As autorizações da Anvisa e o início da vacinação

Após 11 meses de pandemia, uma primeira sensação de alívio no país

Foto: Governo de São Paulo

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 Após onze meses de um acúmulo de más notícias, ontem o Brasil pôde se permitir um suspiro de alívio ao ver a primeira pessoa sendo vacinada contra a covid-19 no país: a enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, negra, obesa, diabética e hipertensa, que trabalha desde maio na UTI no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. Ela foi voluntária nos testes de fase 3 com esse imunizante, mas havia ficado no grupo que recebeu o placebo em vez da vacina. 

A cena aconteceu no Hospital das Clínicas da USP às 15h30, apenas alguns minutos depois de a CoronaVac ser aprovada em caráter emergencial pela Anvisa. Como já era esperado, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), conseguiu mesmo se antecipar ao governo federal e garantir sua presença nas primeiras fotografias da imunização no país.

Da coluna de Thiago Amparo, na Folha: “A vacina, há de se frisar, não é produto do espetáculo político no qual Doria e Bolsonaro nos arremessaram; a vacina é produto do Brasil que deu certo e nos fez chorar hoje: é produto do maior sistema público universal de saúde do mundo. É resultado do suor de muitas e muitos: de cientistas em institutos públicos, de servidores públicos, de diretores de agência de saúde com mandato fixo por lei, de profissionais do SUS que trabalham em condições desumanas, de jornalistas que deram nome e rosto para os 200 mil brasileiros que perdemos. A foto de Mônica Calazans (…) encarna em seu punho em riste e choro emocionado a linha de frente da ciência e do serviço público a quem devemos o dia de hoje”. 

Ainda ontem a primeira indígena recebeu a CoronaVac: Vanuzia Costa Santos, de 50 anos, moradora da aldeia multiétnica Filhos dessa Terra, em Guarulhos. Ao todo, cem pessoas foram vacinadas no Hospital das Clínicas. 

Todos os olhares

reunião de deliberação da Anvisa durou cerca de cinco horas e teve mais de 340 mil visualizações no canal da agência do Youtube – um verdadeiro hit, considerando que seus demais vídeos raramente chegaram a mil espectadores. No fim, a Anvisa aprovou por unanimidade o uso emergencial tanto da CoronaVac como da vacina de Oxford/AstraZeneca. O evento acabou frustrando um pouco quem não estava acostumado a esse tipo de apresentação e esperava algo mais acessível ao ao público geral: como todas as outras reuniões do tipo, foi bastante técnica e cheia de detalhes sobre cada análise.

As autorizações foram concedidas com uma série de condicionantes. O Instituto Butantan não apresentou todos os dados previstos sobre a presença de anticorpos nos voluntários vacinados, o que havia sido exigido pela Anvisa ainda no dia 9. Segundo o gerente-geral de medicamentos do órgão, Gustavo Mendes, foi informado apenas se houve ou não a produção de anticorpos, mas não em que quantidade. Se o Butantan não enviar os dados faltantes até o dia 28 de fevereiro, pode perder a autorização emergencial. Esse é um dos pontos do termo de compromisso que a Agência estabeleceu como necessário para a aprovação. O documento foi assinado à noite e publicado em edição extra do Diário Oficial da União.

Além disso, os dados apresentados sobre a eficácia em idosos foram insuficientes para permitir “conclusões mais robustas”, porque só cinco idosos fizeram parte do ensaio com a CoronaVac.

A eficácia nesse grupo também não pôde ser atestada no caso da vacina de Oxford/Astrazeneca. Em relação a esse imunizante, Mendes mencionou ainda a confusão com os braços do estudo que acabou produzindo eficácias distintas, e disse ainda que restam dúvidas quanto à estabilidade do produto no longo prazo (o prazo de validade sugerido é de seis meses)  e quanto à sua pureza. Também houve questões relativas a mudanças no processo de fabricação com o aumento da escala de produção. 

Em tempo: uma das piores coisas da reunião foi o presidente da Anvisa, o contra-almirante Antônio Barra Torres, explicando que os diretores não usariam máscaras porque estavam respeitando as regras de distanciamento. Como a reunião foi em local fechado e o vírus se transmite pelo ar, a justificativa não tem sentido e ainda dá um péssimo exemplo. Por outro lado, uma das melhores foi ver tanto o corpo técnico da Anvisa como a diretoria reafiramando que não há tratamento precoce contra a covid-19. 

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