Na ponta do lápis

Brasil está longe de ter doses suficientes de vacina para atingir grupo prioritário. China atrasa remessa de matéria-prima para Butantan e Fiocruz

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Já está mais do que claro que as doses de CoronaVac aprovadas e disponíveis neste momento são poucas para as necessidades mais imediatas do Brasil: apenas seis milhões, que dão para três milhões de pessoas. O próprio Ministério da Saúde estima que elas só vão dar conta de imunizar 0,5% dos idosos e 34% dos profissionais de saúde do país. No primeiro grupo, a pasta decidiu priorizar os que vivem em instituições de longa permanência; no segundo, os que estão na linha de frente do combate à covid-19. No geral, o quantitativo vai ser suficiente para atingir 4% das pessoas dos grupos prioritários estabelecidos no plano nacional. O Conass (conselho que reúne secretários estaduais de Saúde) prevê que esse primeiro lote vai se esgotar muito rapidamente

E depois? O Instituto Butantan pode produzir um milhão de doses por dia, o que é ótimo, mas tem um detalhe: a transferência de tecnologia ainda não foi feita, de modo que os laboratórios não têm como fabricar a vacina do zero em solo brasileiro. Precisam, ainda, importar o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). E o que existe hoje no Brasil só é suficiente para fabricar mais 4,8 milhões de doses (o Butantan pediu ontem à Anvisa aprovação para o uso deste lote). Um contrato acidional com a Sinovac prevê o envio de matéria-prima para mais 46 milhões de doses, que deveria chegar aqui ainda este mês. 

Pois é, deveria. Ao que parece, o governo chinês ainda não autorizou a vinda desse material.  O presidente do Butantan, Dimas Covas, se disse preocupado e sugeriu que, caso o IFA não chegue até o fim de janeiro, o cronograma de entrega das vacinas precisará ser alterado. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), informou que um posicionamento da China era esperado hoje

Não há nenhuma explicação oficial sobre isso, mas a principal hipótese é a de que a China queira aumentar a cobertura vacinal na sua própria população. Até agora, 10 milhões de pessoas foram imunizadas no país, muito pouco para seus 1,4 bilhão de habitantes. No momento em que há novos focos do coronavírus ressurgindo em algumas das províncias, proteger logo as pessoas talvez seja uma prioridade.

Claro que a China é um dos países com maior potencial de produção, o que poderia reduzir, quiçá eliminar o problema da distribuição interna. Ocorre que o mundo inteiro está atrás dos insumos e há contratos comerciais a cumprir, como o firmado com o Butantan. Mas, ao analisar os passos do chanceler Wang Yi, a matéria do Valor indica que a prioridade na “diplomacia das vacinas” chinesa agora não parece ser o Brasil, e sim os países africanos. Segundo a reportagem, as dificuldades não se limitam ao IFA da CoronaVac, mas também ao da vacina de Oxford/AstraZeneca, produzido em outra fábrica do mesmo país. 

Aliás, em relação a esta última vacina, continua não havendo previsão para a vinda das doses prontas importadas da Índia. Eduardo Pazuello disse que tem tido reuniões diplomáticas com o governo indiano, mas o problema é o “fuso horário“. 

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