O desespero bate à porta

Governo federal abandona Ernesto Araújo e tenta jogar com outras fichas para conseguir diálogo com China e Índia e trazer matéria-prima de vacina. Futuro ainda é incerto

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O assessor para assuntos internacionais do Palácio do Planalto, Filipe Martins, deu ontem uma entrevista à Rede TV! dizendo que tem havido “um grande alarde em torno de nada“. O que ele chama de “nada” é o atraso na chegada dos matéria-prima necessária para a fabricação da CoronaVac e da vacina de Oxford/AstraZeneca, o que periga fazer com que a campanha de vacinação no Brasil seja pausada poucos dias depois de começar.

A Fiocruz já reconheceu que a distribuição de suas vacinas, antes prevista para o início de fevereiro, pode acabar ficando para março. O Instituto Butantan, por sua vez, chegou ao limite da produção da CoronaVac com os ingredientes ativos de que dispunha. “Posso garantir a investidores e consumidores que fiquem tranquilos”, continuou Martins, afirmando que o Brasil está negociando a compra de insumos de “outros países”. 

O ar tranquilizador não consegue enganar. Quanto à negociação com a China, a interlocução do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo (que não perde uma oportunidade de falar mal do país) dificilmente trará algum resultado. Ontem ele negou que problemas de “natureza política” estejam interferido no fornecimento de insumos, mas disse que “não é possível falar de prazo nesse momento”. O governo parece ter desistido dele e está mobilizando outros atores – do vice-presidente Hamilton Mourão à ministra da Agricultura Tereza Cristina – para tentar levar a conversa adiante. Ontem à tarde, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello se reuniu com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. O embaixador também conversou com Rodrigo Maia (o presidente da Câmara afirmou, em seguida, que as razões para o atraso são puramente técnicas). E, com o rabo entre as pernas, o presidente Jair Bolsonaro solicitou uma conversa telefônica com presidente chinês Xi Jinping. Não se sabe se será atendido.

Enquanto isso, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) disse que está em diálogo com as autoridades chinesas, por conta própria.

O governo também tenta tatear as autoridades indianas – por enquanto, sem sucesso. Parece que agora já nem há mais a expectativa de conseguir a liberação imediata dos insumos, mas ao menos que o governo da Índia solte algum comunicado público garantindo que esse envio será feito no “curto prazo”. Segundo o Valor, os aliados políticos de Bolsonaro veem nesse comunicado uma forma possível de reduzir os danos políticos que o atraso tem gerado. Fontes ouvidas pela reportagem dizem que não há nenhum sinal de que a entrega possa ocorrer ainda este mês

Essa semana a Índia anunciou o início da exportação de insumos para seis países, mas não incluiu o Brasil. Uma das explicações para a trava é a inadmissível falta de apoio do governo brasileiro à proposta indiana de quebra temporária de patentes durante a pandemia, apresentada no ano passado à OMC. Seja como for, está bem claro que nesse momento o mercado prioritário para a China são os países africanos, enquanto para Índia são seus vizinhos asiáticos. 

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