Teatro do Oprimido: 50 anos de desalienação

Na ditadura, Augusto Boal driblou a censura com criatividade: nas ruas e palcos, as notícias da época (e suas entrelinhas políticas). Era o início de um método para descolonizar o fazer teatral, usando-o como arma questionadora contra opressão

Neste mês de setembro estamos celebrando o cinquentenário do legado que Augusto Boal nos deixou com o Teatro do Oprimido. Boal considerava que este método teatral nasceu com o Teatro Jornal e este teve a primeira apresentação da peça Teatro Jornal – Primeira Edição em setembro de 1970, na sede to Teatro de Arena, em São Paulo. Claro que ele sempre fez questão de ressaltar que esta é uma criação coletiva de pessoas e grupos oprimidos com os quais trabalhou em vários lugares planeta ao longo de décadas, mas, sem dúvida, ele foi o seu maior divulgador e pensador.

Em sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro (Editora Record), ele relata que um grupo de estudantes de um curso de teatro ensinado por Cecília Thumin e Heleny Guariba (jovem atriz presa durante a ditadura civil-militar e até hoje desaparecida) e que tinha entre seus alunos Dulce Muniz, Celso Frateschi e Denise del Vecchio, entre outros, estavam sedentos por continuar a fazer teatro após a conclusão do curso. Assim, ele propôs aos jovens artistas que se apresentassem com Teatro Jornal. Esta técnica é uma herança dos grupos de teatro conhecidos como Blusas Azuis na antiga União Soviética e do Living Newspaper Theater nos Estados Unidos, onde foi muito praticado durante os anos trinta quando aquele país passou por uma grande crise socioeconômica. Com o Teatro Jornal, Boal conseguiu enganar a censura em voga na época. Como sabemos, todas as peças deviam passar pelo crivo dos censores. Com as peças do Teatro Jornal era difícil proibir a apresentação, pois eram encenadas as notícias publicadas nos grandes jornais da época, ou seja, elas já haviam passado pela peneira rígida da censura e tinham sido aprovadas para a publicação. Claro que os atores e as atrizes conseguiam mostrar o que estava escondido por trás das notícias durante as apresentações, pois esta era justamente a intenção de Boal. É com esta técnica que Boal difundiu a ideia de que não basta fazer teatro, é também necessário tornar os meios de produção para a sua prática, acessível para que todas as pessoas oprimidas possam utilizá-lo como arma contra os grupos opressores. A ideia era que o grupo que fizesse uma apresentação de Teatro Jornal, deveria ajudar na formação de novos grupos para que estes montassem as suas próprias peças e dessa forma foram criados dezenas de grupos na capital paulista.

O Teatro do Oprimido é fruto das inquietações de Boal a partir de perguntas que ele fez a respeito de si como pessoa, como ser político comprometido com a transformação social e como artista completamente apaixonado pela sua arte. Já consagrado na cena artística brasileira com mais de uma década de carreira e tendo dirigido os maiores atores e atrizes do Brasil da década de sessenta, liderado os Laboratórios de Dramaturgia do Arena (que revelou, por exemplo, Lauro Cesar Muniz e Benedito Rui Barbosa), criado o Sistema Coringa com a peça Arena Conta Zumbi e tendo exposto para a cena brasileira os cantores Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé (já conhecidos em Salvador, mas ainda distantes da fama nacional) com os musicais Show Opinião e Arena Conta Bahia, ele começou a se questionar como o teatro poderia sair dos palcos e atingir as pessoas oprimidas de uma forma mais efetiva, além de superar um teatro político que impunha mensagens aos espectadores ditando-lhes o deviam fazer para superar as opressões sofridas. A primeira resposta ele encontrou com o Teatro Jornal na multiplicação de grupos que difundiam esta técnica, como citado anteriormente. A outra resposta ele obteve com o Teatro Fórum, que junto com o Teatro Imagem, Teatro Invisível, Teatro Legislativo e o Arco-Íris do Desejo, compõem o que ele chamou de Arsenal do Teatro do Oprimido. O Teatro Fórum é a radicalização da interatividade em uma apresentação teatral. Boal insistia que não existe espectador, mas sim espec-ator. Alguém que está esperando a chance para entrar em cena e mudar a história de opressão que vê encenada, substituindo o personagem protagonista oprimido e dando-lhe uma chance de subverter a ordem opressora. Para ele, é necessário ocupar o palco tomado por um pequeno grupo de pessoas que representa a divisão entre os que podem e os que podem fazer teatro, reproduzindo a divisão de classes presentes na sociedade capitalista.

Cada técnica criada por Boal depois do Teatro Jornal foi uma resposta às necessidades surgidas com o trabalho com as pessoas oprimidas depois que ele teve que fugir do Brasil onde havia sido preso e torturado em 1971. O Teatro Invisível, técnica que apresenta uma peça para um público que não sabe que está vendo uma encenação, começou a ser praticado por ele em Buenos Aires para evitar a prisão que conheceu em seu país. O Teatro Imagem nasceu para trabalhar com os povos indígenas em diferentes países da América Latina, mas abre possibilidades para discutir sobre a mecanização do corpo na sociedade industrial capitalista. Já no Arco-Íris do Desejo, única técnica que não foi criada na América Latina, Boal navega pela dimensão terapêutica do teatro. Aqui ele defende que é preciso lutar contra o opressor que foi internalizado pela pessoa oprimida. Por fim, quando foi vereador da cidade do Rio de Janeiro na década de noventa, ele criou o Teatro Legislativo, levando as encenações das Sessões Solenes para as periferias da capital carioca e escutando os desejos do povo para transformá-los em lei. Sua última preocupação foi com o processo estético na arte e como este é utilizado pelos opressores para sabotar os oprimidos na luta pela liberdade. Suas reflexões estão acessíveis no livro Estética do Oprimido (Editora Garamond). Nele Boal defende que a palavra, o som e a imagem são os novos latifúndios e estão em posse dos grupos dominantes. Ele urge para que as pessoas oprimidas se apropriem destes três elementos como uma estratégia de luta ou seremos eternamente dominados e dominadas.

Para as pessoas que não estão familiarizadas com este método teatral, vale lembrar que ele vem sendo praticado por milhões de pessoas nestes cinquenta anos e está presente em mais de setenta países, fazendo com que este seja o único método teatral exportado do sul global, que ainda tem um longo caminho para descolonizar o seu fazer teatral, para o norte do globo. Há grupos dedicados à sua multiplicação em países como Índia, Brasil, México, Burkina Faso, Estados Unidos, Argentina, Moçambique, Canadá e Alemanha, para citar alguns. Isso faz Augusto Boal ser o dramaturgo brasileiro mais conhecido fora do Brasil. Há também milhares de pessoas como eu que se dedicam a espalhar o pensamento e a prática do Teatro do Oprimido por acreditar que “O teatro é uma arma. Uma arma muito poderosa.”

Bibliografia

BOAL, Augusto. Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas. Rio de Janeiro: Record. 2000.

________. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond. 2009.

LIMA, Eduardo Campos. Coisas de jornal no teatro. São Paulo: Outras Expressões. 2014.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *