Nada será como antes

Descobrir a vacina contra covid-19 pode levar muito mais do que um ano, e mesmo assim não será nada fácil universalizar as doses. Até lá, como será o novo normal?

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Sem vacina, sem remédio e sem saber tudo o que há para se saber sobre o SARS-CoV-2 e a covid-19, não dá para prever nada com exatidão. Mas numa coisa os cientistas que se debruçam sobre o novo coronavírus concordam: não vai haver vida normal tão cedo. Uma análise divulgada por pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos EUA, apresenta três cenários para o hemisfério Norte, observando que padrões semelhantes podem ser observados no Sul.

Em um desases futuros possíveis, há esta primeira onda monstruosa que estamos vivendo, seguida por mini-ondas de surtos menores a cada poucos meses. Entre uma e outra onda, espaços com poucos (mas não zero) casos. No segundo cenário, a onda atual termina e é seguida por outra pior e mais duradoura depois que as medidas de isolamento são mais relaxadas do que deveriam. Em seguida, as coisas se acalmam, e são perturbadas apenas por uma onda ocasional bem menor (foi o que aconteceu com a gripe espanhola). No terceiro cenário há surtos de covid-19 praticamente iguais em tamanho e intensidade até o fim de 2022, caso uma vacina tenha sido descoberta. Caso contrário, isso segue acontecendo até que mais da metade da população tenha sido infectada.

Os pesquisadores reconhecem que não dá para prever qual dos futuros hipotéticos tem mais chance de se concretizar, porque ainda há muitas perguntas sem resposta. Não se sabe como temperatura e umidade interferem na transmissão, quantas pessoas foram infectadas no mundo todo, quanto tempo dura a imunidade que elas adquirem etc. Nem o impacto das estratégias de isolamento foi medido: sabemos que elas impedem a transmissão no geral, mas não o quanto cada medida individualmente funciona. De todo modo, nos três casos, a ameaça só acaba quando se chega na imunidade de rebanho, se não houver uma vacina. Como o mundo está longe desse nível de imunidade, o vírus vai continuar encontrando potenciais vítimas por muito, muito tempo.

E se não houver vacina tão cedo? Ninguém gosta de pensar nessa possibilidade, mas ela existe, e não é pequena. A matéria da CNN lembra dos vírus HIV e dengue, que há décadas quebram a cabeça dos pesquisadores. Um plano B – como o tratamento com antivirais que transformou portadores de HIV em doentes crônicos – já está no radar para a covid-19, e vários remédios estão sendo testados nesse sentido.  Mas tratamentos não impedem que ocorram infecções, ou seja, a pandemia poderia diminuir, mas a doença ficaria conosco por anos, como apontam os três cenários acima. Nesse caso, especialistas indicam que os governos precisam implementar novas maneiras de viver e interagir para que o mundo ganhe tempo enquanto as pesquisas com vacinas continuam.

Medidas muito restritas de isolamento não são sustentáveis por longos períodos. Mas, depois que a primeira onda acabar, o novo normal deve envolver trabalho remoto sempre que possível, escritórios com horários alternativos, pessoas que se autoisolam ao menor espirro e programas massivos de testes para identificar novos surtos, com monitoramento extensivo e vigilância nos locais de trabalho. Como você já deve imaginar, as medidas são muito mais difíceis em regiões pobres. Quando ficar confirmado que a transmissão é mínima, eventos esportivos e aglomerações em geral poderiam voltar, mas sempre com avaliação contínua. 

Por tudo isso, é claro que o melhor futuro é aquele em que se desenvolve uma vacina segura e eficaz o quanto antes. “O sarampo é o ‘exemplo perfeito’. Antes da disseminação das vacinas, todos os anos de 2 a 3 milhões de pessoas pegavam sarampo, e isso também seria verdade para o coronavírus”, diz à reportagem Paul Offit, co-inventor da vacina contra o rotavírus.

Mesmo assim, os desafios seriam imensos. Afinal, não basta descobrir e fabricar a vacina, tem que universalizar sua aplicação. Tratando só do caso dos EUA, a matéria do New York Times dá uma ideia da dificuldade: “Estamos pensando na vacina, mas e se os frascos em que ela estiver armazenada ou os êmbolos nas seringas se tornarem a restrição?” indaga Prashant Yadav, que estuda cadeias de suprimentos de saúde no Center for Global Development em Washington. Os fabricantes de dispositivos médicos precisam aumentar seus estoques ou encontrar cadeias de suprimentos alternativas, mas tudo precisa de planejamento. E, segundo a matéria, para conseguir produzir mais 300 milhões de seringas (tamanho da população dos EUA) um fabricante pode levar até 18 meses. Mais uma vez: não seria arriscado apostar que os países mais ricos terão condições de se proteger mais rápido.

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