Quem, eu?

Pazuello nega defender cloroquina e diz que “atendimento precoce” é diferente de “tratamento precoce”

Foto: Eduardo Camargo / Agência Brasil

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“O senhor falou em atendimento precoce e e não citou mais a cloroquina…”, ia perguntando uma repórter. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, nem a deixou concluir a questão. Ficou nervoso, reclamou que não estava ouvindo nada, tirou a máscara, colocou de volta e tirou de novo, enquanto dizia, francamente exaltado: “Eu não falei isso, senhora. Eu não falei isso, senhora. Eu não usei esse termo nenhuma vez, a senhora não ouviu falar nada disso. A senhora não ouviu falar em nenhum remédio. Então por que está dizendo que eu falei? Senhora, a senhora nunca me viu, nunca me viu receitar ou dizer, colocar para as pessoas tomarem esse ou aquele remédio. Nunca. Não aceito a sua posição”.

Ele parecia quase ofendido, e seguiu adiante: “Eu nunca autorizei que o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos (…). Nós defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde, procure o médico. E o médico faça o diagnóstico clínico do paciente. Este é o atendimento precoce. Que remédios o médico vai prescrever, isso foro íntimo do médico com seu paciente. O ministério [da Saúde] não tem protocolos sobre isso, nem poderia ter. Não é missão do ministério definir protocolo para o tratamento. Tratamento é uma coisa, atendimento é outra”. 

Claro, claro. Poucas coisas são inacreditáveis no governo Bolsonaro, mas esta reação foi, no mínimo, inesperada vinda de quem nunca se importou em ter ver nome junto ao dessa droga.  Felizmente, um bom número de veículos jornalísticos deu a notícia com a manchete que ela merece: “Pazuello mente”, em vez de “Pazuello erra”, como tanto se costuma ver. 

Pacientemente, repórteres fizeram um apanhado de ocasiões em que o ministro e a pasta comandada por ele recomendaram o uso da hidroxicloroquina, além de outros remédios ineficazes, no tratamento precoce. O mais antigo e sedimentado é o documento que contém as orientações do Ministério para o manuseio medicamentoso precoce da covid-19. Lembramos que o guia foi publicado dias depois da demissão do ex-ministro Nelson Teich, quando Pazuello era interino. Desde então, passou por duas revisões mas manteve a cloroquina, com dosagem sugerida e tudo.

Além disso, na semana passada Pazuello lançou o aplicativo TrateCOV, voltado a profissionais de saúde, que indica a prescrição da droga. Foi largamente noticiado que o Ministério financiou a ida de médicos defensores do kit-covid a unidades básicas de saúde em Manaus, para fazerem a propaganda dos remédios. A pasta chegou a classificar como “inadmissível” a recusa em usar cloroquina e ivermectina no controle da pandemia na capital do Amazonas. Quem quiser continuar cavando não vai parar de encontrar mais provas da inequívoca orientação. 

A propósito: Didier Raoult, o médico francês que começou toda essa história de promover a hidroxicloroquina como tratamento para a covid-19, reconheceu no início do mês que a substância não altera a mortalidade nem o agravamento da doença. 


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