Incerteza com vacinas começa a corroer o governo

Falha tudo no primeiro dia do plano de distribuição de Pazuello. Atacada pelo Planalto, China atrasa remessa de princípio ativo. Ministro agora nega que tenha recomendado a cloroquina. Pesquisa atesta queda no apoio popular ao ex-capitão

Por Raquel Torres| Imagem: Aroeira

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O REI DA LOGÍSTICA

Com o início da vacinação em São Paulo no domingo e a promessa de distribuir as doses de CoronaVac na segunda-feira, ficou difícil para o Ministério da Saúde manter sua ideia original de começar as aplicações em todos os (outros) estados ao mesmo tempo, no dia 20 de janeiro. Os governadores não iam querer ficar de braços cruzados até lá, e não faria sentido ter uma cerimônia celebrando o início da campanha nacional hoje, dois dias depois de a imunização já ter começado de fato em São Paulo. Então, ontem de manhã, no “ato simbólico de recebimento das vacinas” que promoveu com governadores, o ministro Eduardo Pazuello disse que eles estariam liberados para aplicar suas doses à tarde.

Os gestores estaduais ficaram a postos, mas as coisas não correram conforme o combinado. O Ministério não cumpriu sua própria planilha de horários dos voos, que havia sido entregue aos estados no domingo. E, pior que isso, falhou na comunicação. “Todo mundo foi esperar no aeroporto, e nada. A previsão era meio-dia, depois mudou para 16h. Agora já deve ser 18h. Até que descarregue, não tem como iniciar hoje. Impossível. Só devo começar amanhã”, disse ao Painel, da Folha, o governador de Sergipe, Belivaldo Chagas. E completou: “Não explicaram nada. Simplesmente avisaram em cima da hora. Problema de logística. Eu não fui a Guarulhos [para o evento com Pazuello]. Mas se tivesse ido, teria voltado e a vacina ainda não teria chegado”.

Em reportagem do mesmo jornal, o secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, reforça a confusão: “É incompreensível, ninguém tem informação oficial sobre o que aconteceu. Foi dormir no domingo com uma planilha de horários de voos, acordei já era outra e agora à tarde recebi uma terceira”. O estado já tinha aeronaves e veículos terrestres prontos para distribuir o carregamento aos municípios do interior; precisou mudar tudo.

Mais uma trapalhada na conta do nosso ministro “especialista em logística”. O problema, de acordo com Pazuello, foi o pedido dos governadores para antecipar o começo da vacinação. “Você imagina a mudança da logística para 26 estados em um país continental como o Brasil. Então aeronaves, planos de voo, novas aeronaves contratadas. E, em alguns casos, uma aeronave pequena não pode levar numa perna só, tem que que fazer dois voos. A aeronave grande, que faria um voo só, ia chegar de noite”.

Até ontem à noite, 15 estados tinham recebido suas primeiras doses e iniciado a imunização. Os outros esperam começar hoje. 

NA PONTA DO LÁPIS

Já está mais do que claro que as doses de CoronaVac aprovadas e disponíveis neste momento são poucas para as necessidades mais imediatas do Brasil: apenas seis milhões, que dão para três milhões de pessoas. O próprio Ministério da Saúde estima que elas só vão dar conta de imunizar 0,5% dos idosos e 34% dos profissionais de saúde do país. No primeiro grupo, a pasta decidiu priorizar os que vivem em instituições de longa permanência; no segundo, os que estão na linha de frente do combate à covid-19. No geral, o quantitativo vai ser suficiente para atingir 4% das pessoas dos grupos prioritários estabelecidos no plano nacional. O Conass (conselho que reúne secretários estaduais de Saúde) prevê que esse primeiro lote vai se esgotar muito rapidamente

E depois? O Instituto Butantan pode produzir um milhão de doses por dia, o que é ótimo, mas tem um detalhe: a transferência de tecnologia ainda não foi feita, de modo que os laboratórios não têm como fabricar a vacina do zero em solo brasileiro. Precisam, ainda, importar o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). E o que existe hoje no Brasil só é suficiente para fabricar mais 4,8 milhões de doses (o Butantan pediu ontem à Anvisa aprovação para o uso deste lote). Um contrato acidional com a Sinovac prevê o envio de matéria-prima para mais 46 milhões de doses, que deveria chegar aqui ainda este mês. 

Pois é, deveria. Ao que parece, o governo chinês ainda não autorizou a vinda desse material.  O presidente do Butantan, Dimas Covas, se disse preocupado e sugeriu que, caso o IFA não chegue até o fim de janeiro, o cronograma de entrega das vacinas precisará ser alterado. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), informou que um posicionamento da China era esperado hoje

Não há nenhuma explicação oficial sobre isso, mas a principal hipótese é a de que a China queira aumentar a cobertura vacinal na sua própria população. Até agora, 10 milhões de pessoas foram imunizadas no país, muito pouco para seus 1,4 bilhão de habitantes. No momento em que há novos focos do coronavírus ressurgindo em algumas das províncias, proteger logo as pessoas talvez seja uma prioridade.

Claro que a China é um dos países com maior potencial de produção, o que poderia reduzir, quiçá eliminar o problema da distribuição interna. Ocorre que o mundo inteiro está atrás dos insumos e há contratos comerciais a cumprir, como o firmado com o Butantan. Mas, ao analisar os passos do chanceler Wang Yi, a matéria do Valor indica que a prioridade na “diplomacia das vacinas” chinesa agora não parece ser o Brasil, e sim os países africanos. Segundo a reportagem, as dificuldades não se limitam ao IFA da CoronaVac, mas também ao da vacina de Oxford/AstraZeneca, produzido em outra fábrica do mesmo país. 

Aliás, em relação a esta última vacina, continua não havendo previsão para a vinda das doses prontas importadas da Índia. Eduardo Pazuello disse que tem tido reuniões diplomáticas com o governo indiano, mas o problema é o “fuso horário“. 

QUEM, EU?

“O senhor falou em atendimento precoce e e não citou mais a cloroquina…”, ia perguntando uma repórter. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, nem a deixou concluir a questão. Ficou nervoso, reclamou que não estava ouvindo nada, tirou a máscara, colocou de volta e tirou de novo, enquanto dizia, francamente exaltado: “Eu não falei isso, senhora. Eu não falei isso, senhora. Eu não usei esse termo nenhuma vez, a senhora não ouviu falar nada disso. A senhora não ouviu falar em nenhum remédio. Então por que está dizendo que eu falei? Senhora, a senhora nunca me viu, nunca me viu receitar ou dizer, colocar para as pessoas tomarem esse ou aquele remédio. Nunca. Não aceito a sua posição”.

Ele parecia quase ofendido, e seguiu adiante: “Eu nunca autorizei que o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos (…). Nós defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde, procure o médico. E o médico faça o diagnóstico clínico do paciente. Este é o atendimento precoce. Que remédios o médico vai prescrever, isso foro íntimo do médico com seu paciente. O ministério [da Saúde] não tem protocolos sobre isso, nem poderia ter. Não é missão do ministério definir protocolo para o tratamento. Tratamento é uma coisa, atendimento é outra”. 

Claro, claro. Poucas coisas são inacreditáveis no governo Bolsonaro, mas esta reação foi, no mínimo, inesperada vinda de quem nunca se importou em ter ver nome junto ao dessa droga.  Felizmente, um bom número de veículos jornalísticos deu a notícia com a manchete que ela merece: “Pazuello mente”, em vez de “Pazuello erra”, como tanto se costuma ver. 

Pacientemente, repórteres fizeram um apanhado de ocasiões em que o ministro e a pasta comandada por ele recomendaram o uso da hidroxicloroquina, além de outros remédios ineficazes, no tratamento precoce. O mais antigo e sedimentado é o documento que contém as orientações do Ministério para o manuseio medicamentoso precoce da covid-19. Lembramos que o guia foi publicado dias depois da demissão do ex-ministro Nelson Teich, quando Pazuello era interino. Desde então, passou por duas revisões mas manteve a cloroquina, com dosagem sugerida e tudo.

Além disso, na semana passada Pazuello lançou o aplicativo TrateCOV, voltado a profissionais de saúde, que indica a prescrição da droga. Foi largamente noticiado que o Ministério financiou a ida de médicos defensores do kit-covid a unidades básicas de saúde em Manaus, para fazerem a propaganda dos remédios. A pasta chegou a classificar como “inadmissível” a recusa em usar cloroquina e ivermectina no controle da pandemia na capital do Amazonas. Quem quiser continuar cavando não vai parar de encontrar mais provas da inequívoca orientação. 

A propósito: Didier Raoult, o médico francês que começou toda essa história de promover a hidroxicloroquina como tratamento para a covid-19, reconheceu no início do mês que a substância não altera a mortalidade nem o agravamento da doença. 

TIC-TAC

Não é de hoje que se aventa a queda do terceiro ministro da Saúde sob o governo Jair Bolsonaro. Uma reportagem da Folha conta que tem aumentado a insatisfação das Forças Armadas como general, especialmente após a derrota do Ministério para João Doria em relação às vacinas. Sua negligência com a saúde dos brasileiros estaria colocando em xeque a aprovação popular dos militares. Com o desgaste, o Centrão já estaria pressionando por nova mudança na condução da pasta. Um nome já bastante ventilado é o de Ricardo Barros (PP-PR),  atual líder do governo na Câmara e (péssimo) ministro da Saúde no governo Temer. A novidade é que, segundo a Folha, ele poderia entrar ainda este semestre. A ver. 

SEGUE O DRAMA

“Nossa reserva de oxigênio está zerada. Temos 37 pacientes internados dividindo 11 balas de oxigênio para que nenhuma vida seja perdida. Estamos pedindo remédios emprestados, oxigênio, não temos recursos. Hoje dependemos de doações, estamos entrando em desespero”. Não é ninguém de Manaus falando, mas o secretário de Governo da Prefeitura de Faro, no Pará. A cidade, de apenas oito mil habitantes, está passando por graves dificuldades com o boom nos casos após as festas de fim de ano.

Para o Amazonas, a Justiça Federal obrigou o governo federal a tomar medidas urgentes, como o transporte imediato de cilindros disponíveis em outros estados. 

NÃO ERA SEM TEMPO

O percentual da população que considera o governo Bolsonaro  ruim ou péssimo subiu de 35% para 40%, segundo uma pesquisa de opinião da XP Investimentos em parceria com o Ipespe. É a primeira vez que o levantamento verifica essa alta desde o começo da pandemia. Ao mesmo tempo, caiu de 38% para 32% a percentagem dos que acham a administração ótima ou boa. A mudança pode ter múltiplas razões, mas, por aqui, apostamos nossas fichas no fim do auxílio emergencial. 

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