A nova panaceia do governo

Em cerimônia patética sobre ensaios com vermífugo Annita, resultados não foram mostrados. Vídeo apresentado traz gráfico genérico de banco de imagens para sugerir efeitos benéficos

Foto: Diego Nora / Agência Brasil

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“Nós temos agora um medicamento comprovado cientificamente que é capaz de reduzir a carga viral. Com essa redução da carga viral, significa que reduz o contágio. A pessoa que toma o medicamento assim que faz o teste diagnóstico e descobre que está com covid, toma o medicamento nos primeiros dias, essa pessoa contamina menos outras pessoas. E mais, diminui a probabilidade de essa pessoa aumentar os sintomas, ir para o hospital e falecer”. Quem proferiu palavras tão animadoras foi o ministro da Ciência, Marcos Pontes. O remédio em questão é a nitazoxanida, vermífugo vendido no Brasil com o nome comercial Annita –  que tem sido exaltado por Pontes há meses como possibilidade no tratamento da covid-19. E o anúncio foi feito em uma cerimônia promovida pelo governo federal para, supostamente, apresentar ao público os resultados do estudo clínico do Laboratório Nacional de Biociências (vinculado ao ministério) com a droga.

O maior problema é que, dos resultados, mal conhecemos a sombra. Segundo a pasta, o estudo durou quatro meses e envolveu cerca de 1,5 mil voluntários com sintomas iniciais de covid-19; um grupo tomou a nitazoxanida, e outro tomou placebo. Mas não se sabe como foi nem o que significou essa redução da carga viral, nem como foi medida a redução do contágio, nem qual foi a diminuição nas chances de internação. No Instituto Questão de Ciência, o microbiólogo Alison Chaves critica duramente o protocolo do estudo – segundo o qual, aliás, houve cerca de 400 voluntários, e não 1,5 mil como anuncia o governo. De acordo com ele, o foco era apenas observar a redução da duração de febre, tosse e fadiga em oito dias. “Como sabemos que a maior parte das pessoas infectadas irá desenvolver uma forma leve a moderada da doença, é esperado que esse mal-estar esteja presente por algum tempo,  sem que ocorra nenhum agravamento. Isso invalida completamente o raciocínio de que essa é uma intervenção precoce para proteger um paciente de uma eventual complicação”, escreve o especialista.

O fato é que o governo Bolsonaro decidiu promover o medicamento sem apresentar dados. O que justificaria isso? O argumento oficial é que não seria justo ocultar as conclusões enquanto a pandemia está a toda. “Seria correto omitir esse dado e aguardar que em um mês 14 mil pessoas morressem?” questionou a coordenadora do trabalho, Patrícia Rocco, em coletiva de imprensa. À noite, Marcos Pontes foi ao Twitter reforçar a posição, dizendo que o fato de haver centenas pessoas morrendo “obviamente obriga” que se divulgue as conclusões antes dos cálculos. Disse ainda que eles serão apresentados só depois da publicação do artigo científico, que “necessita ser inédito”. Não é verdade: como lembrou Stevens Rehen, neurocientista da UFRJ, os periódicos mais importantes do mundo aceitam artigos previamente publicados como preprints.

Mas não é só isso que chama a atenção. No vídeo que promove a pesquisa (e o remédio), apresentado logo no começo do evento, aparece um gráfico no momento em que o narrador diz que foi comprovada a “eficácia do medicamento”. Junto à imagem, um letreiro: “Nitazoxanida é eficaz! COMPROVADO”.  Só que o tal gráfico não tem  base em dados reais: foi tirado do um banco de imagens Shutterstock. O ministério não se explicou para os repórteres que o procuraram, mas, no Twitter, Pontes não poupou advérbios para relevar a questão: “obviamente, como facilmente deduzido pelos eixos e pela fala da pesquisadora responsável, o gráfico da apresentação de hoje era meramente ilustrativo”.

No palco da cerimônia, Jair Bolsonaro sentou-se no centro, ladeado por Marcos Pontes e pesquisadores do estudo. Eram ao todo sete pessoas. Só duas usavam máscaras

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