OMS reconhece transmissão pelo ar, mas há críticas sobre timidez da mudança

Evidências são de que vírus pode percorrer mais de dez metros em ambientes fechados

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 10 de julho. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou ontem um novo informe científico em que considera o risco de transmissão do novo coronavírus pelo ar em gotículas muito pequenas, ou aerossóis. Como vimos aqui, o documento chega depois de 239 cientistas publicarem uma carta aberta elencando evidências desse tipo de transmissão e pressionando a entidade a rever suas recomendações oficiais. 

O que muda? Até ontem, a OMS alertava para o risco de transmissão por gotículas maiores – as que saltam do nariz e da boca de contaminados principalmente durante a tosse ou espirros, e que caem no chão logo em seguida. Assim, só pessoas próximas correriam o risco de se contaminar. Mas se há transmissão por aerossol, isso significa que, além das gotículas que caem no chão, há outras que são muito mais leves e podem ficar suspensas no ar durante algum tempo. Em ambientes fechados com pouca circulação de ar, o vírus pode, então, percorrer distâncias maiores até encontrar uma pessoa e contaminá-la. A OMS até falava sobre esse risco antes, mas apenas em procedimentos médicos que provocam a saída de aerossóis, como o processo de intubação.

Agora, o novo texto cita relatórios de surtos relacionados à contaminação em espaços fechados, como restaurantes e academias. Não há evidências conclusivas quanto a isso, ao que levou a OMS a afirmar que “mais estudos são necessários com urgência”. Mesmo assim, houve mudanças nas suas recomendações oficiais para evitar a transmissão, que passam a incluir “evitar locais fechados com pouca ventilação”.

Mas nada além disso, o que desapontou alguns especialistas. Segundo a OMS, a fonte primária de transmissão continua sendo o contato direto ou as gotículas maiores de tosses e espirros, e os aerossóis produzidos rotineiramente seriam algo secundário. 

O uso de máscaras segue como uma recomendação apenas quando o distanciamento social de um metro não é possível, mas, segundo os críticos, em locais fechados isso pode não ser suficiente. “A extensa pesquisa e o tremendo progresso na física e na biologia dos aerossóis desde 1940 parecem não ter tido impacto [na nova recomendação da OMS]. A afirmação de que ‘gotículas respiratórias’ na faixa de tamanho de cinco a dez micrômetros de diâmetro apenas viajam até um metro é incorreta. As publicações científicas revisadas por pares demonstram claramente que partículas de até 30 micrômetros podem se mover nas correntes de ar e viajar mais de dez metros em ambientes fechados”, escreveu Donald Milton, professor de Saúde Pública da Universidade de Maryland e um dos autores da carta aberta publicada na segunda-feira. 

Em tempo: essa discussão nos faz lembrar do fato de que o governo de São Paulo proibiu bares e restaurantes de atender na calçada. O objetivo é evitar as aglomerações vistas no Rio de Janeiro após a reabertura, mas não há evidências que a sustentem. Se a ideia é mesmo permitir o funcionamento desses locais, o mais seguro seria justamente evitar o atendimento do lado de dentro, até porque não dá para usar máscara comendo e bebendo… Por isso, em cidades como ParisMadri e Nova Iorque a retomada se deu com mesas espaçadas ocupando calçadas e ruas. Do mesmo modo, não faz sentido abrir shoppings antes de parques. Ou permitir o comércio à “meia porta” (que dificulta a circulação de ar), embora deva haver restrições à entrada dos clientes.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos