Queda em veredas de Minas Gerais

De como uma pedalada em falso, nas fendas de um mata-burro, mergulhou o ciclista nos sentidos do corpo, no sotaque mineiro e num conto bovino de Guimarãres Rosa

Crônica de viagem de Maurício Ayer (texto e fotos)

Nem tudo são leveduras felizes com aromas florais em minha gira cachaciclística pela Estrada Real. Tem sempre o dia em que a casa, digo, a bicicleta cai, e o ciclista vai amargar escoriações – na pele e na vaidade. Assim que, depois de degustar cachaça em Engenheiro Passos e Aiuruoca, depois de me deliciar com queijos em Cruzília, fui beijar a terra para os lados de Carrancas.

O mata-burro matou um burro

Há dois tipos de mata-burros. O mais comum tem as barras perpendiculares à via. Mas há o que contraria essa regra, com barras no sentido da pista, que é perigosíssimo, e é fácil imaginar por quê: o pneu passa na fenda qual moeda no porquinho e a bicicleta some debaixo do ciclista.

Um mata-burro “errado”, verdadeira armadilha para os ciclistas.

O primeiro mata-burro “errado” que topei me deu um susto, freei um pouco em cima, pois jamais esperaria perigo dali. Desmontei da bicicleta e empurrei com cuidado. Fiz isso muitas vezes, a cada vez perguntando a mim mesmo: “será que todo ciclista faz assim?”. Até que tive uma luz: se eu passar em diagonal…

Deu certo! E virou um jogo. Como bom principiante, o corpo guiou e eu acertei. Deixei fluir pelos primeiros mata-burros. Mas, passado o primeiro momento, o jogador quer entender seus acertos, aprimorar sua habilidade; chega a etapa da consciência, que também é feita de dúvida. E a dúvida não é do corpo, é um ruído que nele se introduz. Vamos lá: a sequência consiste em reduzir a velocidade, embicar em um dos cantos do mata-burro e, ao entrar, quebrar o guidão para a diagonal.

Mata-burro à vista, embiquei pela esquerda, hmm, será que pela direita era melhor… ops! Lapso! Baita frio na espinha! Esfumaçou o cristal de minha autoconfiança, senti que ia falhar, mas passei. O alerta devia ter bastado. Pois o sentimento de insegurança também gera um perigo real. Mas não. No mata-burro seguinte, entrei pela direita, uma das barras estava torta, com o vão mais largo na entrada, o bastante para o pneu da frente escorregar e se perder no vazio.

– Caaaaaraaaaaaaalhoooooooo!!!! – infinitos milissegundos até a terra parar de girar no meu ombro, sinistro.

Aconteceu: caí. Ah, que bela constatação! Pera lá, isso é tudo menos banal, ninguém acha que vai cair até que já está com a cara no chão. Mas por que especular agora? Qual meu estado real?

Respiração forte, olhos redondos, susto. Qual o seu estado, Maurício? Comecei a varredura. Cabeça e pescoço? Intactos. Beleza. Respira. Nada de importante nos joelhos e pés, nada no lado direito do corpo. O que dói? Não sei bem… Ralei um pouco o cotovelo, arde, mas não há sangue visível.

– Porra! – berrei – Porra! – mais para liberar a nhuaca do que por causa da dor.

Outros caíram no caminho, como esses eucaliptos que vão virar lenha.

Na primeira tentativa de me erguer, o braço esquerdo faltou. Muita dor. Notícia pior, senti forte estalo no ombro, um tranco por dentro, como se o braço já não encontrasse encaixe, como se estivesse solto…

Acabou a viagem! Pronunciei esta verdade três vezes, habituando a boca antes de me convencer da ideia. Maurício, presta atenção, seu ombro é mais importante que a viagem. Pode ser uma lesão grave, com sequelas. A cabeça bateu, de leve, mas e se foi num ângulo errado? E se te der um treco mais tarde?

Reorganizei meus exércitos. O braço direito me dará sustentação. Levantei a cabeça, depois o tronco. Retirei a mochila, usando apenas a mão direita, mas suprimir o peso pareceu liberar a dor – talvez a mochila sobre ombro produzisse alguma estabilidade, não sei dizer.

Praguejei, xinguei. Nem um único ser vivo se moveu na paisagem. Mundo estranho. Olhei em volta. Silêncio. Nem vento.

Só então mirei a bicicleta. Aí está você, espalhada na pista, na abominável diagonal do mata-burro. Talvez seja ela a mais machucada. Sem catastrofismo: parece inteira, mesmo os sacos estanques continuam bem amarrados, tudo no lugar. Eu ia bem devagar quando caí, pode não ter quebrado nada. Sim, mas uma única peça danificada pode lhe causar transtorno – no câmbio ou no freio, por exemplo.

Foco, Maurício: o principal é sua condição ortopédica. Melhor testar a gravidade da lesão. Erga o braço. Dói. Braço para frente. Dói. Girando devagar. Dói. Dói muito e estala. Tem o protocolo: a gente dá nota para a dor comparando com as piores que já sentiu na vida. A dor atual não chega nem perto daquela torção que destruiu meus ligamentos do joelho sete anos atrás.

Melhor tranquilizar a tropa, será o que tiver de ser. Tira essa bicicleta daí, daqui a pouco passa alguém. Sempre com o braço direito, como uma escavadeira hidráulica, draguei a bicicleta pela mesa (o suporte que prende o guidão ao quadro) e arrastei-a até a beira da estrada.

Respira. Que fazer? Seria bom ter uma avaliação médica… mas vai ter algum médico nesses povoadinhos próximos? Talvez um enfermeiro em um posto de saúde?

Vamos comer, melhor para pensar. Também posso tomar um Dorflex, está à mão, no compartimento externo da mochila. Só com uma mão, abri a mochila e peguei o sanduíche. Xepa arrumada, olhei ao redor. O silêncio está lá, me cerca, está por toda parte, como um bando de tocaia.

Veja lá, a meio horizonte, dá para ver um braço da represa. É de onde sai a balsa para Caquende, mas vão ainda uns bons cinco quilômetros até Capela do Saco. Nenhum carro, nenhuma moto. Que fazer?

A dor aguda está mais nítida, tem a forma de uma tira de bacon apensa à parte anterior do meu ombro. Lateja. Por baixo da omoplata há outra dor, mais irradiada. Uma placa rija e fria atravessa minhas costas por dentro. Nada posso afirmar sobre a clavícula.

Cada ação requer um projeto. Antevejo o movimento. O braço esquerdo serve como apoio fraco, toda iniciativa é delegada ao direito. Dá para seguir? Tem que dar, parado aqui é que você não vai ficar. É meio-dia. Se estiver muito mal, vou a um quilômetro por hora, chego em Capela do Saco ainda com luz. Ali encontro pouso. Em último caso, me hospedo para me recuperar um pouco e decidir uma solução.

Trecho de asfalto, na saída de Carrancas.

Acho que estou recuperando o discernimento. A dor, ao contrário, só aumenta. Agora tenho que provar a mim mesmo que sou um homem de moral, que reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Não há movimento sem dor

Foi você que inventou de viajar sozinho, agora aguenta a dor, sem reclamar. Ai, mais um estalo. Hora de seguir.

Braço esquerdo na alça da mochila, depois o direito, consegui prender as fivelas da cintura e do peito. Para ajustar as tiras ao corpo, só pude contar com o braço direito, o braço esquerdo, além de doer, perdeu toda a força. Novamente, a sensação de que a mochila dá estrutura às costas, de que o peso recoloca o ombro no lugar. Mas será? Não parece crível, a dor deveria aumentar.

Uma seriema gemeu na beira da estrada, seria um sinal bem triste que eu não soube interpretar?

Ergo a bicicleta. Não há movimento sem dor. Mas cada etapa vencida é um ganho de confiança, vou cumprir o plano mínimo: empurrar a mim e à bicicleta, com dor e com tudo, até o pouso mais próximo. A vaidade também está ferida e mostra suas dores: depois de fazer tanta festa e contar tanto causo, o que vou dizer aos amigos e amigas que acompanham minha viagem? Que não fui capaz de chegar ao final? Concentre-se, a vaidade agora não lhe serve para absolutamente nada.

Será que consigo montar na bicicleta? Dói – sem novidade. Mas a dor é suportável, pelo menos por alguns quilômetros.

Pelo menos – “pelo menos” é a expressão do momento. Modalizado pelo mínimo, destaco-me de mim mesmo – paro, ouço, observo – tento assumir a regência dessa polifonia de sensações desconexas – dores, fraquezas, forças – que me constituem neste momento. Difícil produzir unidade, minha harmonia é complexa.

Conselho fenomenológico nos cruzamentos com linhas férreas.

À primeira pedalada, isso fica mais evidente. O equilíbrio inicial é resultado de um trabalho minucioso do corpo inteiro, um sem número de esforços e compensações, vetores voluntários, mas subconscientes, que se harmonizam no eficaz fluir do movimento geral. A dor polvilha toda a área esquerda das costas, e é difícil de me equilibrar, não entendo bem por quê. Seu braço esquerdo está sem força, é isso. Desisti. Por ora. Quando desmontei, estalo forte no ombro ao soltar a mão esquerda da manopla. Voltei a empurrar a bicicleta, lenta e pacientemente.

Fomos até o topo de uma subidinha. Há solidariedade entre mim e a bicicleta – ela nada faria sem minhas pernas, eu dependo da sustentação e da rolagem dela. Lá no alto, arrisquei mais uma tentativa de pedalar. Montei, agora já conheço as dores, seus pontos de origem e suas vias de irradiação. Ao deixar a bicicleta ir, me senti estável. Assim segui, mesmo depois, quando a estrada ficou plana.

No baixo, avistei uma boiada. A procissão das vacas ocupa toda a largura da via. Faz bem esperar. Projetei os movimentos, saquei da câmera. Cada ação é um teste, ensejo de auto-observação. Não podia contar com a mão esquerda como apoio, cliquei como deu. Depois baixei o grande olho, me fiz de mourão, para ver e ouvir.

As vacas paroleavam uma ladainha de bois.

Conversa de vacas (jogral rosiano[1])

– …na mesma canga, prenderam o boi Rodapião… Chegou e quis espiar tudo, farejar e conhecer… Era tão esperto e tão estúrdio, que ninguém não podia com ele… Acho que tinha vivido muito tempo perto dos homens, longe de nós, outros bois…

As vacas e um boi, em jogral de Guimarães Rosa.

– Só falava artes compridas, ideia de homem, coisas que boi nunca conversou.

– Disse logo: “Vocês não sabem o que é importante… Se vocês puserem atenção no que eu faço e no que eu falo, vocês vão aprendendo o que é que é importante…”

– Mas, por essas palavras mesmas, nós já começamos a ver que ele tinha ficado quase como um homem, meio maluco, pois não…

Mooooouuuuuuuughmmm

– Cada dia o boi Rodapião falava uma coisa mais difícil p’ra nós bois.

– Desse jeito: “Todo boi é bicho. Nós todos somos bois. Então nós todos somos bichos!…”

– Estúrdio…

Muuuuoooóoo

– Então, boi Rodapião ainda ficou mais engraçado de-todo.

– Falava: “A gente deve de pensar tudo certo, antes de fazer qualquer coisa.”

– Mas o boi Rodapião ia ficando sempre mais favorecido com suas artes; e era em longe o mais bonito e o mais gordo de nós todos. Até que chegou um dia…

Mmmmmmmm

– Chegou um dia, nós reparamos, que já estava trecho demais sem chover. Quase que nem capim seco não tinha mais…

– Então, os homens vieram.

– E chamaram todos os bois p’ra fora do pasto rapado.

– E foram levando a gente p’ra longe.

– Muitos dias, muito longe.

– Depois, chegamos…

– E puseram os bois nós todos num pasto diferente, desigual de todos os pastos,

– E que era todo num morro frio, serra a-pique, sem capim conhecido de nenhum de nós…

– Aí a gente pegou a comer, quase sem levantar as cabeças…

– Mas o boi Rodapião…

– O boi Rodapião foi espiando tudo, sério.

– E falando: “Em todo lugar onde tem árvores juntas, mato comprido, tem água. Lá, lá em-riba, quase no topo do morro, estou vendo árvores, um comprido de mato. Naquele ponto tem água!”

– E ficou todo imponente.

– E falou grosso: “Vou pastar é lá, onde tem aguada perto do capim, na grota fresca!…” 

– Eu também olhei p’r’a ladeira, mas não precisei nem de pensar, p’ra saber que, dali de onde eu estava, tudo era lugar aonde boi não ir.

Mooooooooouuuuuuuuuuugh

– Mas boi Rodapião falou como o homem: “Eu já sei que posso ir por lá, sem medo nenhum: a terra desses barrancos é dura, porque em ladeira assim parede, no tempo das águas, correu muita enxurrada, que levou a terra mole toda… Não tem perigo, o caminho é feio, mas é firme. Lá vou…”

– Eu não disse nada, porque o sol estava esquentando demais.

– E boi Rodapião foi trepando degrau no barranco: deu uma andada e ficou grande; caminhou mais, ficou maior. Depois, foi subindo, e começou a ficar pequeno, já indo por lá, bem longe de mim…

– Escutei o barulho dele: boi Rodapião vinha lá de cima, rolando poeira feia e chão solto…

– Bateu aqui em baixo e berrou triste, porque não pôde se levantar mais do lugar das suas costas…

– Ajudar eu não podia e nem ninguém… Chamei os outros que não vinham e não estavam de se ver…

–  Aí, olhei p’ra o céu, e enxerguei coisa voando…

– E então espiei p’ra baixo e vi que já tinham chegado e estavam chegando desses urubus, uns e muitos…

– E fui m’embora, por não gostar de tantos bichos pretos, que ficaram rodeando aquele boi Rodapião.

A igreja de Capela do Saco, município de Carrancas.

A morte de um herói

Consumindo as dores, ruminando a estória, não tardei a chegar a Capela do Saco, vilarejinho mínimo, quase só um arraial, pertencente a Carrancas.

Tudo eram hipóteses. Na escada em frente à igreja, um homem, uma mulher e um cachorro, sentados, almoçam. Contei meu caso, me observaram. Tem posto de saúde aqui? Só em Caquende, mas não tem médico. Onde tem médico? Ou inverte o caminho para Carrancas, ou tora a São Sebastião da Vitória; hospital, só São João Del Rei. Para atravessar? Desce até o porto, o barqueiro está ali. A pousada em Capela? Está fechada, não se viu o dono a semana toda, deve de estar viajando.

Agradeci, fiz minhas fotos. E me empurrei com a bicicleta até a borda da represa, em frente à balsa atracada. Não há vivalma.

Na curva da represa apareceu um homem. Perguntei se era barqueiro, ele me acenou que esperasse, fez meia-volta e perdeu-se do visível, mas voltou em seguida mandando um sinal de positivo. Pouco depois, veio o barqueiro, um moço corpulento, gordo até. Embarquei, juntei minhas coisas no chão, meio arrependido de ter deitado a mochila, pois a operação é penosa. Mas assim vou averiguando o teor de minhas dores.

Atravessando a represa, medindo as dores no ombro e na clavícula.

A travessia é curta, nem quatro minutos de porto a porto. No entremeio, fui apalpando a clavícula e mexendo o ombro, examinando a imagem do inchaço.

– A travessia é dois reais.

Eu só tinha uma nota de cinco, ele não tinha troco, ficou por isso mesmo. Expliquei minha situação.

– Eu vi o senhor ali, sentindo dor – testemunhou. Em seguida, confirmou as informações sobre os serviços médicos na região, acrescentando um dado que me encorajou: – Daqui até São Sebastião da Vitória é mais plano, a pior ladeira é essa aí na saída.

Caquende: polvilhado de casas nas faldas da igreja. Na porta do boteco da praça, um grupo de velhos contempla a tarde. Aproximei-me.

– Ah, o posto de saúde fechou, a moça já foi embora, só amanhã. Mas eu tenho aqui um remédio bom pra dor – sacou uma cartela do bolso, me oferecendo. Agradeci, disse que já tinha tomado um Dorflex – Tá bom, esse seu é até melhor que o meu.

– Acho que não quebrou não, né? – verifiquei com meus colegas de dores.

– Quebrou não. De outro modo o senhor não estava em pé.

Senti que poderia seguir e, fosse o caso, pegaria uma carona com um carro ou caminhão.

Hora de ajustar o aplicativo de mapas com o próximo trecho. O celular fica num bolso externo da mochila, de fácil acesso, do meu lado es-quer-do… intuí o desastre antes mesmo de tomá-lo nas mãos, o aparelho ficou bem embaixo de mim na queda. Com valentia canina, evitou que uma pedra ferisse o osso da bacia de seu dono. Pagou o heroísmo com a própria vida: a tela esmigalhou, não respondia a toque nenhum. Em respeito ao soldado caído em batalha, guardei silêncio, mas era preciso continuar. Segui os marcos da Estrada Real.

Pedalei bem uns 20 quilômetros desse jeito, com dor, ganhando confiança com a expansão do hodômetro. Nas primeiras subidas, desci da bicicleta e empurrei, mas logo me dei conta de que o mais difícil era essa operação mesma, pois toda quebra de estabilidade gera esforços doloridos. Se permaneço montado, no início de um trecho inclinado, rearranja-se em novo equilíbrio esse maço de vetores que incide sobre as costas, depois o conjunto estabiliza.

O carinho ontológico de um pão-de-queijo

Já bem próximo de São Sebastião da Vitória, encontrei o asfalto e, 100 metros adiante, um posto de gasolina. Parei ali. Era final de tarde, restavam apenas três quilômetros até meu destino.

– Para começar, um pão-de-queijo, por favor.

– Com ou sem recheio? – respondeu um homem com pinta de ser o dono.

– Tem recheio? De quê?

Ele mostrou o cardápio com mais de uma dúzia de possibilidades, pão-de-queijo recheado é a especialidade da casa.

– Com linguiça e queijo, por favor.

– Na chapa?

– Sim! – quase verti uma lágrima.

Deixei a mochila na cadeira e perscrutei o lugar. Uma lanchonete de posto de estrada, muito bem montada, com um amplo balcão, uma porção de mesas e, ao redor, prateleiras expondo produtos. Cachaças estão à venda. Que curioso, muitas das marcas são de Januária, tradicional cidade produtora, mas em todo caso distante, ao noroeste do estado de Minas, à beira do rio São Francisco.

Em São Sebastião da Vitória, cachaças de Januária.

A moça trouxe o pão-de-queijo, quentinho. À primeira mordida, o conforto tomou conta de mim pela primeira vez ao longo desse dia. Como é exaustiva a dor incessante, mesmo em intensidade que pareça suportável. Pedi um suco, para hidratar, depois um capuchino com canela, pois o fim da tarde traz frio, que reforça a dor e o incômodo. Mais um pão-de-queijo com linguiça e queijo. Ocorreu-me o famoso verso de Pessoa: “tudo vale a pena se alma não é pequena”. A medida de minh’alma era aquele pão de queijo recheado.

Comi quatro, devagar, concedendo-me tempo.

De volta à estrada, juntei-me a um ciclista que ia na mesma direção, fomos lado a lado por uns dois quilômetros. Ao entrar na cidade, deixei-o seguir e parei na farmácia. Comprei mais remédio para dor muscular e um spray para contusões esportivas com anti-inflamatório.

Encontrei a pousada, muito simples. Demorou um pouco, mas um homem veio me atender. Caladão, me mostrou o quarto. Perguntei se podia entrar com a bicicleta, ele disse que sim, mas que não precisava, ali ninguém mexe. Como seria um esforço descomunal carregá-la, inclusive escada acima, decidi deixar em um corredor mais largo, perto da porta. O homem então falou:

– Eu vi o senhor chegando.

Caiu a ficha, era o ciclista da estrada! Eu o reconheci, ele relaxou, ficou mais gentil.

Set’Dezoito

Chegaram dois homens. Aquela era uma pousada bem simples e barata, usada principalmente por quem vem à cidade a trabalho. Um homem magro, de uniforme verde e gorro de lã, sorrisão largo na cara, os dentes brancos em contraste com a tez negra.

– Olha só a sua bicicleta, está viajando com ela? O senhor está de parabéns.

Seu rosto é muito plástico, a máscara se molda sublinhando a intenção de cada frase – parecia um personagem de quadrinhos.

– Vem de onde? (Olhos bem abertos, inquiridores.) Resende… Resend’Costa? Ah, Resende, no estad’do Rio… É long’demais, gente! (Muito sério, cenho apertado, bico fino.) Está de parabéns mês’, sô! (Sorriso aberto, sobrancelhas altas, em curva.) Ah, tá visitando alambiques?! Então o senhor não pod’sair daqui da nossa região sem visitar meu amig’Nando. (Cabeça gira alguns graus à direita, sorriso com o canto esquerdo da boca, olho esquerdo semiaberto.) Ele faz a cachaça Set’Dezoito. É, Set’Dezoito. Vir aqui por alambiques e não visitar o Nando é o mês’ que não conhecer nada. (Rosto repreensivo.) Fica em Coroas. Quando for lá, diz que conheceu o Tião, Tião da Lavras Tratores, La-vras-Tra-to-res. (Desenha bem cada sílaba com os lábios.) Já fiz muito serviço para ele lá. Dá gosto de passar lá. (Sorriso.) Pode ser qualquer um, o Nando, qualquer funcionário, todo mundo vai lhe tratar bem, com um sorriso no rosto. (Sorriso desliza para os cantos da boca, cola o queixo no peito e ergue muito as sobrancelhas.) Dá gosto! Amanhã você vai lá? Ah, vai a Bichinho? (Pergunta com os olhos, bico apontado para baixo.) É sim, Bichinho tem artesanato – mas artesanato bom mês’ é em Resend’Costa. Vai passar lá? Ou melhor ainda (ergue o dedo como um político que discursa): Desterro de Entrerrios. Tem cachaça também, uai! (Sorriso franco, os dentes entreabertos.) Você procura meu xará Tião Gouveia, cachaça boa. Mas igual a do Nando não tem não. (Cenho franzido.) Set’Dezoito, isso. (Máscara neutra.) Cê tá de parabéns, eu tô admirado co’ocê! (Sorrisão generoso.)

Agradeci a conversa e as dicas, e me recolhi no quarto, hora de me cuidar. Subir a escada, banho, spray no ombro, vestir-se – cada operação é um acontecimento complexo, pois todo movimento demanda atenção integral.

Fui jantar. Tomei uma única pinga, a de curar. Tive uma luz: a cachaça que o Tião me indicou é a Século Dezoito! Claro que eu vou visitar, está programado, já até falei com o Nando!

Ruminações sobre a queda

Balanço: fratura não é; minha aposta é que a contusão não é grave, apesar do forte incômodo; rodei uns 25 quilômetros depois da queda, não piorou, bom sinal; a tese de que a viagem continua, mesmo com dor, ganhou força.

As vacas e os bois também têm a sua literatura. Ilustração de Poty para “Conversa de Bois”, conto do livro “Sagarana”, de João Guimarães Rosa.

Fui deitar – com analgésico e relaxante muscular, spray anti-inflamatório, canseira acumulada, bons cobertores e uma noite muito fria, não podia haver receita melhor para eu mergulhar num sono profundo.

Peguei a lembrar da conversa das vacas. O boi Rodapião teve sorte pior que a minha, ele não se ergueu, ficou para os urubus. Quiçá esse meu tombo tenha sido o melhor que podia me acontecer. Pois se eu não caio agora, a próxima queda poderia ser grave. A vida treina para os grandes erros – diz uma peça de teatro do iraniano Nassim Soleimanpour. Você comete muitos pequenos erros sem consequência, e é isso que lhe encoraja para cometer o grande erro, que é fatal.

A queda tem seu itinerário. Raramente acontece sem aviso. Veja o caso de Augusto Matraga – perdeu o dinheiro, perdeu as posses, perdeu a mulher e a filha, perdeu seus homens, ainda assim, sem mais nenhum chão para sustentar o seu castelo, arroga-se a valentia de enfrentar sozinho os jagunços de seu rival, Major Consilva. Os mercenários tentam reduzi-lo a gado, marcam a ferro antes do abate; mas Augusto berra como um homem e salta barranco abaixo, materializando a imagem-símbolo de sua derrocada. É só quando salta, quando realiza (com o perdão do oportuno anglicismo) sua queda, que ele faculta a si a chance de se reerguer.

Os edifícios, os clubes de futebol, os presidentes, os ciclistas, todos caímos porque avançamos na direção do buraco que nos cabe. Refiz o itinerário de meu tombo. Primeiro, a evitação, quando eu passava o mata-burro empurrando a bicicleta, procedimento que reduzia o risco a zero. Segundo, a quebra desse procedimento, ao abrir a possibilidade de não o seguir. Terceiro, a ideia: passar na diagonal. Quarto, a primeira execução da ideia, que é bem-sucedida. Quinto, a dúvida que polui a espontaneidade. Sexto, a quase falha tratada não como manifestação do risco real, mas como um erro que eu posso consertar com atenção e habilidade, mas agora se quebrou também a confiança do principiante. Sétimo, eu caio.

Sabe que piorou?

Pela manhã, o ombro estava sensivelmente melhor, o que é bom sinal. No entanto, evitei o otimismo, pois a dor, embora menos intensa, ainda era forte – a festejar era a mudança de tendência, não o teor da variação. O café da manhã foi pão com margarina. Peguei o bonde andando da conversa da faxineira com o porteiro.

– É mal-estar, disenteria… não sei mais o que eu faço.

– Precisa parar com a pinga, seu moço!

– Nada, minha amiga, eu nem não bebo mais. Todo mundo bebe e a minha está lá. Vai fazer um mês que nem sinto cheiro de cachaça.

– Parou, foi?

– Foi. Depois que eu parei, sabe que até piorou?

– Piorou, é?

– Piorou – e riram.

Amarre as botas, se for capaz

Fui organizar os trapos para seguir até São João del Rei.

A maior das dificuldades surgiu aqui: amarrar as botas. Descobri que a dor mais intensa e a instabilidade maior do ombro está no movimento de puxar para fora. Não tinha força nenhuma e o ombro dava trancos fortíssimos, muito doloridos. Por um lado, entendi que não era o ombro que se deslocava e sim a musculatura local que, com o edema provocado pelo choque, impedia o movimento fluido, o que resultava nos estalos. Não havia alternativa, enfrentei a dor para amarrar os cadarços. Ficou meio solto, tive que refazer tudo, com mais força, mais dor, estalos e coragem.

A praia de São João del Rei.

Resumindo o final dessa história, pedalei uns 25 quilômetros até São João del Rei, mais uns 5 quilômetros dentro da cidade, e ali gastei a tarde comprando e habilitando um novo celular. Segui para Tiradentes, e estiquei até o vilarejo conhecido como Bichinho, distrito da cidade de Prados, oficialmente denominado Vitoriano Veloso, em homenagem ao único inconfidente negro. Um motoqueiro a quem pedi informação me levou até a pousada Vó Cota, muito arrumadinha, de frente para a igreja. Ainda peguei os últimos minutos de supermercado aberto e comprei algum mantimento, pois à noite não há restaurante aberto.

Em Bichinho, minha principal expectativa era conhecer o alambique da cachaça Tabaroa. Quem sabe ela não ajudava na minha recuperação? Bêbado tem anjo forte, treinado, e também conta com os seus remédios. De todo modo, estava confiante de que podia seguir viagem, afinal, foram quase 50 quilômetros pedalados apenas neste dia, com dor e incômodo, mas com sinais consistentes de melhora.

[1] Com trechos de “Conversa de Bois”, Sagarana, de João Guimarães Rosa.

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