por dengue – número 5,4 vezes maior do que os 132 óbitos ocorridos no ano passado. Há mais 371 mortes sob investigação. 

Falando em dengue, o Lancet tem um projeto de rastreio dos efeitos das mudanças climáticas na saúde da população. Ontem, os dados mais recentes saíram. E uma grande preocupação está relacionada às doenças transmitidas por mosquitos. Segundo o relatório, desde 1950 a capacidade que o Aedes aegypti tem de transmitir o vírus da dengue aumentou em 5% no mundo. E nove dos dez anos mais propícios para a transmissão da doença aconteceram de 2000 para cá. No Brasil, os números não deixam dúvidas. O periódico cita a epidemia de 2016, com 1,5 milhão de casos, e calcula que a infecção custou ao SUS R$ 770 milhões entre 2012 e 2013

LINHA DE CORTE

O relatório do Lancet também conclui que a vida de todas as crianças nascidas a partir de agora será profundamente afetada pelo aquecimento global. Por aqui, um dos maiores problemas é a poluição do ar, especialmente a inalação do material particulado presente nas queimadas de vegetação, no trânsito e na queima de carvão – que cresce no país. No Brasil. o uso dessa fonte de energia triplicou nos últimos 40 anos. O relatório aponta ainda que o monitoramento da poluição é deficitário, com uma concentração de 90% das estações no Sudeste brasileiro.

ALGUM AVANÇO, MUITA VIOLÊNCIA

O Dia da Consciência Negra é quarta-feira que vem e o IBGE divulgou uma pesquisa que ilustra bem as desigualdades que marcam essa população. Por um lado, os jovens pretos e pardos continuam sendo, de longe, o maior alvo de violência letal no país. Em 2017, na faixa etária entre 15 e 29 anos, o índice chegou a 98,5% entre negros, enquanto entre brancos foi de 34%. A pessoa negra e parda tinha 2,7 mais chances de ser assassinada do que uma branca. E, de acordo com o Instituto, a exposição maior à violência faz com que a população negra seja mais propensa a desenvolver transtornos mentais, como depressão e ansiedade. “Não existe um aparato psicológico para ajudar a população negra. Esse grupo é visto como mais forte que a média e capaz de enfrentar qualquer tipo de violência. Isso acaba limitando a capacidade que o negro tem de se cuidar, porque ele se vê obrigado a manter o personagem que a branquitude lhe impôs”, analisou o ativista carioca Edu Carvalho em entrevista ao jornal O Globo

Por outro lado, o IBGE aponta um importante avanço: pela primeira vez, os negros são maioria nas universidades públicas. Em 2018, o país registrou 1,14 milhão estudantes autodeclarados pretos e pardos e 1,05 milhão autodeclarados brancos. Nas universidades privadas também houve aumento: 46,6% das vagas eram ocupadas por negros no ano passado. A política de cotas, o Fies e a luta do movimento negro, que incluiu desde a criação de pré-vestibulares comunitários à isenção na taxa do exame são alguns dos fatores que explicam as mudanças desde os anos 1990. 

CHEGA DE MITOS

Ontem o Ministério da Saúde lançou o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos. O trabalho vinha sendo desenvolvido desde governos passados, sob coordenação das pesquisadoras Inês Rugani e Gisele Bortolini. A necessidade de focar nessa faixa etária ficou mais visível nos últimos tempos. Hoje, 15,9% das crianças com menos de cinco anos já apresentam excesso de peso no Brasil. Segundo João Peres, d’O Joio e o Trigo, a publicação se alinha ao muito elogiado Guia Alimentar para a População Brasileira, editado em 2014, “ao pensar na alimentação para além do que está no prato“. De acordo com ele, há uma abordagem sistêmica que passa por publicidade infantil, direitos das mães, incluindo até diferentes modelos de família. Há recomendações de zero açúcar e não consumo de alimentos ultraprocessados nessa faixa etária, e o guia ainda derruba os mitos sobre amamentação que toda mãe já cansou de ouvir. Nessa seara, há outra constatação ruim: hoje, duas em cada três crianças brasileiras de menos de seis meses já recebem outro tipo de leite que não o materno – e apenas uma em cada três continua mamando no peito até os dois anos de idade, o que deveria ser o mínimo segundo recomenda a Organização Mundial da Saúde.

“OUTRAS FONTES”

Ao comentar o impacto que o fim do DPVAT pode ter no SUS, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta minimizou: disse que “o próprio Tesouro vai alocar recursos de outras fontes”. Já o colunista de política da Folha, Bruno Boghossian, dá conta de que os partidos que encabeçam o bloco majoritário no Congresso querem derrubar a medida provisória de Bolsonaro que extingue o seguro. 

APOCALIPSE JÁ

Muita gente reparou a pulseirinha que Paulo Guedes usou no solene momento da apresentação do Plano Mais Brasil. Nela, lia-se a palavra APOCALIPSE, em letras garrafais mesmo, seguida pelo número de um versículo bíblico. O adereço, por sinal, é idêntico ao usado por Bolsonaro em sua cerimônia de posse. No site do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Sonia Fleury elenca não só os problemas das três PECs envolvidas no plano como também outras propostas que pretendem chegar ao desmonte completo do Estado de bem-estar social contido na Constituição de 1988 – e substituí-lo por um Estado de “exceção permanente”. Ela Lembra que a “veia sarcástica do ministro já havia traído sua soberba e desprezo pela população pobre” na recente (e já famosa) entrevista à Folha, quando Guedes basicamente argumentou que pobres não  poupam porque não querem. “Vai ficando claro que a alusão ao Apocalipse não é apenas metafórica, pois ela se configura como um verdadeiro programa de metas, que convida seus quatro cavaleiros a se instalarem e reinarem definitivamente entre nós: a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte”, escreve a pesquisadora.

POUCO INFORMATIZADAS

Saíram os resultados de uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil sobre o uso das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) nos estabelecimentos de saúde em 2018. Ela mostra que as unidades básicas de saúde têm menos acesso a computadores e à internet do que o resto dos estabelecimentos. Das cerca de 40 mil UBS, 90% tinham computadores, 80% com acesso à internet. Só 69% tinham sistema eletrônico para registro das informações dos pacientes, e 35% das UBS mantinham as informações dos pacientes apenas em papel.

VEM DE FORA

É verdade que o movimento antivacinação ainda não tem tanta força por aqui diante do que acontece nos Estados Unidos e em certos países europeus – pelo que dizem os especialistas, a queda de cobertura vacinal no Brasil tem se dado por outros fatores que não este. Mas a coisa está chegando, e em boa parte vem justamente de fora, como conta a matéria da Vice. O Natural News, um dos sites antivax mais famosos dos EUA, foi removido do Facebook, Twitter e YouTube no começo do ano, mas começou a espalhar seus tentáculos no Brasil. E já é responsável por quase um terço de toda a desinformação sobre vacinas encontrada na internet visando o público brasileiro, segundo o relatório ‘As fake news estão nos deixando doentes?’, feito em conjunto entre a Sociedade Brasileira de Imunizações e a rede Avaaz, da qual falamos um pouco na segunda-feira.

Outros sites americanos tambémespalham boatos sobre supostos perigos da vacinação nas nossas redes sociais e, como não poderia deixar de ser, no WhatsApp. O conteúdo é traduzido para o português sem erros, o que sugere que não é um processo automatizado. Analisando uma amostra de apenas 30 posts do tipo, os pesquisadores descobriram um alcance enorme: foram ao menos 2,4 milhões de visualizações no YouTube. No Facebook, o alcance foi maior ainda: 23,5 milhões de visualizações e 578 mil compartilhamentos.

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