Alinhado com o Guia Alimentar para a População Brasileira, novo documento reúne o que sabemos de fato – e deixa mensagem clara de que nada substitui o leite natural

“Seu leite é ralo ou pouco. Por isso o bebê tá chorando.”

“Mãezinha, eu vou te passar um produto para complementar o leite, tá bom?”

“Você fica dando o peito toda hora. Ela vai ficar mal acostumada.”

Quem tem bebê ouve palpite de tudo quanto é lado. Muitas vezes, ou no mais das vezes, a autonomia e o corpo da mãe são atropelados por mitos diversos. Isso numa fase marcada por insegurança, ansiedade e privação de sono. A boa notícia, para quem acaba de dar à luz ou ainda está levando a criaturinha na barriga, é que o Ministério da Saúde acaba de publicar o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos.

A nova versão do documento de orientações oficiais traz informações sobre todos os aspectos da amamentação e da introdução alimentar. Os mitos desfeitos são tantos que não caberiam em uma dezena de textos, de modo que o melhor é ler a publicação de cabo a rabo, se você é mãe, companheira ou companheiro, cuidador ou profissional de saúde.

Mas separamos alguns trechos que ajudam a lidar com uma fase repleta de desafios. A primeira questão a destacar é que o novo Guia para os pequenos está alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, ao pensar na alimentação para além do que está no prato: há uma abordagem sistêmica que passa por publicidade infantil, direitos das mães, diferentes modelos de família.

E, nesse sentido, a mensagem-chave em termos de introdução alimentar é claríssima: “Os alimentos ultraprocessados não devem ser oferecidos à criança e devem ser evitados pelos adultos.” Ou seja, nada de biscoito, refrigerante, “suco” em pó, macarrão instantâneo, iogurte repleto de açúcar e coisas do gênero.

Sem igual

Mas vamos falar primeiro sobre amamentação. O Guia começa com a constatação de que duas em cada três crianças de menos de seis meses já recebem outro tipo de leite que não o materno, e apenas uma em cada três continua até os dois anos, que deveria ser o mínimo, nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como o Guia deixa claro, todo mundo tem uma opinião sobre aleitamento, mas é importante seguir o que dizem as melhores evidências científicas. E todas elas estão em favor do leite materno. Então, se alguém te aporrinhar com esse assunto daqui pra frente, sugerir a leitura das diretrizes oficiais do Brasil é uma boa ideia.

“Único e inigualável, o leite materno é o alimento ideal para a criança, pois é totalmente adaptado às suas necessidades nos primeiros anos de vida. Não existe outro leite igual, nem parecido, apesar dos esforços da indústria em modificar leites de outros mamíferos, como o da vaca, para torná-los mais adequados ao consumo por crianças pequenas.”

Nada mais

Ah, mas a criança tá com sede. Dá água pra ela, dá.

“Nenhum outro tipo de alimento necessita ser dado ao bebê enquanto estiver em amamentação exclusiva: nem líquidos, como água, água de coco, chá, suco ou outros leites; nem qualquer outro alimento, como papinha e mingau. Mesmo em regiões secas e quentes, não é necessário oferecer água às crianças alimentadas somente com leite materno, pois ele possui toda a água necessária para a hidratação nesse período.”

Intervalo e concorrência

Há quem oriente a fazer a criança mamar de três em três horas para se acostumar com um ritmo na alimentação.

Isso não existe. A amamentação deve se dar por livre demanda, ou seja, a criança quer, toma. É improvável que um nenê aguente três horas sem mamar porque o leite materno é leve, de buenas, feito para uma digestão sob medida. Então, o que entra como “complemento” para evitar o choro? A fórmula. Ou a chupeta.

O Guia é claro nesse sentido: fórmula é só para quem não tem mesmo a opção do aleitamento materno. Além de caríssimos, esses produtos não substituem à altura o leite da mãe.

Tanto chupetas como mamadeiras devem ser evitados porque podem estimular um desmame precoce. “Qualquer tipo de chupeta, mesmo as chamadas ortodônticas, pode causar deformações na boca, mal alinhamento dos dentes e provocar problemas na fala, mastigação e respiração.”

Bezerrão

Que coisa ridícula. Uma criança desse tamanho todo mamando? Tenha a dó. Depois vai ficar mimado.

“Apesar da recomendação de amamentar até 2 anos ou mais, muitas pessoas se espantam ao ver crianças dessa idade no peito das mães por achar que são ‘grandes’ demais para mamar. Entretanto, não há tempo máximo estabelecido para o fim da amamentação. Ela pode durar enquanto for desejada pela mulher e pela criança, desde que não haja nenhum prejuízo para ambas.”

Trocando em miúdos, não interfere nessa bagaça e deixa a mãe fazer o que achar melhor.

“Em geral, o desmame não deve ser forçado. Deve ocorrer de forma natural após os 2 anos de idade. Menor interesse nas mamadas; aceitação de alimentos variados; segurança na relação com a mãe; aceitação de outras formas de consolo que não o peito; conformar-se em não ser amamentada em certas ocasiões ou locais; dormir sem mamar no peito; preferência por brincar ou fazer outra atividade com a mãe em vez de amamentar.”