Em nomes de animais brasileiros, a resistência tupi

Colonizadores tentaram renomeá-los: jaguar virou “onça”, tapir ficou “anta”. Alguns, viraram híbridos: lobo-guará, tamanduá-bandeira, sapo-cururu. Mas língua indígena venceu, por maioria esmagadora: sabiá, tamanduá, perereca, jabuti

Por Sérgio Buarque de Gusmão

Já nascida sob a suspeita de que mais vai servir para reduzir os pacotes de dinheiro lavado no caixa dois, a nota de R$ 200,00 merece ser saudada por uma característica lícita: a estampa do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). O nome do maior canídeo da América do Sul chama atenção para o hibridismo de muitas designações da fauna do Brasil – apesar de a maioria das denominações de bichos, plantas e acidentes geográficos dadas pelos índios terem sido mantidas pelos portugueses, em caso singular, ressaltado por Gilberto Freire, de colonizador que adotou o idioma do colonizado – mesmo com tentativa em contrário do marquês de Pombal. Ficaram no idioma, no entanto, muitas combinações lexicais bilíngues. No caso, lobo-guará associa a portuguesa lobo, originária da latina lúpus, à tupi (a)guará (“pelo de penugem”). Também era chamado de aguaraçu.

A hibridez se repetiu em surucucu-pico-de-jaca ou cobra-topete (Lachesis muta), a víbora que os índios chamavam apenas de surucucu (“que dá muitas dentadas”) ou surucucutinga, em que tinga é um pospositivo do tupi para branco. E ainda há outras que mantiveram o primeiro nome em tupi, como anu-preto/branco, araponga-da-horta, ariramba-verde, jararaca-dormideira, mandi-pintado, perereca-azul, preá-da-índia, sabiá-laranjeira, seriema-de-pé-vermelho, tamanduá-bandeira, tatu-canastra/bola, tucano-cachorrinho, urutu-cruzeiro e muitíssimas mais denominações de bichos a que ao nome indígena original acrescentou-se uma achega portuguesa. Em sapo-cururu e tartaruga-aruanã,o tupi foi para o final. Em marimbondo-mangangá, o quimbundo africano ficou na frente. Mas em tucano-pacova e tuiú-mirim só deu tupi – e esta abelha ainda tem outro nome indígena, iraí.

Os primeiros lusos a palmilhar o território do Brasil tomaram os animais em comparação com os que conheciam de outras terras ou deram aos locais nomes dos que lá existiam, a exemplo do papagaio, de que Pedro Álvares Cabral tinha um espécime de estimação na nau capitânia. Quando viram o ajeru, os índios “acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali”, segundo o relato de Pero Vaz de Caminha. O escrivão, embora mais atento na flora (errou ao achar que mandioca era inhame), ainda citou outras aves, a exemplo de rolas e pombas-seixas, e camarões, a que os índios chamavam poti.

Os relatos de naturalistas, a começar do Padre José de Anchieta e sua Carta de São Vicente, de 1560, contribuíram para substituir uma e outra designação do tupi por palavras portuguesas, pois se esforçavam para comparar os bichos com seus conhecidos do Velho Mundo. Às vezes recorriam a analogias, como chamar a cobra de cascavel por causa do guizo que ela tem no rabo, porque a palavra originária do provençal definia um chocalho. O padre Antônio Vieira, no Sermão da epifania, refere-se ao um incerto porco-montês, que em rigor é o javali, inexistente em nossa fauna, e talvez fosse o caititu. Mas a força e tradição da taxonomia indígena prevaleceram para designar a esmagadora maioria das estimadas 116 mil espécies da fauna do Brasil.

A que talvez seja a menor delas, coisinha de 1 mm, apesar de chamada carrapato-estrela, é um ácaro que causa terrível coceira testicular com o nome de tupi de mucuim (Amblyomma cajennense). A maior das espécies, a anta (300 kg, 2,5m), ficou mais conhecida pelo nome vindo do árabe, lamta, uma espécie de antílope, mas a denominação tupi tapir se impôs ao mundo e passou ao alemão, espanhol, francês, inglês, línguas escandinavas e até ao javanês (tapir) e italiano (tapiro), e ainda entrou no nome científico do animal, Tapirus terrestres. O nome árabe aportuguesado foi usado até pela corrente nacionalista do Modernismo (Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia), agrupada no Movimento Verde-Amarelo, que, apesar de exaltar os indígenas e o tupi como garantes da identidade nacional, fundaram o Grupo da Anta, ignorando tapir. As sátiras de Oswald de Andrade ao grupo teriam dado origem à lenda de que a anta é um animal estúpido.

Muitos nomes trocados pelos portugueses prevaleceram como exceções, aqui citadas em poucos exemplos: abutre (urubu), beija-flor e colibri (guanambi), cachorro-do-mato (graxaim), cachorrovinagre (janauí), cágado (jabuti), caranguejo (uaçá), carrapato-pólvora (mucuim), cascavel (boiquira, boicininga), cervo-do-pantanal (suaçuetê), cobaia ou porquinho-da-índia ou preá-da-índia (preá), cobra (boia), cobra-topete (surucucu), gaivota (atiati), gato-do-mato (maracajá), gavião-real ou harpia (acangoera, uiraçu), gaviãotesoura (tapema), lontra (jaguacacaca), onça-d´água (ariranha), peixe-boi ou lamantin (guaraguá), ema (nandu), pomba (picaçu), papa-mel (irara), papagaio (ajeru), pato (ipeca), pernilongo (carapanã), porco do mato (caititu, que deu cateto), porco-espinho (coandu), ou preguiça (, aígue), queixada (sabacu, tacuité, taguicati, taiaçu, tajaçu, tanhaçu, tanhocati), vagalume (uauá), veado (suaçu), vespa (caba). E ainda registre-se que o lobo-guará tem uma alcateia nominal só em português: lobo-de-crina, lobo-vermelho, lobo-de-juba.

As notas do real em circulação já imprimem essa substituição. A de R$ 1,00 leva a estampa do beija-flor, que em tupi é guanambi para as muitas espécies em voo. Na de R$ 2,00, aparece a tartaruga de pente (Eretmochelys imbricata), que os índios chamavam de iurucuá. Para a de R$ 5,00, ficou a garça-branca (Casmerodius albus), de origem obscura, que em tupi chamava guiratinga. Na de R$ 10,00, prevaleceu o nome indígena: arara (Ara chloroptera). Já na de R$ 20,00, mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), o saguipiranga, macaco vermelho. A garoupa da nota de R$ 100,00, nome de várias espécies do gênero Epinephelu, era piracuca para os índios.

Pulamos a cédula de R$ 50,00 porque a onça-pintada merece destaque como um caso de etimologia desconcertante. Onça é palavra de origem francesa (once < latim °lyncea < lynx) que tomou o lugar da tupi jaguar – mas apenas no Brasil. Como ocorreu com anta, exportamos o termo autóctone que nomeia majestosa espécie de nossa fauna e importamos um estrangeiro para substituí-lo. Só que são animais diferentes. A confusão começou com os portugueses que chamaram os felinos do Brasil de linces, leopardos, panteras e tigres, animais que conheciam de outras colônias. Em Portugal havia um lince, Felis Pardina, também de couro pintado.

A substituição de jaguar por onça já começou na Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil do padre Anchieta, para uso na conversão do gentio, manuscrita em 1555 e publicada em Coimbra em 1595: “Pedro jagoára ojucâ, Pedro matou a onça.” Na Carta de São Vicente, no entanto, Anchieta chamou o jaguar de panterae estava certo antes da palavra, pois pantera veio a designar o gênero de felinos de grande porte que inclui o jaguar (Panthera onca), o leão (Panthera leo), o tigre (Panthera tigris) e o leopardo (Panthera pardus) e ainda dá nome aos leopardos melânicos (Panthera pardus melas). Fernão Cardim, nos Tratados da terra e da gente do Brasil, se refere ao bicho “muito cruel, e feroz” como “onças, umas pretas, outras pardas, outras pintadas…” – já se verificando as distinções que ficariam consagradas.

Se no Brasil jaguar é onça, no francês é jaguar. Lá onça é uma pantera do Oriente, tal como registra o dicionário Robert: “Onça – Grande felino selvagem do Himalaia…” E a espécie brasileira? “Jaguar – Grande mamífero carnívoro da América do Sul.” Georges-Louis de Buffon, em Histoire naturelle, de 1868, é explícito ao definir jaguar: “Nome de um animal do Brasil que adotamos para o distinguir do tigre, da pantera, da onça e do leopardo”. Ou seja, jaguar (Panthera onca) e onça (Panthera uncia) são espécies diferentes, e esta é o leopardo-das-neves. A espécie parda (Felis concolor), suçuarana em tupi, também é chamada de leão-baio, onça-parda, onça-vermelha e pelo espanholismo < quéchua puma.

Além de onça, a influência léxica francesa no português do Brasil foi tão grande que incluiu colibri para o beija-flor, lamantino, para o peixe-boi que os índios chamavam de guarabá e os jesuítas de boi marinho, e ocelote para a jaguatirica. Nada de espanto, pois até fauna (faune) e flora (flore) vieram do francês. Se exportamos selva (selve), importamos floresta de forêt < forest.

Os portugueses só não tiveram engenho e arte para renomear um fabuloso monstro que os índios diziam emergir do mar em busca de presas vivas – para beber-lhes o sangue e comer-lhes as vísceras. Talvez seja, ao lado da do boitatá, a primeira lenda brasileira, divulgada com tintas de veracidade pelo cronista-naturalista Pero de Magalhães Gandavo no Tratado da terra do Brasil (a1573), a partir da façanha de um certo Baltasar que em 1564 teria abatido um de 15 palmos com sua espada e o exibido ao público na vila de São Vicente. Tiveram de se contentar com nome dado pelos índios, ipupiara, de dentro da água.

A estampa do imaginário ipupiara iria bem numa nota falsa de três reais.

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