Um grande risco

Por que monopólio de vacinas pode levar à explosão de variantes em países pobres

Imagem: Junião / Ponte

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 2 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

A corrida pelas vacinas não serve só para reduzir logo as internações e mortes, mas também porque baixar a prevalência do vírus evita que continuem aparecendo essas variantes temíveis. E aí temos mais um problema relacionado à distribuição desigual dos imunizantes. É preciso reduzir a transmissão global do vírus, e isso não se alcança com um punhado de países vacinando 100% da população enquanto milhões de pessoas no resto do planeta ficam a ver navios:

“Este ano pode ser uma história de dois mundos minando um ao outro. Certos países abordarão a imunidade coletiva vacinando quase todos os cidadãos. Outros podem ter vítimas em massa e ondas catastróficas de reinfecção – potencialmente com variantes que evoluíram em resposta à imunidade conferida pelas próprias vacinas às quais essas populações não têm acesso. No processo, esses próprios hotspots facilitarão a evolução rápida do vírus, dando origem a ainda mais variantes que podem tornar as populações vacinadas suscetíveis à doença novamente. Em um loop, o vírus pode voltar para assombrar os vacinados, levando a novos surtos e bloqueios nos próximos anos. Os países que acumulam a vacina sem um plano para ajudar os demais o fazem por sua própria conta e risco”, alerta a reportagem do site The Atlantic. O que assusta em Manaus, diz a matéria, é que a situação escancara o quanto “as populações ainda podem ser vulneráveis ​​a cenários de desastres justamente quando as coisas parecem estar melhorando”. 

A propósito: a variante do Reino Unido (B.1.1.7) tem sido encarada como a mais ‘tranquila’ das variantes perigosas. Porque, ao contrário das que foram identificadas no Brasil e na África do Sul, não tinha a mutação E484K, que reduz a eficácia das vacinas. Pelo menos era assim, mas agora as autoridades informaram que essa mutação foi encontrada na variante de lá. Sua incidência, porém, parece pequena. 

Esse país, que está fazendo muito sequenciamento genético para identificar novas cepas, descobriu 11 pessoas sem histórico de viagem infectadas com a variante sul-africana em diferentes regiões. Moradores de oito áreas agora vão ser testados mesmo sem sintomas, numa tentativa de estancar a transmissão. 

No Brasil, mesmo que a falta de doses seja um impeditivo para restringir a circulação do vírus, não é o único. Está muito difícil encontrar explicações razoáveis que expliquem a demora em distribuir as poucas doses que o país já tem. O Amazonas, onde a P.1 surgiu, aplicou até agora 50 mil, segundo o levantamento do G1. Isso dá pouco mais de 10% de todas as doses recebidas, e significa que apenas 1,2% da população do estado tomou a primeira dose de vacina (ninguém tomou a segunda). Em todo o país, só 25% das doses disponíveis chegaram ao braço de alguém. 

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 2 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos