Dá para confiar?

A China recusa, mas o Brasil compra: como estamos sendo inundados por testes rápidos considerados ruins até pelos países de origem

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 5 de maio. Leia a edição inteira.
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O Brasil está comprando testes rápidos para covid-19 que nem os países produtores querem. A descoberta foi feita pelo Intercept, cruzando dados da liberação de testes aqui e em outros países. No total, a Anvisa autorizou testes fabricados por 28 laboratórios estrangeiros, mas, desses, apenas sete foram aprovados em inspeções nos países de origem. A maior parte dos exames aprovados aqui são chineses: 15. Mas apenas três deles foram aprovados na própria China. Para citar um exemplo, os testes fabricados pela empresa Hangzhou Biotest Biotech têm um grau de confiabilidade tão baixo que a China proibiu as exportações do fabricante no começo de abril. Só que o Brasil já tinha importado um carregamento. Testes ruins estão sendo usados em estados como Amazonas, Paraíba e Bahia.

A questão, segundo a reportagem de Breno Costa, é que a Anvisa mudou suas regras para “tirar as burocracias do caminho” e acelerar a autorização de testes, além de equipamentos médicos: “A Anvisa decidiu aceitar documentação incompleta dos fabricantes e não fazer inspeção para certificar práticas adequadas de fabricação”. Mesmo quando há documentos pendentes, pode-se dar uma autorização provisória de um ano.

Lembramos queos testes rápidos são aqueles chamados sorológicos, que identificam a presença de anticorpos. Mesmo quando ‘bons’, eles ainda são menos confiáveis do que os testes PCR, feitos com análise laboratorial. Foram esses testes rápidos que a Anvisa permitiu vender nas farmácias, para qualquer pessoa. E, quando comprados pelos poder público, a prioridade é usá-los em profissionais de saúde. Justo os que estão na linha de frente do combate ao coronavírus, que confiam nos resultados para orientar seu isolamento e sua volta ao trabalho de modo que não contaminem pacientes e outros profissionais.

Os Estados Unidos tiveram grandes problemas com isso, exatamente porque sua agência reguladora, a FDA, também não fazia grandes exigências. Assim com o Brasil, o país testava pouquíssimo e sofria (corretas) pressões para aumentar a testagem. Só que, como reconhece agora, abriu as portas para fraudes que não tardaram a aparecer. Ontem, o país passou a impor que os testes rápidos passem por uma revisão da FDA, incluindo os que já estão no mercado. Eles só vão poder ser comercializados se tiverem taxas mínimas de resultados corretos (90% no caso dos positivos e 95% no caso dos negativos).

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