Mobilização e mídia além do vinagre

vinagre

Ilustração de Kiko Dinucci, retirada do site tarifazero.org.

Cobertura jornalística independente e colaborativa em São Paulo abre espaço político de debate e articulação sobre manifestações e seus rumos 

Por Bruna Bernacchio

Como jornalista cidadã, participei ontem de um experimento digno de relato. Às 7h30 da manhã, na sala de estar de uma casa, um grupo de oito pessoas que não se conheciam totalmente se formou para acompanhar as manifestações que naquele momento aconteciam em três pontos da cidade, ao mesmo tempo em que debatia sobre o sistema de transporte público, principalmente no que diz respeito à licitações de empresas. Foi mais um programa da Rádio Além do Vinagre.

Da rua, Caio, ativista autônomo, e Natália, porta voz do MTST e do Periferia Ativa, contavam que manifestantes, no Campo Limpo, no Capão e em Guaianases, ao todo alguns milhares de pessoas, fechavam a rua gritando pela tarifa zero e pelo fim à violência policial, entre outras reivindicações. Os movimentos sociais estiveram ontem também em reunião com Geraldo Alckmin, e mais tarde, com Dilma Rousseff, onde colocaram suas exigências.

A caixa-preta do transporte

Enquanto isso, ali na base, Daniela Mattern, do 100 Metas para São Paulo, falava sobre o edital bilionário de concessões do serviço do transporte público de São Paulo, que fechará contratos de 46,3 bilhões para um período de 15 anos. Procurando entender o processo de negociação e a política que há por trás desse sistema de transporte municipal, Daniela, Patricia Cornills, do Transparência Hacker, seus coletivos e outros cidadãos, estão investigando, decifrando e hackeando as informações disponíveis.

“O que o MPL (Movimento Passe Livre) coloca é muito interessante” – diz Patricia- “Exigimos Tarifa Zero. Não é possível? Por quê?”. E aí começam os questionamentos: Quanto custa de fato o transporte? Como esses recursos são administrados? Como é a relação entre empresa e governo nesse processo? Qual é o critério de seleção das empresas concessionadas? Quem fiscaliza a qualidade do serviço? Como se organizam as linhas? E qual é a política que há por trás disso?

A linguagem é extremamente técnica e, segundo elas, há uma série de perguntas que ainda não podem ser respondidas integralmente. Além disso, são poucas as planilhas que estão realmente abertas. Há alguns dias, foi solicitada uma série de dados para a Secretaria de Transportes através da Lei de Acesso à Informação, mas ainda sem retorno. Mesmo assim, o grupo já têm algumas pistas. Devem publicá-las de maneira sistematizada em breve (amanhã, um infográfico na página do Transparência Hacker). E correm contra o tempo.

O edital está aberto para consulta pública – ou seja, para análise e sugestões pela população – até dia 3/07, sendo que foi aberto no dia 13/06. Período insignificante para a leitura e compreensão de um documento de quase 800MB. E por isso um abaixo-assinado exige que o prefeito Fernando Haddad suspenda as licitações, pela falha de representatividade e transparência que ele possui. E diz: “nós queremos participar!”.

Também participaram do papo na Rádio Além do Vinagre o urbanista João Withaker, que retomou o debate do transporte como direito (a mais um passo de se tornar realidade, depois de sessão na Câmara ontem), e o vereador Ricardo Young, que recentemente abriu junto Nabil Bonduki e outros vereadores uma CPI do Transporte, no mesmo esforço de investigar os atores que compõem esse obscuro sistema de transporte. Young assinalou a importância da sociedade pressionar para que a CPI “não acabe em pizza” – porque, de outro lado, a pressão para isso será grande – e prometeu publicar em seu blog todas as novidades à respeito.

A Rádio Além do Vinagre

Tudo começou despretensiosamente na segunda-feira 17J, o dia de auge em São Paulo. Enquanto centenas de milhares de pessoas estavam nas ruas, Tulio Malaspina, da Escola de Ativismo, e Jonaya de Castro, do Lab Ninja e Ônibus Hacker, estavam “na base” – uma central de comunicação que conectava diversas “células de apoio”, que de forma independente mas organizada circulavam na multidão – a mais importantes de todas, com médicos que faziam os primeiros socorros, e também pessoas atuando com comunicação e pacificação – para orientar a multidão em caso de conflito com a polícia.

Uma transmissão ao vivo seria feita por Filipe Peçanha, do NINJA e Fora do Eixo, através da – não-novata – #postv, mas não conseguiu por problemas com o 3G. Então, sem planejamento algum, Tulio e Jonaya começaram a transmitir ao vivo esse processo de bastidores, que acabou tomando proporções inesperadas: cerca de 25 mil visualizações durante a noite. Simplesmente porque não havia mais nenhuma outra transmissão ao vivo digital – e as pessoas insatisfeitas com a TV, estavam nas redes sociais à procura de fontes. Ironicamente, em certo momento, o grupo espontâneo passou a reproduzir também as imagens panorâmicas de uma tal de Rede Globo, que descobriu e bloqueou o canal do youtube que utilizavam.

Depois do sucesso, não podiam mais parar. Era uma missão de mídia livre. As emissoras dos helicópteros não estavam próximas do movimento. Era necessário realizar um trabalho com olhar popular, análise crítica e em tempo real. E foi assim que a rádio e a página “Além do Vinagre” se concretizou como cobertura livre das manifestações no Brasil. Uma possibilidade que de repente se abriu.

Em meio a um ambiente de insatisfação geral com a grande mídia e a realidade por ela passada, novas iniciativas e possibilidades de informação e conhecimento se tornam importantes, ou melhor, essenciais. E o novo começa a se formar em outra lógica. Pessoas que fazem parte sim de grupos e organizações, mas que podem, em uma ocasião específica e pontual, ou a todo momento, sem nenhuma ordem específica, se juntar com outras pessoas, que também podem ou não atuar em outro grupo. Experiências dentro de um contexto, mais amplo, de transformação.

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Um comentario para "Mobilização e mídia além do vinagre"

  1. maria disse:

    Vocês tem certeza de que o Ricardo Young é digno de confiança? Ele não está simplesmente agindo no interesse da Blablarina (que age no interesse de empresários milionários como ele)?

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