Chega ao Brasil a doença do cigarro eletrônico

Houve ao menos sete casos, alguns com sequelas, apesar de o dispositivo ser proibido no país. E a indústria do tabaco age nos bastidores para liberá-lo. E mais: a vergonhosa posição brasileira em favor das patentes farmacẽuticas ligadas à covid

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O Intercept fez uma descoberta importante: a doença associada aos cigarros eletrônicos chegou ao Brasil, mesmo que os dispositivos sejam proibidos por aqui. Por meio da Lei de Acesso à Informação, a Anvisa teve de admitir que recebeu sete notificações de brasileiros com Evali – sigla para “E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury” – entre 18 de novembro de 2019 e 27 de agosto deste ano. São quatro homense três mulheres, com idades entre 21 a 41 anos. Três doentes precisaram ser internados e dois receberam alta com sequelas. Os registros foram feitos em São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 

“Esses são os casos em que médicos notificaram o atendimento e a evolução clínica dos pacientes por meio de um formulário criado pela Anvisa, o que não exclui a possibilidade de outras ocorrências não terem sido registradas”, explicam os repórteres Lu Sodré e Yuri Ferreira. 

Até agora, o problema é mais sério nos Estados Unidos, onde a doença foi descoberta. Até fevereiro, foram registradas 2.807 internações e 68 mortes por lá. Depois disso, o CDC parou de divulgar boletins. Aliás, segundo o Controle e Prevenção de Doenças, 3,6 milhões de estudantes de ensino fundamental e médio usam cigarros eletrônicos. Um número expressivo, que a indústria do tabaco quer ver replicado em países como o Brasil.

A liberação do vaping foi incluída na agenda regulatória da Anvisa, já houve um painel, duas audiências públicas e, entre fevereiro e outubro de 2019, funcionários do alto escalão da agência se reuniram seis vezes com executivos da Philip Morris para debater “novos produtos de tabaco no Brasil”. Em um desses encontros, a empresa se queixou de “entraves desarrazoados da área técnica” da Anvisa atrapalhando seus planos. A Philip Morris também tenta construir consenso na mídia, comprando espaços nos jornais de grande circulação – FolhaEstadão Globo – e lançando site para fazer campanha pelos dispositivos, embora propaganda de cigarro seja proibida no Brasil. 

ASSASSINATOS CRESCEM NA PANDEMIA

A cada dez minutos, uma pessoa foi assassinada no Brasil no primeiro semestre deste ano. A média dá conta da banalização da violência no país, e confirma o aumento de homicídios mesmo durante a pandemia. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que compila os dados com base em registros policiais, foram 25.712 mortes violentas de janeiro a junho, um crescimento 7,1% em relação ao mesmo período de 2019 – quando se registrou a menor taxa de homicídios da década, com 47.773 assassinatos, ou 22,7 casos por 100 mil habitantes. Mas é importante notar que a tendência de alta não começou em 2020: já vinha desde setembro do ano passado.

De qualquer forma, a piora registrada no primeiro semestre deste ano atinge nada menos que 21 dos 27 estados. Puxam as estatísticas para cima principalmente Ceará, com variação de 96%, Paraíba (19%), Espírito Santo e Maranhão (ambos com 18%) e Sergipe (16%). 

Os tipos de homicídio que mais cresceram foram o comum (8%) e o decorrente de ação policial (6%). Já latrocínios e lesões corporais seguidas de mortes caíram 13% e 7,9%, respectivamente. A alta nos assassinatos aconteceu em meio à melhora no cenário de crimes durante o isolamento social, como redução de assaltos a transeuntes (-34%), a residências (-16%) ou de veículos (-22,5%). Os feminicídios aumentaram 2% em relação ao mesmo período do ano passado, com 648 mulheres assassinadas.

As principais explicações dos especialistas para o aumento nas mortes violentas são a perda de controle dos governos em relação às PMs – sendo o caso cearense, com a greve de fevereiro, o mais sério – e o acirramento das disputas territoriais do crime organizado durante a pandemia. Mas há os fatores gerais, e entre eles está a queda de 3,8% dos gastos do governo federal com segurança e a falta de articulação nacional na área, com o Sistema Único de Segurança Pública, criado em 2018, sem funcionar efetivamente.

E, claro, há o fator Bolsonaro. Houve um enorme aumento de registros de armas de fogo no país depois dos decretos do governo. Até 2019 haviam 225.276 equipamentos catalogados no Exército na categoria CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores); em agosto deste ano já eram 496.172: uma diferença de 120%. E, pelos dados oficiais, não dá para saber quantas pessoas são donas dessas armas, destaca o relatório. 

É a primeira vez que o Fórum faz a divulgação parcial dessas informações, que foram lançadas junto com o consolidado de 2019. Das informações do ano passado, chama atenção o fato de negros corresponderem a 74,4% das vítimas, e 72,5% dos assassinatos terem sido cometidos com armas de fogo.

MENOS MÉDICOS NEGROS

Ontem foi comemorado o Dia do Médico, e uma estatística dá conta do quanto é preciso avançar: nos cursos de Medicina, apenas 28,9% dos estudantes se autodeclaram pretos ou pardos, segundo levantamento da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação do MEC. “O número é baixo mesmo se comparado a outras profissões de prestígio, como Direito e Engenharias (ambas com 41,8% de estudantes negros, cada uma)”, compara O Globo.

PRIMO POBRE

A reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi suspensa sem que os países chegassem a uma conclusão definitiva sobre a proposta de Índia e África do Sul de flexibilizar as patentes de tecnologias necessárias ao enfrentamento da pandemia. No momento, ocorrem consultas informais sobre o documento e a expectativa é que o martelo seja batido até o fim do ano

Mas alguns países já manifestaram suas posições. E o Brasil resolveu mesmo jogar sua trajetória diplomática na saúde na lata do lixo, se tornando “o único país em desenvolvimento a se aliar explicitamente ao grupo de economias ricas”, como descreve o jornalista Jamil Chade. Ficamos ao lado dos países da União Europeia, do Reino Unido, dos Estados Unidos, do Japão e outras nações que sediam multinacionais farmacêuticas e contra Argentina, Egito, Indonésia, Moçambique e Paquistão… 

A delegação brasileira em Genebra justificou, dizendo que o acordo global sobre patentes, conhecido pela sigla TRIPS, já prevê quebra em casos específicos. E que uma flexibilização geral desestimularia inovações no setor privado. O governo indiano rebateu o Itamaraty, e lembrou que, até o momento, só a UE gastou 16 bilhões de euros no financiamento de farmacêuticas – um incentivo e tanto às inovações – e defendeu que as brechas no acordo TRIPS não têm se mostrado suficientes. Isso porque os países que  sediam a Big Pharma ameaçam as nações que sinalizam usá-las, fazendo-os desistir, por medo de retaliações comerciais. Daí a tentativa de criar um consenso sobre a propriedade intelectual nesta crise sanitária global. “Chegou o momento de colocar a vida acima de qualquer outro aspecto”, defenderam os diplomatas indianos. 

DEGUSTAÇÃO DE REMÉDIOS

Já pensou ser obrigado a tomar medicamentos para avaliar se sabor, textura e coloração? Funcionários da Eurofarma de Teresina eram obrigados a ‘degustar’ remédios para comparar as drogas que venderiam com as fabricadas por concorrentes e garantir uma estratégia comercial supostamente mais eficiente. 

A denúncia de três trabalhadores chegou ao Ministério Público do Trabalho, que ajuizou uma ação contendo e-mails da gerência distrital da divisão de prescrição médica da empresa, convocando as tais reuniões de degustação. Os funcionários acabavam consumindo dosagens muito superiores às orientações da bula – e no cardápio bizarro entravam, inclusive, antibióticos. 

A empresa foi condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho do Piauí a indenizar em R$ 1 milhão os vendedores. A decisão proíbe a prática no país e impõe multa de R$ 30 mil por cada descumprimento, além de R$ 10 mil por cada trabalhador prejudicado. 

RESISTÊNCIA A ANTIBIÓTICOS

Na semana passada, falamos aqui do relatório anual da OMS sobre tuberculose, que indicava como a faixa de pessoas que criaram resistência a antibióticos foi grande em 2019, alcançando 465 mil doentes. Pois bem: uma reportagem da BBC Brasil aborda como a pandemia pode piorar ainda mais o problema da resistência antimicrobiana. Isso porque, mesmo sem eficácia comprovada para a covid-19, antibióticos estão sendo amplamente receitados durante a pandemia. 

Não é preciso ir muito longe para ter um exemplo disso, afinal, nos tornamos o país em que o governo federal – presidente, incluso – faz propaganda do uso da hidroxicloroquina associada à azitromicina. No mundo, esse antibiótico ficou só atrás dos analgésicos, sendo prescrito para covid por 41% dos 6,2 mil médicos entrevistados por um aplicativo. A resistência à azitromicina pode afetar o tratamento de doenças como otite e gonorreia – e, segundo a OMS, ela faz parte da categoria de antibióticos em que há maior urgência em se desenvolver novas drogas. 

A própria organização publicou em maio um guia para tratamento da covid-19 que recomendou que antibióticos não fossem utilizados no tratamento de casos suspeitos ou leves. E mesmo nos casos moderados, a entidade indicou que o uso só deveria ser feito após indícios de uma infecção bacteriana.

Mas vários estudos mostraram que os médicos usaram muitos antibióticos para evitar coinfecções, independentemente de elas existirem de fato ou não, e azitromicina para, supostamente, ‘fortalecer’ o sistema imunológico – usando como base aquele famigerado artigo francês, sem revisão de pares e com apenas 30 pacientes, que lançou a fama da hidroxicloroquina no combate ao novo coronavírus.

A taxa de coinfecção da covid-19 é baixa (estudos têm sugerido que acontece em 5 a 7,5% dos casos, quando a influenza tem taxas bem maiores, de 30 a 40%) e a eficiência da azitromicina foi refutada em um estudo publicado pela Lancet. Ou seja, estamos correndo riscos desnecessários de aumentar a resistência a antibióticos.

EFETIVIDADE PRA DEPOIS

A vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, se mostrou segura também em testes com nove mil voluntários brasileiros. O resultado reafirma os achados de pesquisa anterior, com 50 mil participantes chineses, quando mais de 90% dos voluntários não tiveram eventos adversos. 

Os dados de eficácia, porém, devem ser divulgados somente entre novembro e dezembro. Isso porque os testes com os 13 mil voluntários não foram finalizados e a análise de eficácia ainda não pode ser feita. Como nota o Estadão, isso deve atrasar a previsão do governador João Doria (PSDB) de iniciar a imunização ainda neste ano.

Na sexta, Doria disse que a vacinação será obrigatória em todo o estado. Jair Bolsonaro aproveitou para marcar posição nas redes sociais, escrevendo que o Ministério da Saúde não irá “impor ou tornar a vacinação obrigatória“.

Falando em vacina contra o novo coronavírus, o CEO da Pfizer divulgou uma carta na sexta. Albert Bourla disse que a empresa não vai pedir autorização emergencial para sua candidata ao FDA antes de meados de novembro – ou seja, isso só acontecerá depois das eleições presidenciais dos EUA. 

NOVA INVESTIDA

Depois de enriquecer intermediando contratos de empresas e planos de saúde coletivos, o empresário José Seripieri Filho resolveu investir nos planos individuais. Ele, que deixou a Qualicorp em 2018, relançou ontem a operadora a Qsaúde. A empresa foi comprada por ele da própria Qualicorp em janeiro. Segundo o Estadão, “seu mantra é que o melhor caminho agora é o de um plano individual que efetivamente se importe com o cliente e cuide de sua saúde”… A empresa recebeu investimento de R$ 120 milhões e vai atuar só na cidade de São Paulo, com mensalidades a partir de R$ 246,39.

Seripieri chegou a ser preso por quatro dias em julho, no âmbito da Operação Paralelo 23, investigado pelo Ministério Público Eleitoral de doar dinheiro para o caixa dois da campanha de José Serra (PSDB) ao Senado em 2014. Aliás, o processo contra Serra prescreve em 4 de novembro.

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