Militares em todos os lugares

Diante da crise nos hospitais federais do Rio, governo chama profissionais das Forças Armadas – mas também pisca para a Saúde privada… Leia também: os desafios para uma vacina anti-gripe; marketing ultra-invasivo contra as gestantes

Foto: Tereza Sobreira / Ministério da Defesa

MILITARES EM TODOS OS LUGARES

Ontem, o governo federal lançou uma ação integrada com foco nos seis hospitais federais do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro. E adivinha? Uma das “soluções” é mais presença militar. Profissionais da Marinha, Exército e Aeronáutica vão ocupar cargos na estrutura administrativa das unidades. A ênfase será na gestão de processos e abastecimento. Um dos objetivos é que as compras, como as de medicamentos, sejam centralizadas pelas Forças Armadas. “Esse é um processo de transformação”, definiu o ministro Luiz Henrique Mandetta que negou que se trate de uma “intervenção”: “não se intervém em algo que é da sua responsabilidade”, justificou. Segundo O Globo, a ideia de contar com militares partiu de Mandetta, que fez o pedido para o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

Outra parte da ‘solução’ vem do setor privado. Mais especificamente deles, os hospitais “filantrópicos de excelência”, beneficiados com isenção fiscal pelo Proadi, programa criado há quase dez anos, ainda no governo Lula. Sírio-Libanês, Albert Einstein, Alemão Oswaldo Cruz, Hospital do Coração e Moinhos de Vento farão parte da ação integrada, composta por três etapas: diagnóstico de cada unidade, produção de estratégia de gestão e início da implementação de um plano de atuação. Também será contratada uma consultoria do setor de gestão, a Falconi, para reorganizar os fluxos de trabalho dos hospitais.

Segundo Mandetta, será definida uma linha de cuidado para cada um dos hospitais, que são: Servidores, Andaraí, Bonsucesso, Ipanema, Cardoso Fontes e Lagoa. Juntas, as unidades dispõem de 1,6 mil leitos. Um dos objetivos é ampliar a produção por leito, diminuindo o tempo médio de internação por paciente. Mandetta também anunciou a integração dos leitos à central de regulação municipal.

Um problema das unidades é conhecido há tempos: a falta de servidores. A Rede Federal passa apertos periódicos com o fim dos contratos temporários de profissionais. O Ministério da Saúde tem evitado a realização de concursos. Assim, há casos de quem trabalhe como “temporário” nesses hospitais há dez anos. 

REPASSES IRREGULARES

Um relatório do Tribunal de Contas da União acusa o Ministério da Saúde de repassar R$ 76 milhões provenientes de emendas parlamentares para hospitais e clínicas privadas. Por lei, esses recursos precisam ser direcionados para o SUS. A verba foi transferida para que os estabelecimentos particulares pagassem contas de água, luz, telefone, combustível… O repasse ilegal aconteceu em 16 estados e, segundo o Estadão, teve início tímido em 2015, ganhando fôlego em 2017 e 2018 – período em que a responsabilidade pelas transferências ficou a cargo de Francisco de Assis Figueiredo, secretário de Atenção à Saúde da pasta nas gestões de Ricardo Barros e Gilberto Occhi, que foi mantido por Mandetta no cargo.  

Não há esforço em esconder os escusos interesses por trás dos repasses ilegais, como mostra o exemplo mais vultoso: “”Quase 10% do total repassado irregularmente pelo Ministério da Saúde foi para Coruripe, em Alagoas. A cidade, com 52 mil habitantes e ligada ao ex-ministro do Turismo e deputado federal Marx Beltrão (PSD-AL), recebeu R$ 7,5 milhões, numa portaria de 2017. Os recursos foram destinados a um único hospital, Carvalho Beltrão, também ligado à família do deputado do PSD. A instituição é dirigida por Francisco Beltrão”, escreveu a repórter Lígia Formenti que fez as contas e concluiu que o dinheiro encaminhado ao hospital equivale a quase seis meses de transferências do Ministério da Saúde para custear todos os exames, cirurgias e tratamentos de média e alta complexidade realizados no município pelo SUS no ano passado.

Diante da investigação do TCU, uma portaria publicada 10 dias antes do fim do governo Temer redirecionou R$ 51 milhões que iriam para unidades particulares para hospitais públicos e sem fins lucrativos. E determinou que outros R$ 25 milhões deveriam ser devolvidos para a Viúva. Questionado, o Ministério da Saúde não respondeu se o dinheiro já retornou aos cofres públicos

OUTRA DE DAMARES

O repórter Eduardo Goulart de Andrade conta na Vice uma história bizarra. A protagonista não surpreende: é Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ela tentou anular uma decisão do Tribunal de Justiça de Goiás que, em 2013, autorizou uma mulher em tratamento de um câncer maligno no pulmão a interromper a gestação. Jéssica da Mata Silva passou por cirurgia para retirar o tumor. Foi depois do procedimento que ela descobriu a gravidez. Como precisava fazer radioterapia e quimioterapia, tratamentos que trazem riscos de má-formação, Jéssica procurou a Defensoria Pública. O órgão entrou com pedido de aborto terapêutico por entender que ela corria risco de morte caso não fizesse o tratamento. 

O pedido foi negado na primeira instância e acatado na segunda. Assim que saiu a decisão, Jéssica se internou em um hospital do SUS para fazer o procedimento, mas a indução por medicamentos não fez efeito. Ela ficou internada nove dias. Enquanto ela estava no hospital, Damares Alves moveu a liminar no Supremo Tribunal de Justiça para anular a decisão favorável à Jéssica. “O principal argumento da advogada-pastora era de que o feto estava ‘ameaçado no seu direito de ir e vir e, mais que isso, em seu direito à vida”, conta a reportagem.  Fica pior: Damares argumentou que “tampouco o aborto serviria para ‘curar’ o tumor da mãe, sendo errôneo denomina-lo ‘terapêutico'”. O relator do caso no STJ votou contra o pedido de Damares. Jéssica sequer ficou sabendo da movimentação da pastora. Descobriu ao ser procurada pelo repórter, semana passada. 

ATESTADO DE IGNORÂNCIA

Outro ministro que dá o que falar é o do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Piauí sistematizou os episódios suspeitos da sua trajetória, ainda como titular da secretaria estadual de Meio Ambiente de São Paulo no governo Alckmin, e compilou as declarações sem sentido que ele têm dado à imprensa.

MEDO E DELÍRIO EM DAVOS

Depois do discurso, possivelmente o mais curto já proferido por um chefe de Estado no Fórum Econômico Mundial, Jair Bolsonaro pagou outro mico em Davos. Desta vez, por no show. É que a coletiva de imprensa que ele e os três ministros que o acompanham dariam foi cancelada 40 minutos antes de começar. Os jornalistas estrangeiros chegaram a esperar no local, até serem avisados do cancelamento. E tem mais: a primeira justificativa dada para a abrupta mudança de planos foi a “abordagem antiprofissional da imprensa”. Isso em meio à repercussão dos desdobramentos do escândalo envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro. Folha conta que depois que a informação foi publicada, a comitiva brasileira mudou essa versão não uma, mas duas vezes. Primeiro, disse que o presidente quis se poupar de uma agenda cheia. Como todos os outros compromissos foram mantidos, veio outra desculpa: Bolsonaro teria ido ao hotel trocar a bolsa de colostomia… Os ministros Paulo Guedes (Economia), Sérgio Moro (Justiça) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores) que não têm, pelo que consta, nenhuma condição de saúde, não apareceram. A foto das cadeiras vazias já virou meme na internet. 

E para fechar com chave de ouro, o assessor da Presidência, Tiago Pereira Gonçalves, que divulgou a primeira versão para a imprensa foi tirar satisfações com o jornal por ter publicado a informação. “Exaltado, ele abordou a reportagem ao lado do bar do lobby do hotel em que a delegação está hospedada. No fim da altercação, tocou levemente o ombro do jornalista (…), mas não fez ameaças nem o intimidou. Foi conduzido para fora do ambiente por outros repórteres que estavam no local e por funcionários do estabelecimento”, descreve a Folha.

EM BUSCA DA VACINA PERFEITA

As rápidas mutações dos vírus influenza, que causam a gripe, são um grande desafio para os pesquisadores que desenvolvem vacinas. A eficácia da imunização varia de pessoa para pessoa, e se altera a cada ano. A vacinação precisa acontecer todo o inverno e, no melhor cenário, protege metade das pessoas imunizadas. Guardian relembra os esforços para combater a gripe, que começaram há cem anos, em 1919, quando pesquisadores dos Estados Unidos, ainda sem muito conhecimento, produziram uma vacina para combater uma epidemia de gripe. O influenza só seria identificado em 1933, na então União Soviética, que conseguiu fazer uma vacina com vírus atenuado, que alcançou cerca de um bilhão de pessoas no país ao longo do século 20. O próximo passo foi perseguir uma imunização com o vírus inativo, mais segura, o que aconteceu nos anos 1950. Na década de 1970, foi criada uma vacina contra três tipos do vírus. Desde 2016, há uma vacina contra quatro tipos. 

“A receita para uma boa vacina contra o influenza é combinar as cepas em circulação na estação. O desafio é que demora seis meses para produzir a vacina, de maneira que os pesquisadores precisam selecionar os ingredientes com base num trabalho detetivesco da Organização Mundial da Saúde”, informa o jornal. A OMS dispõe de 110 centros credenciados para pesquisa da influenza, espalhados por 80 países. Eles são os responsáveis por identificar quais cepas estão circulando e, ocasionalmente, descobrem uma nova. Duas vezes por ano, a Organização realiza um encontro para coletar toda essa informação e, assim, recomendar a “receita” da vacina para a próxima estação fria. 

ALVO DOS BOATOS

E falando em vacinas, grupos contrários aos imunizantes estão usando as redes sociais para identificar potenciais alvos para suas campanhas de desinformação. Um grupo dos Estados Unidos chamado ‘Basta à Vacinação Compulsória’ chegou a pagar no Facebook por uma propaganda ligando imunização à mortes tendo como alvo perfis de pais de bebês recém-nascidos. Relatório da Royal Society for Public Health do Reino Unido concluiu que dois em cada cinco pais de crianças pequenas naquele país foram expostos a boatos na internet.   

PROPAGANDA PARA GESTANTES

No Intercept Brasil, Daniela Silva fala sobre as invasivas estratégias usadas por empresas de produtos para bebês a partir de uma experiência pessoal dolorosa. Ela sofreu um aborto espontâneo e, meses depois, se deu conta do quão difícil é sair das garras do e-mail marketing de uma delas. Ela informou seu endereço eletrônico para a Pampers e, quando a gravidez foi interrompida, mandou uma mensagem para o “Fale Conosco” da empresa pedindo para não receber mais as mensagens. Não foi atendida. Tempos depois, um e-mail da empresa de fraldas furou seu bloqueio de spam e ela percebeu que recebeu dezenas de mensagens da empresa. Para se descadastrar da newsletter que sequer assinou, a Pampers exigia que ela informasse mais dados pessoais: endereço domiciliar, telefone e nome completo. “Empresas de dados que lidam com gestantes precisam criar consciência sobre as altas taxas de aborto – um tema que já é tabu – e adaptar as suas ferramentas para a realidade. (…) e nós, mulheres, precisamos lebrar que o mercado de dados não é nosso aliado. Precisamos proteger nossos dados. Precisamos nos proteger”, conclui.

NA FARMÁCIA

A maioria dos brasileiros (55%) ainda prefere comprar medicamentos de referência ao invés de genéricos (45%), segundo pesquisa realizada pelo instituto da Federação Brasileira de Farmácias em parceria com a Unicamp. Metade dos consumidores buscam economia em primeiro lugar quando vão às compras. E 33% levam produtos diferentes do objetivo inicial, seguindo orientações do farmacêutico.

EM DETALHES

Nexodetalhou o perfil de gênero, renda, escolaridade, cor, idade, orientação sexual e preferência política por trás da pesquisa do Datafolha que, dentre várias perguntas, questionou se deveria haver orientação sexual nas escolas e se vítimas de estupros deveriam receber ajuda financeira para ter o filho (como propõe Damares Alves). Por exemplo: 80% dos que se declaram bissexuais concordam que educação sexual deve ser debatida na sala de aula. Não é surpresa, certo? Em terceiro lugar como o grupo que mais concorda com a afirmação estão os espíritas, com taxa de mais de 75%. Já em relação à proposta de Damares, o grupo que mais concorda é o que declarou o PSDB como o partido de preferência.

DÉFICIT NA ESPANHA

O Ministério da Saúde espanhol concluiu que faltam quatro mil médicos especialistas no sistema público do país. E a situação deve piorar com a aposentadoria de muitos trabalhadores, a ponto do déficit, que hoje está em 2,9%, saltar para 12% em 2025. Há 12 anos, outro levantamento feito pelo governo já indicava que faltavam três mil especialistas. As especialidades mais demandadas são pediatria, anestesia, radiologia e urologia. Também há problemas na atenção primária, com baixa renovação de profissionais. Hoje, 27,5% dos médicos de família e comunidade tem 60 anos ou mais e apenas 13% têm menos de 39 anos. Se a taxa de médicos especialistas aumentou 6% entre 2010 e 2016, a de médicos da atenção primária subiu apenas 1% no período.    

MOBILIZAÇÃO

O movimento Nenhum Serviço de Saúde a Menos, que se organizou em 2017 para denunciar a crise na saúde carioca, promove hoje atividades como aferição de pressão e esclarecimentos sobre as demissões da gestão Marcelo Crivella que afetam a atenção básica. Acontece das 8h30 às 13h30, no Largo do Machado.

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