Covid-19: Reino Unido decide apoiar testes com infecção voluntária

Governo anunciou investimento de 33,6 milhões de libras para ensaios com ‘desafio humano’. Há risco de participantes de inscreverem por retorno financeiro

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Está confirmado: o Reino Unido vai ter os primeiros ensaios clínicos de ‘desafio humano’ para vacinas contra a covid-19. Como já explicamos aqui, trata-se de testes em que os voluntários são intencionalmente expostos ao vírus. Isso tem o potencial de produzir resultados mais rapidamente, já que, nos ensaios tradicionais, pode levar muito tempo até que os participantes sejam infectados no mundo real. O governo britânico vai investir 33,6 milhões de libras para apoiar os estudos, liderados pela nVivo, subsidiária da empresa Open Orpha, que já faz testes de desafio humano com outros patógenos respiratórios. O Imperial College de Londres e o Royal Free London NHS também vão atuar, em parceria. Um site sobre a iniciativa foi lançado ontem.

Como a covid-19 pode ser mortal e os tratamentos são limitados, há uma questão ética óbvia e essa discussão tem sido sempre muito quente. Ainda falta a aprovação do comitê de ética e Agência Reguladora de Medicamentos e Cuidados de Saúde do Reino Unido. Se tudo seguir como o esperado, a previsão é que em janeiro tenha início um ‘estudo de caracterização’ para, em um primeiro momento, estabelecer a dose mínima do vírus necessária para causar a infecção em algumas dezenas de jovens saudáveis. Isso levaria entre dois e quatro meses para ser finalizado, e só depois começariam os testes com as vacinas propriamente. Ainda não estão definidas quais serão as vacinas testadas, nem qual vai ser o desenho dos ensaios.

Talvez você esteja fazendo as contas e pensando: isso significa testar os imunizantes só entre março e maio, quando já esperamos ter vacinas registradas e disponíveis, certo? Só que, como temos alertado aqui, as primeiras vacinas aprovadas não serão necessariamente as melhores. Novas opções provavelmente vão continuar surgindo. E, segundo a matéria do jornal The Guardian, os ensaios com desafio seriam usados não só para comparar novas vacinas com placebos, mas também para comparar várias vacinas entre si. Eles poderiam ainda servir para reunir dados sobre as consequências mais imediatas da infecção, o que não seria possível de outro modo –  isso porque os voluntários desse tipo de teste ficam em observação depois de terem o vírus inoculado, em vez de irem para casa.

Parte da comunidade científica afirma que é possível garantir a segurança dos participantes e que os benefícios superariam os riscos. Economistas do Imperial College de Londres calcularam que acelerar em um mês o desenvolvimento de vacinas impediria a perda de ao todo 720 mil anos de vida e evitaria 40 milhões de anos na pobreza, principalmente em países de renda baixa. 

Mas a estratégia segue controversa. Até porque a Open Orphan geralmente paga cerca de 4 mil libras (quase R$ 30 mil) a cada voluntário. É uma soma considerável, sobretudo durante a crise econômica impulsionada pela pandemia, e há uma preocupação de que pessoas se inscrevam pelo dinheiro, sem avaliar corretamente os riscos. “Ainda não sabemos o suficiente sobre essa doença para dizer a essas pessoas: você não vai morrer”, diz Meagan Deming, pesquisadora de vacinas da Universidade de Maryland, na matéria da Nature.


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