SOS Cinemateca Brasileira: um momento decisivo

Governo ameaça acabar com entidade de preservação, a maior da América do Sul. Cem anos de acervo audiovisual — filmes, programas de TV e imagens da vida brasileira — podem se perder. Manifestações são convocadas para essa semana

Dois atos estão marcados para os próximos dias. O primeiro é na quinta-feira, 4 de junho, 11h, diante do edifício da Cinemateca, no Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino – São Paulo. Lá, organizadores do ato (a APACI – Associação Paulista de Cineastas) estenderão uma faixa com os dizeres “SOS CINEMATECA” e farão a leitura do manifesto abaixo. Finda a leitura, encerrarão a manifestação. É recomendado o uso de máscaras e a preservação de 2 metros de distância entre os participantes.

O segundo é uma Sessão Solene na Assembleia Legislativa de São Paulo, na sexta-feira, 5 de junho, à 17h. Para acompanhar, basta acessar as redes da Alesp (youtube, facebook, twitter) ou assistir pela televisão (veja como sintonizar).


MANIFESTO CINEMATECA BRASILEIRA – Patrimônio da Sociedade

A comunidade cinematográfica brasileira, representada por suas entidades, vem manifestar a sua inconformidade com a grave crise que se aprofunda e pode levar à falência da Cinemateca Brasileira.

A Cinemateca é uma conquista histórica do cinema brasileiro. Nela está depositada a maior parte das imagens domésticas, filmes de todos os gêneros e bitolas, programas de TVs e jornais televisivos que o nosso país já produziu ao longo dos últimos 100 anos. Ela é a memória viva de nosso país e o testemunho da grandeza atingida por nosso cinema ao longo da sua existência. O trabalho de restauro desenvolvido pela Cinemateca foi considerado de excelência pelos principais centros especializados do mundo.

No entanto, estamos assistindo à inaceitável deterioração de suas funções que já atingiu um patamar absolutamente incompatível com a sua importância. Ao longo dos últimos sete anos, técnicos valiosos e especializados foram demitidos e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento.

Há muito a Cinemateca, em grave crise financeira, não recebe recursos governamentais necessários para o seu pleno funcionamento. Desde de abril, está com os salários dos poucos funcionários que restam atrasados e luta para pagar a conta de luz, que pode ser cortada a qualquer momento. Um eventual apagão elétrico será desastroso, pois atingirá a climatização das salas onde estão arquivados verdadeiros tesouros de seu acervo histórico. Sem refrigeração, os filmes em acetato, uma material altamente volátil, ficarão expostos ao tempo e podem pegar fogo como já ocorreu em 2016. A lista de obras ameaçadas inclui filmes da Atlântida, da Vera Cruz, tudo o que restou do cinema silencioso brasileiro, arquivos históricos de Glauber Rocha e grandes filmes restaurados pela cinemateca – a história do audiovisual nacional corre enorme risco.

Todo esse processo de irresponsável negligência se combinou com o afastamento da comunidade cinematográfica nacional que deixou de ser consultada ou sequer informada a respeito dos rumos desta instituição.

Por acreditarmos que a interlocução da Cinemateca Brasileira com a comunidade cinematográfica é essencial para o seu urgente e devido resgate, reivindicamos a formação de uma comissão com membros indicados pelas principais entidades cinematográficas do país a fim de que se estabeleça um contato formalizado e periódico, condição sine qua non para que se trabalhe com transparência e a Cinemateca volte a assumir a sua vocação pública primeira de preservar e difundir o cinema brasileiro.

Para isso, exigimos que o governo federal providencie imediatamente a dotação urgente e necessária para que a Cinemateca Brasileira volte a funcionar plenamente e em bases seguras para os filmes nela depositados – patrimônio cultural e histórico de nosso país.

APACI, ABRACI, SICAV, ABC

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