Apoio às avessas, nas redes sociais da bulimia

“Foco na beleza, rumo à magreza extrema”. Como a internet estimula transtornos alimentares em meninas com menos de 10 anos. Leia também: já se morre nos EUA por insulina cara; 25 anos de Saúde da Família; as ameças do governador do DF

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APOIO ÀS AVESSAS

É bem assustador entrar no Instagram e buscar hashtags como #ana e #mia, que se referem a anorexia e bulimia. São milhões de publicações de pessoas – normalmente meninas – tentando se manter em dietas super rígidas, ou dando dicas, ou recebendo “apoio” para continuar, ou postando fotos com as costelas aparecendo, ou tudo isso junto. Uma matéria do Estadão conta que a busca por dietas malucas na internet começa muito cedo, e profissionais relatam atendimento a crianças com transtornos alimentares a partir dos 8 anos de idade. Uma pesquisa do TIC Kids Online descobriu que uma entre quatro brasileiras de 11 a 14 anos disse já ter tido contato na internet com formas para ficar muito magras.

Além do Instagram, onde as imagens da magreza extrema fazem sucesso, o Twitter tem perfis secretos compartilhando dicas de como enganar a família sobre as (ausentes) refeições e ensinam práticas para perder peso. E no Whatsapp, essa terra de ninguém, há inúmeros grupos ligados a anorexia e bulimia promovendo mutirões de jejuns. A reportagem transcreve a descrição de um deles, com mais de 200 participantes: “Todas unidas com um único propósito, foco no NF (no food), foco na beleza, rumo à magreza extrema. Rumo à perfeição”. 

NAS VITRINES

A Holanda legalizou a prostituição no ano 2000, e por trás das famosas vitrines do Bairro da Luz Vermelha não há muito glamour. A matéria da BBC conta que as mulheres ficam expostas a abusos e intimidações, tentam esconder o rosto enquanto são fotografadas por turistas – para muitas, sua profissão é um segredo – e há vítimas de tráfico humano. Hoje, sequer há dados quantitativos sobre essa atividade em Amsterdã, mas estima-se que haja pelo menos 400 se prostituindo contra a sua vontade. A prefeita discute a ideia de autorizar a prostituição para além do bairro, mas enfrenta críticas, porque a medida poderia confirmar o título de Amsterdã como capital mundia da prostituição e, por exemplo, aumentar o tráfico de mulheres. Mas de todo modo o negócio está migrando cada vez mais para a internet. Onde, se por um lado as mulheres são menos humilhadas em público, por outro o controle é ainda mais difícil para as autoridades.

25 ANOS

Este ano a Estratégia Saúde da Família completa 25 anos. A matéria da nossa editora Maíra Mathias no site da EPSJV/Fiocruz conta um pouco da sua história, dos seus resultados e da atuação de cada categoria que faz parte das equipes multiprofissionais. Em 1994, mais de mil cidades não tinham médicos, e muitas não tinham serviços. Hoje, a ESF cobre 64% da população, em  5.481 dos 5.575 municípios brasileiros. Mas a mudança não foi só quantitativa. A Estratégia sempre se propôs a mudar a perspectiva biomédica que guiava a saúde no Brasil, dependente de remédios, equipamentos e procedimentos.

Entre 2001 e 2016, a taxa de internações diminuiu 45%, passando de 120 para 66 por cada grupo de 10 mil habitantes. Nas capitais, a redução foi de 24% e nos municípios do interior, chegou a 48,6%. Agora, a nova Política Nacional de Atenção Básica aprovada em 2017 tem tudo para fazer a tão elogiada ESF perder espaço. É que a política reconhece outros arranjos de atenção primária, com equipes diferentes (e mais reduzidas). 

UM BENEFÍCIO A MAIS

A tuberculose ainda é uma doença importante no Brasil, com 70 mil vítimas por ano. Está ligada à pobreza. E uma pesquisa publicada na Lancet mostrou a importância do Bolsa-Família para melhorar os números: houve um aumento de 7,8% na taxa de cura entre pessoas que recebem o benefício, em comparação com outras com as mesmas características demográficas e socioeconômicas, mas que não o recebem. Pra ter ideia do que isso representa:  “Para um novo medicamento lançado no mercado atingir 5% de diferença em relação ao tratamento existente é uma dificuldade enorme”, diz à BBC a epidemiologista Ethel Maciel, pesquisadora da UFES e coordenadora do estudo. 

VENTOS DE AMEAÇA NO DF

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), quer mudar o modelo de gestão em toda a Secretaria de Saúde, adotando aquele praticado no  Instituto Hospital de Base – em suma, quer privatizar a gestão no DF. Pelo projeto de lei enviado pelo Executivo aos deputados, este instituto passaria a se chamar Organização Hospitalar do Distrito Federal, que seria “pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, de interesse coletivo e de utilidade pública”. E incorporaria, aos poucos, as UPAS, as unidades hospitalares regionais, as unidades de referência distrital e o SAMU. Essas unidades, conforme incorporadas à OHDF, seriam extintas, e seus servidores poderiam ser cedidos. 

Os sindicatos se mobilizaram contra a proposta. E os deputados da oposição também criticaram o projeto: o consideram uma ameaça que representa o desmonte do SUS e a precarização do serviço público no DF. Mas teve uma ameaça ainda mais concreta: Ibaneis disse que ia processar os deputados que votassem contra. “Em meses, várias pessoas vão morrer. Eles [deputados] escolhem o que querem, a partir daí eu vou entrar com uma ação contra cada um pela morte de cada cidadão”, afirmou. Depois recuou.

DOUTOR VIRTUAL

Teldoctor: este é o nome de um app que funciona há sete meses e já oferece mil consultas diárias. Consultas médicas pela internet, por R$ 69. A pessoa responde a algumas perguntas, fala de suas queixas de saúde, as informações viram um prontuário, um médico o lê e faz uma prescrição de remédio, ou de exame. E não é só isso. O Teldoctor tem uma parceria com a rede de farmácias Forte Farma (e quer levar a outras redes) e, quando uma pessoa chega na farmácia sem receita pra comprar um remédio, é orientada pelo farmacêutico a fazer uma consultinha online para conseguir a receita.  

MÉDICOS CUBANOS

Pela TV, Nicolás Maduro disse que esta semana dois mil médicos cubanos que estavam no Brasil chegarão à Venezuela

E o Ministério da Saúde estima que 1.900 deles ficaram por aqui. Destes, 1.100 são casados com brasileiros e estão em situação regular. Os outros, não. A Folha fez um levantamento a partir de dados do Conare (Comitê Nacional para Refugiados)  e aponta um aumento nos pedidos de refúgio, por cubanos, após o fim da participação no Mais Médicos. Em novembro foram 321 pedidos e, em dezembro, 400 (nos mesmos meses de 2017, foram 135 e 114 pedidos, respectivamente). Não dá pra dizer com certeza que sejam todos de médicos, porque os casos correm sob sigilo. Mas fontes do Ministério da Justiça dizem que dá pra inferir isso. A matéria lembra que Bolsonaro prometeu “asilo”. “Vivemos uma incerteza. O presidente falou que ia dar asilo para todo mundo, mas até agora não manifestou”, diz a médica Doraisy Perez, que está desempregada.

CONTRA O MÍNIMO

O governador de Roraima, Antônio Denarium, ajuizou no STF uma Ação Direta de Inconstitucionalidade  contra a Emenda Constitucional 48/2016, que estabeleceu que estados devem gastar com saúde no mínimo 18% do seu orçamento. Antes, eram 12%. Na ação, ele aponta vício de iniciativa no processo legislativo da emenda. Segundo ele, a Constituição confere aos chefes dos Executivos federal, estadual e municipal a iniciativa de propostas de lei sobre matéria orçamentária e de direito financeiro. Então essa emenda, de iniciativa parlamentar, estaria errada desde o início. Ele destaca ainda que a Emenda foi feita sem uma nota técnica estimando o impacto orçamentário e financeiro, o que também estaria contra a Constituição.

O DRAMA DE QUEM NÃO PODE PAGAR
 Há pouco tempo falamos sobre o preocupante caso de diabéticos nos EUA que estão diminuindo suas doses de insulina porque não têm como pagar por elas. O problema envolve muitos fatores, como crise econômica e a falta de um sistema de saúde abrangente no país, mas uma longa matéria do Washington Post se concentra na crítica ao preço abusivo da insulina, que há tempos já não tem relação nenhuma com o custo de inovações e produção. 

Três empresas dominam a fabricação: a Eli Lilly, a francesa Sanofi e a dinamarquesa Novo Nordisk. Têm subido os preços juntas, ao longo dos anos. E, na última década os custos da insulina nos EUA triplicaram. Quem também influencia a alta são os os chamados gestores de benefícios de farmácia – entidades que negociam descontos com empresas farmacêuticas para determinados seguros de saúde –, porque sempre que conseguem descontos maiores, os fabricantes aumentam mais o preço.

“Em 2017, a indústria de produtos farmacêuticos e de saúde (…) gastou quase US $ 280 milhões em lobby, o maior das 20 principais indústrias, segundo o Center for Responsive Politics. Até mesmo algumas organizações de defesa dos pacientes, como a American Diabetes Association, recebem milhões em financiamento de empresas farmacêuticas. A indústria também tem uma porta giratória para o governo. Alex Azar, chefe do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, foi o presidente da divisão americana da Eli Lilly até 2017. Sob seu comando, o preço da insulina analógica da empresa dobrou. Agora ele é encarregado de supervisionar o plano do governo de reduzir esses mesmos preços”, diz a reportagem.

E um dos problemas é justo a fraca regulamentação dos preços de pedicamentos pelo governo americano: a população dos EUA paga mais por remédios do que a de qualquer outro lugar do mundo.


VICIADOS EM CIGARRO… ELETRÔNICO

Já falamos algumas vezes sobre como os cigarros eletrônicos e outros tipos de vaporizadores estão se tornando uma febre – e um grande negócio – em vários países europeus e nos EUA. Uma matéria do New York Times republicada no Estadão trata da saga de profissionais da saúde pública para solucionar o problema do crescente número de adolescentes viciados. A quantidade de nicotina nesses cigarros é difícil de medir, ao contrário do que acontece nos tradicionais. Métodos usados para parar de fumar não funcionam com o vaporizador. E o maior obstáculo é a percepção de que todo mundo usa. Nos EUA, o uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes subiu demais em 2018, e representou o aumento mais acentuado no consumo de uma substância já registrado nos últimos 44 anos: um levantamento do governo mostrou que 21% dos alunos do último ano do ensino médio tinham usado vaporizadores nos 30 dias anteriores à pesquisa, e, um ano antes, eram 11%.

PIOR QUE O ZIKA

Uma pesquisa publicada na Science Advances mostrou que o vírus que causa a febre do Vale do Rift, transmitido por um mosquito, pode prejudicar mais os fetos do que o zika. Os experimentos foram feitos em ratos e em tecidos de placenta humana. A febre do Vale do Rift se manifesta originalmente no gado na África Subsaariana (e causa de 90% a 100% dos abortos nas vacas grávidas, ou dão origem a natimortos). Mas há centenas de casos em humanos todos os anos, e os surtos acontecem fora da África também. No ano 2000, pelo menos 700 pessoas morreram na Arábia Saudita, e o mosquito vetor é encontrado na Europa e nas Américas.

INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

A descoberta partiu de cientistas brasileiros e dos EUA, que desenvolveram uma molécula capaz de não só frear a insuficiência cardíaca como também fazer o quadro melhorar. Ela foi testada em ratos infartados durante seis semanas e o resultado é melhor do que o dos medicamentos atuais, que só estabilizam a doença. Os estudos sugerem um possível uso clínico. Já foi pedida a patente e a aplicação nos EUA, e agora a molécula deve começar a ser testada para outras doenças. 

OS CIENTISTAS LOUCOS

Todo mundo conhece o Dr Frankenstein, que criou o monstro conhecido pelo mesmo nome no livro de Mary Shelley. Mas ao longo principalmente do século 19 houve mesmo uma série de cientistas que, movidos por suas convicções, faziam experimentos bem bizarros, como estimulação elétrica para reviver defuntos, a petrificação de cadáveres e a administração de LSD para dominar mentalmente indivíduos. A história desses médicos é contada no livro El cientista loco, que vai ser lançado este mês na Espanha. 

NA MESA

Quarenta novos produtos com agrotóxicos receberam permissão para chegar ao mercado no próximos dias. Alguns, no fim do governo Temer, outros no começo da gestão Bolsonaro. Segundo a Pública, 11 deles não são permitidos na União Europeia. Há várias polêmicas. – por exemplo, o aditivo chamado Sulfoxaflor, aprovado em dezembro, está em discussão nos EUA por estar ligado ao extermínio de abelhas. 

FOGO

Na sexta, um incêndio atingiu o Instituto do Coração de São Paulo, ligado ao Hospital das Clínicas da USP. O fogo, que começou em um aparelho de ar condicionado, foi controlado em 10 minutos e não houve vítimas.

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