Mais ar, por favor

Transmissão do novo coronavírus por superfícies é rara e se dá principalmente pelo ar. Por que tanto investimento em desinfecção e pouco em ventilação?

Foto: Secretaria de Comunicação de Macapá

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 3 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Que atire a primeira pedra que não gastou um tempão desinfetando todos os objetos possíveis em algum momento do último ano. Normal: no começo da pandemia, a informação mais difundida era que poderíamos pegar o coronavírus por meio de superfícies que tivessem sido tocadas por alguém contaminado. Além da desinfecção constante da nossa própria pele, tínhamos que que tomar cuidado extra com a limpeza de tudo ao nosso redor, ainda mais depois que estudos de laboratório mostravam a persistência do SARS-CoV-2 por dias em materiais como plástico e aço inoxidável. Maçanetas, comida, mesas, chão – nada podia ficar sem sabão, cloro ou álcool. 

Só que não demorou muito para que os reais mecanismos de transmissão do coronavírus começassem a ser desvendados. Em julho, um belo punhado de pesquisas já apontava que a principal forma de contaminação não era por superfícies (os fômites), mas pelo ar. E os cientistas alertavam que o perigo não estava só quando alguém tossia ou espirrava perto de outra pessoa, mas em gotículas muitíssimo pequenas que ficam em suspensão no ar (os aerossóis). A OMS reconheceu esse risco, de uma forma considerada tímida e tardia demais, também em julho.

Hoje já está bem estabelecido que o coronavírus é predominantemente transmitido pelo ar, e que se infectar por meio de fômites, embora  paulsível, parece ser muito raro. Mesmo assim, muita gente se preocupa mais em garantir desinfetantes do que boas máscaras ou ventilação adequada. As medidas de prevenção descritas ali em cima, no primeiro parágrafo, ainda são frequentemente vistas como as maiores armas contra o coronavírus. O grave é que essa ideia não está arraigada só na população em geral, mas também nas mensagens – e ações – de órgãos de saúde pública. Essa é a crítica feita no editorial da Nature publicado ontem. 

Se esse tipo de cuidado fosse tomado apenas como um complemento das medidas que importam mais, não faria mal. Mas não é o que acontece: “A Autoridade de Trânsito Metropolitano da cidade de Nova York, sozinha, estima que seus custos anuais de saneamento relacionados à covid-19 ficarão perto de US$ 380 milhões entre agora e 2023. No final do ano passado, a autoridade pediu ao governo federal dos EUA um conselho sobre se deveria focar exclusivamente em aerossóis. Foi dito para se concentrar em fômites também, e até agora ela direcionou mais recursos para a limpeza de superfícies do que para o combate a aerossóis”, exemplifica o texto. 

Um problema é que a transmissão por superfícies, mesmo que rara, pode acontecer, então é complicado simplesmente descartar sua prevenção. Isso provavelmente explica em parte por que a OMS e autoridades de saúde dos países mantém suas recomendações nesse sentido. Mas tem mais: “é mais fácil limpar superfícies do que melhorar a ventilação – especialmente no inverno – e os consumidores esperam protocolos de desinfecção”, pontua o repórter Dyani Lewis, na mesma revista. Sendo fácil ou difícil, muito mais esforço e dinheiro deveriam estar sendo voltados para melhorar a ventilação ou, onde isso não é possível, instalar bons purificadores de ar. Instruções para o uso constante e correto de máscaras (e também para o uso de máscaras realmente boas) também deveriam estar no centro das ações. 

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 3 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos