O efeito Bolsonaro

Campanha contra isolamento social do presidente provocou maior circulação de pessoas e, consequentemente, aumento nos casos de coronavírus

Ilustração: Cristiano Siqueira

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Quando a mais alta autoridade da República insiste em minar os esforços de isolamento social, é natural que isso tenha consequências. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Fundação Getúlio Vargas quantificou esse efeito. Segundo eles, atos e discursos de Jair Bolsonaro podem estar por trás de pelo menos 10% dos casos e até mesmo de mortes registradas pelo novo coronavírus no Brasil até domingo. 

Eles identificaram dois episódios de inflexão na tendência que vinha sendo de respeito às quarentenas. Primeiro, a manifestação de 15 de março contra o Congresso e o STF, na qual Bolsonaro pousou para selfies e deu abraços em apoiadores mesmo estando sob recomendação de isolamento por ter tido contato com um punhado de infectados (e talvez pelo fato de ele próprio estar contaminado). Na sequência, veio o pronunciamento inesquecível de 24 de março, quando ele falou de seu “histórico de atleta” e chamou a covid-19 de gripezinha e resfriadinho. 

Nos dez dias subsequentes, esse combo de irresponsabilidade teria provocado um movimento adicional de um milhão de pessoas circulando nas ruas. A conclusão foi tirada de dados de movimentação de 60 milhões de celulares. Os donos dos aparelhos não foram identificados. 

A partir daí, os pesquisadores levaram em consideração variáveis como a proporção de contaminados em relação à população em geral e o potencial de infecção de cada indivíduo portador do vírus. E descobriram que os episódios protagonizados por Bolsonaro podem ter sido responsáveis por, no mínimo, 500 novos casos diários no período estudado, de dez dias. Ou seja, dez mil casos. A mesma equação aplicada aos óbitos indica que as declarações podem estar por trás de, pelo menos, 700 mortes. Mas os números podem ser maiores, dada a subnotificação do coronavírus que graça no Brasil.  

Mas o estudo foi além e comparou o índice de distanciamento social entre municípios mais ou menos bolsonaristas. Com base nos resultados das eleições presidenciais de 2018, os cientistas identificaram as cidades onde Bolsonaro recebeu mais de 50% dos votos no primeiro turno. Houve uma adesão à quarentena de apenas 24% da população em cidades como Ascura (SC) e Nova Santa Rosa (PR) que estão no topo dos municípios que deram maior votação ao capitão reformado. 

“Nossa pesquisa sugere que as declarações sobre comportamento de saúde pública são levadas a sério pelos seguidores, a despeito do seu rigor científico ou da sua capacidade de causar danos”, disse em entrevista ao Globo Tiago Cavalcanti, um dos autores do estudo.

Outra pesquisa, esta das universidades da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e de Bocconi, na Itália, se concentrou no impacto das manifestações do dia 15 de março em 255 cidades. Chegou a conclusões semelhates. Nos municípios com menor concentração de eleitores de Bolsonaro, os protestos que ocorreram em 15 de março fizeram com que a curva de contágio aumentasse 24,7% em comparação com os locais que não tiveram atos a favor de Bolsonaro. Já nos locais que registraram atos e onde ele também teve maioria popular, a taxa de contágio foi 43,3% mais rápida do que nas cidades onde o presidente não teve a maioria dos votos e que não sediaram os atos.

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