Cachaça da roça em caminho de tropeiro

Incursão ciclística pelo interior de Minas chega a um alambique informal — e o descobre mergulhado na cultura, história e paisagem de uma região essencial para a formação do Brasil

Chegada ao palácio de Traituba, em Cruzília, Minas Gerais.[/caption]

Crônica de viagem por Maurício Ayer (texto e fotos)

Cruzília (MG) surpreendeu com seus queijos finos, assim como Aiuruoca (MG) e Resende (RJ), com cachaças de alta qualidade. Cada trecho da Mantiqueira e do sul de Minas, entrementes, ensina sobre as pessoas desse pedaço do mundo, e muito sobre a cultura cachaceira, principal objetivo desse itinerário pela antiga rota do ouro. A viagem segue entre Cruzília e Carrancas.

Pelos marcos da Estrada Real

O domingo amanheceu encoberto e frio, depois de toda uma semana de sol. As noites, em contraponto, estiveram muito frias.

Contei no episódio anterior dessa viagem que alguns dos parafusos que prendem o bagageiro à bicicleta não davam aperto. Achei que colar silver tape por cima lhes daria estabilidade suficiente para não soltar e de fato não soltou. Mas o que vi nesta manhã me causou espanto: as principais hastes do bagageiro, as mais grossas, que ficam presas no quadro junto ao eixo da roda traseira, estavam completamente tortas! Tentei entender o que aconteceu. A hipótese que me pareceu mais plausível é que, por não estar bem preso em um dos lados houve má distribuição do peso do bagageiro, o que então forçou as hastes e o metal começou a torcer – uma vez que começa, cada rabeada do saco estanque que estava atrás resultava em mais deformação do metal.

Mais tarde, escrevi relatando a ocorrência para meu amigo e professor Guilherme Cavallari, autor de vários livros sobre mountain bike e cicloturismo; como bom mestre, me devolveu uma resposta bem didática: “Não tem essa de bagageiro entortar, o seu deve ser muito ruim”. Quando comprei, me disseram que era bom… enfiei o orgulho no saco estanque, espero ter aprendido mais uma.

Como solução para seguir viagem, usei os extensores de borracha para desenvolver um “bagageiro estaiado”, tracionando-o por baixo a partir do canote do selim. Firmou: pé na estrada.

Minha atenção, porém, estava toda voltada para o desempenho da roda de trás. Na véspera, um mecânico de motos de Cruzília trocou as pastilhas para mim, mas não ficou bom, o disco estava pegando na pastilha, o que emperra a roda. Na descida o santo ajuda e, na subida, o problema fica menos evidente, então é nas partes planas da estrada que se sente quando a rolagem está aquém, pois dá-lhe perna para ganhar impulso e basta interromper o pedal que a velocidade arrefece. Rouba energia demais, mais que isso, rouba o prazer de pedalar, pois para tudo há esforço onde deveria haver fluidez. Quanto a frear, até que estava funcionando bem – o problema não é parar, mas rodar bem.

Selfie com bicicleta, em um dos marcos da Estrada Real, entre Cruzília e Traituba.

Ao sair de Cruzília, depois de dois quilômetros de subida pelo asfalto, quebrei à esquerda para um caminho de chão. Pela primeira vez na viagem, peguei um trecho do percurso oficial da Estrada Real, que se reconhece logo na entrada, pelos marcos de concreto que pontuam o percurso, identificados por um mapa esquemático com os traçados do Caminho Velho e do Caminho Novo, respectivamente ligando Paraty e Rio de Janeiro a Ouro Preto, e o prolongamento no chamado Caminho dos Diamantes, até Diamantina. Ao lado dessa sinalização principal, há um marco baixinho, de concreto com uma plaquinha metálica, que indica a quilometragem que falta até o próximo ponto de parada da Estrada Real – e o quanto ficou para trás desde o anterior. Este primeiro apontava Cruzília – 2 km para um lado, Traituba – 27 km para o outro.

A cada encruzilhada essa sinalização se repete, o que assegura o viajante do percurso correto e do bom controle das distâncias, essencial quando se viaja de bicicleta. Uma vez que se encontra os marcos da ER, não há como se perder.

Alambique de roça

A minha próxima parada, no entanto, era a visita a um alambique no meio do caminho, cujo dono, segundo me informaram, se chamava Zé Rato. Já próximo da quilometragem que me indicaram (20 quilômetros do início da terra), cruzei dois homens saindo de carro de uma porteira.

– Alambique? É ali na frente, do Zé Rato – respondeu de pronto o jovem. O velho esperou, o jovem se calou após a fala afobada; o velho assumiu a palavra.

– O senhor vai passar uma igreja, em seguida tem o laticínio, é ali. Mas se o senhor sair aqui à direita tem um alambique ali também, do meu primo. Só acho que ele não vai estar lá agora.

Barris de carvalho da destilaria do Zé Rato.

Devolvi-lhes um respeitoso e grato sorriso. Ficaria feliz de visitar o outro alambique, mas o tempo é curto, devo me manter no caminho principal para torar até Carrancas ainda nesta tarde. Ele ouviu, acedeu, e repetiu a explicação, com variantes.

– O senhor segue por aqui mesmo, está perto. Depois dessa curva. O senhor vai ver o laticínio, aí tem uma fazenda branca, é ali mesmo.

Eu agradeci, ele repetiu uma terceira vez, enfatizando que era fácil e que não tem como se perder, quando vir a igreja, o laticínio, a fazenda branca (com janelas amarelas, precisou), tem o portão, onde às vezes pode ter alguma vaca. Sorri mais uma vez, agora montando na bicicleta ao mesmo tempo que agradecia. Enquanto se está diante do mineiro ele jamais o deixará constrangido pelo silêncio, porém, cumprida a devida etiqueta – que inclui a repetição do ritual de informar e agradecer ao menos duas vezes –, é possível partir entre as falas sem que o interlocutor se ofenda, pois na conversa não existe ponto final.

Lá estava a igrejinha, com seu estilo peculiar meio moderno, geométrico, com uma cruz de vidro na única torre. Passado o laticínio, com ares de desativado, avistei a fazenda branca e entrei pelo portão – a indicação estava corretíssima: havia vacas (provavelmente, na próxima versão da indicação eu seria informado da presença das galinhas, que de fato eram multidão). Uma mulher varria a varanda e uma menina brincava ao lado, no pátio. Contei que viera conhecer o alambique por indicação do Luiz Sergio, do laticínio de Cruzília, que é conhecido da casa. Ela chamou seu marido Carlos, o responsável pelo alambique.

Carlos me contou que neste ano eles não vão produzir cachaça. Ainda assim fez a gentileza de me receber e me mostrar as instalações, prevenindo-me de que elas não estavam limpas e preparadas nem para a produção nem para receber uma visita. Tranquilizei-o de que levaria isso em conta, mas que ainda assim queria conhecer o alambique, que me fora bem recomendado. Informei-lhe do meu projeto de viagem em curso, o que satisfez a última lacuna no protocolo de recepção do Carlos, afinal, ele recebeu uma moeda valiosa: uma história para contar aos seus parceiros, a do ciclista que roda por aí atrás de cachaça.

A destilaria do Zé Rato é um alambique de roça, simples, mas correto, com uma boa faxina e algumas melhorias poderia talvez obter o registro do ministério, se assim quisesse. De todo modo, esse tipo de estabelecimento funciona apenas para abastecer o consumo do dono e da comunidade local, é, portanto, peça importante para compreender uma autêntica cultura cachaceira.

A moenda fica em uma área separada, descoberta. Depois há uma casa com dois ambientes, onde ocorrem a fermentação e a destilação, e, ao lado, uma outra casa para abrigar os barris de carvalho. Ao abrir a sala de envelhecimento da cachaça, surpreendemos uma família de morcegos – a disputar com os anjos as emanações dos barris. Os alados explodiram em voos bêbados, perfazendo trajetórias estocásticas que, num extremo esforço de síntese, descreveria como “circulares”.

Abelhas fizeram casa em um barril.

Seo Carlos me ofereceu a cachaça de um dos barris, “o melhor” deles, me garantiu. Era uma caninha muito bem elaborada, com notas de doce de coco queimado, como às vezes acontece com barris de carvalho. A cachaça estava ali há uns bons três anos, mas a cor era ainda pouco intensa, donde se conclui que os barris eram antigos e bastante usados. Perguntei se havia diferença entre os barris.

– Este barril aqui é de cachaça destilada, não está boa.

Não entendi, perguntei de novo. Carlos explicou: a “água fraca” era levada de volta ao alambique, então ficou claro de que se tratava: a cauda da destilação, a parte final, mais “aguada” e geralmente separada do coração (que é a cachaça propriamente dita), é redestilada para aproveitar o álcool que restou nela. Segundo me disseram amigos alambiqueiros, misturar a cauda a um novo mosto fermentado é prática aceita em alguns bons alambiques, pois os resíduos da cauda serão novamente separados na destilação. No entanto, o destino mais comum para a cauda e a cabeça, conforme tenho constatado, é um outro tipo de redestilação, com o objetivo de produzir etanol, usado como combustível em motos e carros.

Saímos da sala de envelhecimento por uma porta lateral que dava para uma espécie de varanda. Havia ali alguns barris sem uso. Um deles foi tomado por abelhas, que ali fizeram sua colmeia. Carlos me mostrou, recomendando cuidado. Como era o mel delas? Carlos não soube dizer.

A fermentação é feita em caixas d’água adaptadas, usando o fermento preparado ali mesmo, a partir do caldo da cana, no início da safra.

Alambique da marca Osório.

O alambique de fogo direto, com um volume de cerca de 300 litros, é da marca Osório, que eu nunca tinha visto, pois quase sempre o que eu encontro são equipamentos da fábrica Santa Efigênia. Décadas atrás, quando o patrão comprou esse alambique, o representante da marca veio ensinar como fazer cachaça, e este foi o único treinamento pelo qual o Carlos passou. No mais, aprendeu observando produtores vizinhos e experimentando na prática a colaboração com as leveduras e o comando da fornalha.

Seo Carlos, mestre alambiqueiro, em frente às instalações onde produz cachaça.

Seo Carlos me conduziu entre as vacas até a saída. No meio do pasto, vi umas ruínas de construção e ele me contou que ali existiu uma fábrica de manteiga, uma das mais antigas da região. Minas Gerais é toda assim – por ter vivido tempos gloriosos que se esvaíram quase repentinamente, com o fim do Ciclo do Ouro, ficam para trás muitas construções que vão sendo deglutidas pela paisagem e que poderiam ser objeto da arqueologia.

Meu caminho agora passava justamente por uma construção histórica. Mais 10 quilômetros, precisou seo Carlos, e encontro o “palácio” de Traituba. Taí um caminho com jeito do itinerário de tropeiro, passando em um alambique da roça para encher os garrafões – ou até os barris, se for levar em quantidade para vender – e depois encontrar uma velha fazenda para pousar e, no dia seguinte, retomar a estrada.

O elefante e os cavalos

A essa altura, eu estava satisfeito com meus freios, creio que com o uso ele se ajusta às pastilhas novas. Com a “queima” das pastilhas, isto é, as primeiras dez freadas bem dadas, também melhorou um pouco a rolagem das rodas, o prognóstico era bom e eu recuperava o prazer de rodar por aqueles caminhos de terra. Com vento no rosto, após uma descida, vi ao longe o palácio surgir entre as araucárias, uma linda imagem que eu via se aproximar.

O palácio de Traituba, construído entre 1826 e 1830.

Traituba, um vasto casarão, foi construído no final da década de 1820, a meio caminho entre Cruzília e Carrancas. Segundo soube, foi construído para que Dom Pedro I o utilizasse – versões atestam que ele tinha uma amante na região, não pude confirmar o boato. Porém, o monarca não chegou a hospedar-se no palácio, pois abdicou em 1831 para retornar a Portugal e o palácio, que foi rebaixado em um andar para reduzir os custos de manutenção, teria tudo para se tornar mais um elefante branco na paisagem brasileira. Porém, a história do lugar ainda estava por ser escrita.

Sabe-se que à cidade de Cruzília atribui-se ser o berço da raça de cavalos Mangalarga Marchador, a partir de animais selecionados no sul de Minas e que ganharam fama na fazenda Mangalarga, no interior do estado do Rio de Janeiro. Foi na fazenda Traituba, entretanto, que várias gerações após gerações da família Junqueira desenvolveram a raça, famosa pela suavidade de sua marcha, excelente para as viagens longas. Trata-se, pois, de uma raça brasileira com mais de 150 anos de história e que não foi cruzada com nenhuma outra raça estrangeira.

Bovinos de Traituba, em formação defensiva, me observam curiosos.

Hoje, pelo que soube, Traituba se transformou em um hotel-fazenda. Neste domingo de início de julho, porém, estava fechado. Aproximei-me do portão, trancado, e a sensação geral era de abandono e solidão. No entanto, vi através do portão que o pátio não estava sem uso: um grupo de novilhas e garrotes pastava. Quando os notei, eles já tinham dado pela minha presença e me observavam, como eu a eles, com grande curiosidade. Cumprimentei-os, permaneceram bem calados, mas com os olhos firmes sobre mim. Havia eletricidade no ar. Abri a bolsa e peguei a câmera bem devagar, mas ao apontar meu grande olho de vidro os bovinos se assustaram e moveram-se. Baixei a máquina, pararam. Estavam em formação defensiva, em grupo, observando, mas prontos para correr.

Deixei-os em paz e fiz o meu lanche. Saquei sanduíche e frutas da mochila, comi em pé, ali mesmo, olhando para o chapadão no horizonte, e as colinas que o precedem. Que belo lugar para um palácio!

Sem queijo

Segui meu rumo. Em uma encruzilhada, parei um motoqueiro que me explicou:

– A Estrada Real é seguindo reto, mas se virar aqui à direita é mais perto.

Peguei o caminho mais curto, devo ter economizado uns bons cinco quilômetros, em compensação peguei muitos e muitos morros. No cômputo geral, terá valido a pena? Difícil saber… toda vez que peguei uma alternativa no final da jornada, fui presenteado com lindas cenas de cair da tarde e pôr-do-sol, e dessa vez não foi diferente. Não sei dizer se o outro caminho oferecia belezas similares.

Na Estrada Real, a caminho de Carrancas.

O que posso afirmar é que suei mais naquelas ladeiras, pois cortei um trecho pelo meio das colinas. Lá no topo de um morro, depois de rodar 50 quilômetros, a mente busca estímulos para terminar sua jornada. Aí é que me veio à mente o maravilhoso queijo que eu ganhei do Luiz Sergio, do Laticínio Cruzília, e… Nãããããããooooo! Esqueci o queijo!!! Refiz na memória a preparação da bicicleta antes de sair, pela manhã, e me lembrei perfeitamente que esqueci o queijo no frigobar da pousada. Não havia hipótese de voltar, a constatação era dolorosa. Em silêncio de réquiem, lamentei profundamente ter guardado na geladeira um queijo que foi escolhido, justamente, por dispensar a refrigeração.

Viajantes

Meu atalho desembocou de volta na Estrada Real oficial. Pouco adiante, havia um Toyota Bandeirante parado, quando passei ao lado, ali estavam um senhor e sua esposa, ele puxou assunto. Conversamos, contei do projeto de minha viagem, da cachaça, da Estrada Real, de Minas Gerais. Moram em Pindamonhangaba, lembrei da boa cachaça Sapucaia, uma marca tradicional da cidade que recentemente transferiu-se para Pirassununga. Percebi na fala dele um sutil sotaque francês, perguntei de onde eram, soube que ele se chama Roland e nasceu na Suíça francesa, embora viva no Brasil há várias décadas, onde trabalhou por muito tempo na indústria farmacêutica. Valéria é professora, natural do vale do Paraíba.

Já estava chegando em Carrancas, faltava apenas uma relaxante descida. Encontrei uma pousada a preço justo e com wi-fi, desfiz minha montaria, tomei um banho e descansei umas duas horas. No celular, mais uma dica do Luiz Sergio: “Tem uma produção de cogumelos bacana aí em Carrancas. Mas não é do que o passarinho não come, é cogumelo que passarinho come!”. Dessa vez não vai dar pra conhecer, mas fica anotado para quando eu voltar.

Através do mar de morros de Minas.

Quando saí a jantar, encontrei por acaso o casal Roland e Valéria, que me convidaram à mesa para retomarmos a conversa. Roland é nostálgico da Minas Gerais de 20 ou 30 anos atrás, sem tanto asfalto e mercantilização nas cidades históricas. Falamos também sobre cachaças de qualidade. Mas o que mais estranha no presente é a política:

– Nunca vi tamanha degradação e apatia!

Em viagem, evito o confronto, não era o caso. Ainda procurando entender a posição de meus interlocutores, afirmei, cauteloso:

– Quando você reúne a delação, a gravação da conversa por telefone, a filmagem da entrega da mala de dinheiro, a operação controlada pela Polícia Federal, todo um conjunto de provas, e ainda assim você deixa impune esse político escancaradamente criminoso, a mensagem que você passa ao povo é muito degradante, e isso é muito perigoso, pois destrói o caminho da reconstrução política democrática, pode abrir espaço para os aventureiros autoritários.

– E só prende de um lado! – exclamou Roland, eu assenti.

Minha passagem por Carrancas serviu para anotar umas dezenas de coisas que deixei de conhecer, como cachoeiras, restaurantes, cogumelos e, naturalmente, alambiques, pois os há por toda parte. No dia seguinte, minha bússola apontará na direção de São João Del Rei.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Carrancas, Minas Gerais.

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4 comentários para "Cachaça da roça em caminho de tropeiro"

  1. Bruno Simões Gonçalves disse:

    Prezado Maurício, estou aqui controlando os dedos para não pesar demais nas palavras. Mas a verdade deve ser dita. De modo educado , cauteloso e sobretudo levando em consideração o conjunto de outras coisas do universo que não são o alvo de meu comentário. Mas é preciso apontar com gravidade o episódio do esquecimento do queijo. Compadre, ca pa nóis, vc estava atravessando as morrarias cachoeiradas de Minas e “esqueceu” o queijo. Talvez a psicanálise, vidas passadas, campo energético reichiano, enfim, é preciso auscultar o fatídica ausência para além do “esqueci”. Mau, como assim vc esqueceu o queijo??? somente uma explicação plausível e que aponte perigos reais podem salvar você. Esquecer um queijo em Miinas Gerais e coisa muito séria mau, muita. Mas acho que tenho uma matutação que talvez te recoloque no prumo dos possíveis.
    Levanto a seguinte hipótese: sua pauslitaneidade a essa altura das Minas Gerais estava ameaçada. A imagem paulistana trekking do sanduichinho em pé em meio à trilha em pé iria por água abaixo com a presença de um queijo mineiro. Suas células, a essa altura da viagem, ja estão quase completas com águas mineiras; o sotaque já deve estar sendo repetido por você até nos pensamentos; a vida onírica de perguntas e respostas tomadas de rituais do Brasil profundo; tudo indica que sua paulistaneidade estava correndo risco. um queijo de Minas inteiro nessas condições te acompanhando ali, em cada espaço da solidão sua com a bicicleta seria fatal.Não haveria mais volta. Dai você esqueceu. Fez bem Mau. Ja nem haveria mais bicicleta agora acho, teria trocado por galinhas e uma vaquinha. o canudinho de beber água da mochila térmica seria substituída pelo pito. E o capacete, bom, nem preciso dizer né. Deve ter alguma imagem clássica da literatura mundial pra dizer disso que to dizendo. Lembrei da metamorfose do Kafka e do filme a Mosca mas não é esse o caso. V é pessoa muito mais indicada pra me dizer. Há algo de universal nese teu esquecimento do queijo e algum grande literato literata ja deve der pousado boas palavras sobre isso.
    Da minha parte, só posso dizer que te olharei com outros olos depois dessa crônica. Quase te perdemos Mau, pelo menos esse como nós conhecemos. Outro Mau viria, algo como o o kevin costner depis de viver anos com os indios ou o tom cruise depois de anos com o samurai. Não só os costumes seria outro, mas algo na totalidade do ser. A mineiração da alma é um fenômeno da amis alta complexidade e alquimia das substancias do ser. Repito, o queijo seria fatal. Vou ficar por aqui. Já está tardee preciso pedir uma pizza. Andei uma época andando comendo altas doses de queijo do Serro. Desde então comer piza toda sexta a noite e um de meus rituais de preservação identitária. Não sei o que poderia acontecer se eu não tomar esse cuidado. Como dizem por ai, a gente sai de Minas, mas Minas não sai de dentro da gente …

  2. Bruno Simões Gonçalves disse:

    Prezado Maurício, estou aqui controlando os dedos para não pesar demais nas palavras. Mas a verdade deve ser dita. De modo educado , cauteloso e sobretudo levando em consideração o conjunto de outras coisas do universo que não são o alvo de meu comentário. Mas é preciso apontar com gravidade o episódio do esquecimento do queijo. Compadre, ca pa nóis, vc estava atravessando as morrarias cachoeiradas de Minas e “esqueceu” o queijo. Talvez a psicanálise, vidas passadas, campo energético reichiano, enfim, é preciso auscultar o fatídica ausência para além do “esqueci”. Mau, como assim vc esqueceu o queijo??? somente uma explicação plausível e que aponte perigos reais podem salvar você. Esquecer um queijo em Miinas Gerais e coisa muito séria mau, muita. Mas acho que tenho uma matutação que talvez te recoloque no prumo dos possíveis.
    Levanto a seguinte hipótese: sua pauslitaneidade a essa altura das Minas Gerais estava ameaçada. A imagem paulistana trekking do sanduichinho em pé em meio à trilha em pé iria por água abaixo com a presença de um queijo mineiro. Suas células, a essa altura da viagem, ja estão quase completas com águas mineiras; o sotaque já deve estar sendo repetido por você até nos pensamentos; a vida onírica de perguntas e respostas tomadas de rituais do Brasil profundo; tudo indica que sua paulistaneidade estava correndo risco. um queijo de Minas inteiro nessas condições te acompanhando ali, em cada espaço da solidão sua com a bicicleta seria fatal.Não haveria mais volta. Dai você esqueceu. Fez bem Mau. Ja nem haveria mais bicicleta agora acho, teria trocado por galinhas e uma vaquinha. o canudinho de beber água da mochila térmica seria substituída pelo pito. E o capacete, bom, nem preciso dizer né. Deve ter alguma imagem clássica da literatura mundial pra dizer disso que to dizendo. Lembrei da metamorfose do Kafka e do filme a Mosca mas não é esse o caso. V é pessoa muito mais indicada pra me dizer. Há algo de universal nese teu esquecimento do queijo e algum grande literato literata ja deve der pousado boas palavras sobre isso.
    Da minha parte, só posso dizer que te olharei com outros olos depois dessa crônica. Quase te perdemos Mau, pelo menos esse como nós conhecemos. Outro Mau viria, algo como o o kevin costner depis de viver anos com os indios ou o tom cruise depois de anos com o samurai. Não só os costumes seria outro, mas algo na totalidade do ser. A mineiração da alma é um fenômeno da amis alta complexidade e alquimia das substancias do ser. Repito, o queijo seria fatal. Vou ficar por aqui. Já está tardee preciso pedir uma pizza. Andei uma época andando comendo altas doses de queijo do Serro. Desde então comer piza toda sexta a noite e um de meus rituais de preservação identitária. Não sei o que poderia acontecer se eu não tomar esse cuidado. Como dizem por ai, a gente sai de Minas, mas Minas não sai de dentro da gente …

    • Maurício Ayer disse:

      Me protegi, não mergulhei pra sempre no buraco da cachoeira… Estava em negação, achando que tinha “esquecido”… mas esquecer é o golpe mais fácil de todos. Agora, caído no real, não sei se passo ou se fico.

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