Assassinatos crescem na pandemia

Mortes violentas tiveram aumento de 7% no primeiro semestre do ano; alta no registro de armas de fogo também chama atenção: já são quase meio milhão

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A cada dez minutos, uma pessoa foi assassinada no Brasil no primeiro semestre deste ano. A média dá conta da banalização da violência no país, e confirma o aumento de homicídios mesmo durante a pandemia. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que compila os dados com base em registros policiais, foram 25.712 mortes violentas de janeiro a junho, um crescimento 7,1% em relação ao mesmo período de 2019 – quando se registrou a menor taxa de homicídios da década, com 47.773 assassinatos, ou 22,7 casos por 100 mil habitantes. Mas é importante notar que a tendência de alta não começou em 2020: já vinha desde setembro do ano passado.

De qualquer forma, a piora registrada no primeiro semestre deste ano atinge nada menos que 21 dos 27 estados. Puxam as estatísticas para cima principalmente Ceará, com variação de 96%, Paraíba (19%), Espírito Santo e Maranhão (ambos com 18%) e Sergipe (16%). 

O tipo de homicídio que mais cresceu foi o comum (8%) e o decorrente de ação policial (6%). Já latrocínios e lesões corporais seguidas de mortes caíram 13% e 7,9%, respectivamente. A alta nos assassinatos aconteceu em meio à melhora no cenário de crimes durante o isolamento social, como redução de assaltos a transeuntes (-34%), a residências (-16%) ou de veículos (-22,5%). Os feminicídios aumentaram 2% em relação ao mesmo período do ano passado, com 648 mulheres assassinadas.

As principais explicações dos especialistas para o aumento nas mortes violentas são a perda de controle dos governos em relação às PMs – sendo o caso cearense, com a greve de fevereiro, o mais sério – e o acirramento das disputas territoriais do crime organizado durante a pandemia. Mas há os fatores gerais, e entre eles está a queda de 3,8% dos gastos do governo federal com segurança e a falta de articulação nacional na área, com o Sistema Único de Segurança Pública, criado em 2018, sem funcionar efetivamente.

E, claro, há o fator Bolsonaro. Houve um enorme aumento de registros de armas de fogo no país depois dos decretos do governo. Até 2019 haviam 225.276 equipamentos catalogados no Exército na categoria CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores); em agosto deste ano já eram 496.172: uma diferença de 120%. E, pelos dados oficiais, não dá para saber quantas pessoas são donas dessas armas, destaca o relatório. 

É a primeira vez que o Fórum faz a divulgação parcial dessas informações, que foram lançadas junto com o consolidado de 2019. Das informações do ano passado, chama atenção o fato de negros corresponderem a 74,4% das vítimas, e 72,5% dos assassinatos terem sido cometidos com armas de fogo.

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