Criadouro de variantes

Alta circulação do vírus aumenta risco de surgirem novas cepas perigosas

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Ficou mais difícil se mover entre as atualizações sobre o SARS-CoV-2 depois que começamos a ser bombardeados por uma confusão de siglas representando as novas variantes e as mutações que cada uma delas contém. Mas o fato é que, junto com a distribuição das vacinas, esse é provavelmente o tema que agora mais preocupa cientistas e autoridades de saúde. 

No mundo todo, o segundo colapso da saúde em Manaus continua pautando reportagens e intrigando especialistas. Como já comentamos por aqui, a variante P.1 deveria estar tirando o sono dos nossos governos em todas as esferas: ela tem mutações que 1) a tornam mais transmissível, 2) foram localizadas em outras variantes que apresentaram ‘escape’ em relação a vacinas e 3) parecem conferir maior possibilidade de reinfecção.

Atribuir à P.1 parte da responsabilidade pelo caos visto hoje na capital do Amazonas e que se espalha pelas cidades e estados vizinhos é muito intuitivo, e essa é uma hipótese formulada por vários especialistas. Afinal, pelo menos 50% dos moradores de Manaus mostravam anticorpos em junho, um percentual que poderia não ser alto o suficente para acabar com as novas transmissões, mas que deveria ao menos fazer com que elas acontecessem num ritmo lento.

Não há nenhum martelo batido ainda, mas é bem possível mesmo que a nova variante esteja por trás do quadro dramático visto hoje no Amazonas. Mas por que ela foi surgir em Manaus? Se o vírus sofre mutação o tempo todo, então quanto mais vírus circulando e se replicando, maior a chance de aparecer uma mutação ser vantajosa para ele. Ou seja: o colapso pode até ter sido ocasionado pela variante, mas ao mesmo tempo a variante só apareceu porque lhe deram chance.

“Já ouviu falar da variante SARS-CoV2 [originada] no Japão? Não? Que tal um da Coreia do Sul? Não? Certamente variantes da Nova Zelândia e Vietnã? Claro que não –  porque esses lugares não deram origem a variantes assustadoras”, provoca Jha Askisk, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Brown. Ao contrário, em lugares como Manaus,  Reino Unido e África do Sul, que não controlaram minimamente bem as transmissões, o risco de surgirem mutações perigosas era grande.

Aqui no Brasil, não é só em Manaus que essas condições ótimas – para o vírus – se encontram. Nada impede que venham outras variantes, que podem ser ainda mais transmissíveis ou que escapem melhor da imunidade, tanto a natural como a adquirida por vacinas.

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