Contrabando de agrotóxicos, um promissor mercado

Polícia investiga indícios que Comando Vermelho e PCC apostam no roubo e venda de venenos, que movimenta R$ 8,8 bilhões ao ano. Leia também: OMS tenta enfrentar cartel da insulina — três empresas dominam produção mundial

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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NICHO LUCRATIVO

Grandes facções criminosas como o Comando Vermelho e o PCC parecem estar migrando para uma atividade altamente lucrativa: o mercado ilegal de agrotóxicos. O repórter João Fellet, da BBC, diz que já são investigados indícios dessa atuação e suspeita-se que algumas quadrilhas usem até drones para localizar os produtos nas fazendas. Têm muito a ganhar. A venda de agrotóxicos movimenta cerca de R$ 44 bilhões por ano e, hoje, 20% desse mercado é clandestino. Gera R$ 8,8 bilhões a cada ano, ou nada menos que metade do dinheiro do tráfico de drogas. O delegado Flávio Henrique Stringueta, da Polícia Civil de Mato Grosso, diz que o maior roubo do estado envolveu uma carga de R$ 12 milhões – e os menores costumam ser de em torno de R$ 300 mil.

Os produtos roubados podem ser adulterados para ampliar os lucros, gerando riscos ainda maiores à saúde humana, principalmente aos trabalhadores que aplicam os venenos. Mas, claro, é o prejuízo dos grandes fazendeiros que mais preocupa a Confederação Nacional da Agropecuária, que inclusive está financiando a polícia. “Uma das experiências consideradas bem-sucedidas é a Patrulha Rural Georreferenciada, unidade da Polícia Militar de Goiás lançada em 2017 com o apoio financeiro de fazendeiros e hoje presente em 80 dos 246 municípios do estado. Segundo a CNA, os produtores rurais ajudaram a construir delegacias e doaram veículos e equipamentos à divisão”, diz a reportagem. Jair Bolsonaro também já se mexeu, quando era deputado federal. Em 2016, ele elaborou um projeto de lei que tipifica o crime de “furto, roubo, dano e receptação de defensivos agrícolas” para desencorajar as quadrilhas.

ALTOS PREÇOS E SUBNOTIFICAÇÃO

Já falamos por aqui que apenas três empresas dominam a fabricação de insulina no mundo: Eli Lilly, Sanofi e Novo Nordisk. Têm subido os preços juntas, ao longo dos anos. Os EUA são um exemplo: por lá, na última década, os custos da insulina triplicaram e uma pesquisa já mostrou que pessoas diabéticas têm deixado de usar o medicamento por causa do preço. Em Acra, capital de Gana, o suprimento de um mês custa a um trabalhador 22% dos seus ganhos mensais. 

Por isso é uma ótima notícia a Organização Mundial da Saúde tenha lançado um programa-piloto de avaliação da insulina produzida por outros fabricantes. A OMS vai auxiliar os países fazendo uma pré-qualificação com o intuito de testar e aprovar versões genéricas da droga. Com isso, o organismo espera incentivar mais empresas a entrarem no mercado e, consequentemente, que os preços caiam. 

O anúncio integra um conjunto de ações voltadas para a diabete, como estratégias para melhorar o acesso ao diagnóstico da doença. A OMS estima que 463 milhões de adultos, ou 9% da população mundial, tenha diabetes – mas que a metade desse contingente não saiba disso. O Brasil é o quinto país com maior número de pessoas com a condição, mas cerca de 46% das pessoas que têm a doença não estão cientes.Dá um total de 7,7 milhões.

UM EM CADA SEIS

Outra doença que acaba atacando de forma silenciosa é o câncer de próstata. Isso porque metade dos homens brasileiros nunca foi a um urologista, de acordo com levantamento do Instituto Nacional de Câncer, o Inca, que contabiliza que a enfermidade ataca nada menos do que um em cada seis homens no Brasil. Anualmente, são 14 mil óbitos por conta desse câncer por aqui. Homens a partir de 50 anos devem passar pelo exame do toque retal todos os anos – tabu no universo masculino tradicional. “O exame é extremamente rápido, é feito com anestésico local, de uma forma que provoque menos incômodo para a pessoa. Ainda hoje é uma das formas mais seguras e eficientes que a gente tem para poder diagnosticar o câncer de próstata na forma mais inicial”, destacou o médico Felipe Costa em entrevista à Agência Brasil.

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

Está gerando comoção o registro de duas pessoas internadas com peste na China. É… a peste. As infecções registradas são da pulmonar, a variante mais grave e perigosa da doença que matou milhões de pessoas na Idade Média. Mas, ao contrário do que sugerem as manchetes, esses casos não são isolados. A matéria da CNN diz que, segundo a OMS, entre mil e duas mil pessoas pegam a doença todos os anos  – e essa é uma estimativa modesta. Só nos EUA, o Centro de Controle de Doenças diz que há sete registros anuais. E a doença é endêmica na República Democrática do Congo, no Peru e em Madagascar, onde aconteceu o último surto, em 2017. Foram infectadas quase 2.350 pessoas, e mais de 200 morreram.

E O SARAMPO AVANÇA

São Paulo continua dominando o noticiário sobre sarampo, mas a cidade do Rio já tem 48 casos confirmados neste ano, sendo 35 contraídos no próprio município – é mais do que todos os registros dos últimos 18 anos, e ainda há 74 casos sob investigação. A progressão está bem rápida: em setembro, só haviam sido confirmados dois, ambos contraídos fora. Segundo especialistas ouvidos pelo Globo, já se pode dizer que há um surto, muito claramente relacionado à baixa cobertura vacinal.

Começa hoje a segunda fase da campanha de vacinação contra a doença. Desta vez, o foco está em quem tem entre 20 e 29 anos. O objetivo é que essa população tome duas doses da vacina tríplice viral (caxumba, rubéola e sarampo) com intervalo mínimo de 30 dias. Quem não tem a caderneta de vacinação ou outra comprovação receberá a primeira dose da vacina durante a campanha e a segunda será agendada. O Dia D acontece no último sábado de novembro, quando postos de saúde abrem para a ação.

Enquanto isso, na Alemanha a câmara baixa do parlamento aprovou uma lei que torna obrigatória a vacinação contra sarampo em creches e escolas, inclusive de funcionários, a partir de março. O desrespeito pode acarretar multa de até 2,5 mil euros. O texto ainda depende de aprovação na câmara alta.

DEZ ANOS, POUCA MUDANÇA

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra foi criada em 2009, mas até hoje só 28% dos municípios incluíram em seus planejamentos as ações previstas, segundo informações do IBGE analisadas pela reportagem do Gênero e Número. Mas há dados ainda mais desanimadores. Por exemplo, o de que apenas 193 municípios (ou 3% do total)  têm uma instância específica para “conduzir, coordenar e monitorar as ações de saúde voltadas para a população negra”. Isso é um problema grande, já que uma das estratégias da portaria que normatiza a Política é a realização de atividades e a implantação desses comitês. “Sem isto, não é possível considerar, portanto, que há implementação em curso”, segundo a matéria.

Tem mais. Enquanto a Política define que a saúde da população negra e o combate ao racismo deveriam estar presentes nos processos de “formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde e no exercício do controle social na saúde”, só 62% dos municípios que dizem a ter adotado afirmaram que os temas estão inseridos nos cursos e processos de formação dos profissionais da área.

RECEITA ERRADA

Na Agência Pública, o professor da Unicamp e ex-presidente da Abrasco Gastão Wagner deu uma entrevista super abrangente falando, entre outras coisas, da relação entre a piora nos indicadores de saúde e a política econômica. Ele diz que os efeitos do desemprego, da diminuição do salário mínimo real e da crise econômica no geral aparecem em pouco tempo na saúde pública. O aumento na mortalidade infantil e de idosos é um exemplo. Porém, “o governo brasileiro atual e grande parte da imprensa dizem que, se houver crescimento econômico, será tudo resolvido, transporte público, habitação. Mas não é assim”, diz ele: “Essa história de que o crescimento da economia por si só garante o bem-estar, de que é necessário a economia crescer para se ter política pública como a do SUS, salário desemprego, Bolsa Família, é falsa. O crescimento do mercado tende a concentrar renda se não houver a política pública que impõe limites através de impostos e do redirecionamento dos gastos.”

PIOR DO MUNDO

Falando em economia, a nova edição da pesquisa sobre desigualdade mundial coordenada por Thomas Piketty saiu. E o Brasil registrou a maior concentração de renda do mundo, com apenas 1% dos habitantes mais ricos do país com as mãos em quase 30% da renda. Não é à toa que personagens como Paulo Guedes façam a cabeça das elites tupiniquins…

TAMBÉM NA BÉLGICA

Na quinta-feira, a Bélgica confirmou a primeira morte no país ligada ao cigarro eletrônico. A vítima foi um jovem de 18 anos, que morreu devido à insuficiência respiratória causada pelo vaping. “A conexão com o cigarro eletrônico está estabelecida. Não há neste paciente nenhuma outra explicação para uma pneumonia tão grave”, declarou a ministra da Saúde, Maggie De Block. Até então, os EUA figuravam como foco isolado do problema – e a razão principal disso, segundo especialistas, é que alguns dos compostos comercializados para os dispositivos americanos e suspeitos do problema são proibidos em outros países. Com alta prevalência de fumantes e medo da estranha doença, Índia e Malásia já pensam em banir os cigarros eletrônicos como um todo. E na sexta, a Apple retirou de sua App Store todos os aplicativos relacionados a cigarros eletrônicos e vaporizadores.

ESTERILIZAÇÃO

A OMS anunciou que vai adotar uma técnica de esterilização contra o Aedes aegypti. Não é a partir da edição genética, como já foi testado aqui no Brasil pela Oxitec, mas com radiação. Mas a ideia é semelhante: criar e liberar milhares de mosquitos machos estéreis que, mesmo acasalando, não terão prole. A técnica foi desenvolvida pelo Departamento de Agricultura dos EUA e tem sido adotada em diferentes países para lidar com insetos que atacam plantações.

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