Sem desculpas para o estupro romantizado

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Nenhum tema deve ser censurado. Mas versão da Globo para “Ligações Perigosas” altera um romance do século XVIII apenas para naturalizar violência e reafirmar cultura machista

Por Melissa Suárez

“Mas qual é a moral da história?” foi a pergunta sincera de um aluno atônito quando terminei de ler o conto TCHAU de Lygia Bojunga Nunes para a classe.

Confesso que não estava preparada para a pergunta, havia escolhido aquele conto não só para trabalhar o gosto pela literatura, mas principalmente para fazê-los entender, pelo choque, que o título de um texto se relaciona com a história e com o seu final.

O choque se dá porque a história traz uma mãe que abandona os filhos para morar com o amante estrangeiro mesmo com a filha pequena se agarrando na mala para a mãe não ir.

TEXTO-MEIO

Eu tive que pensar para responder. E enquanto elaborava uma explicação, passava pela minha cabeça “Jura que você chegou no 9º ano achando que toda ficção tem que ter ou um final bonitinho ou uma moral?”

Minha resposta foi que a literatura e a arte abordam o que existe. “Existe mãe que abandona os filhos?” A classe assentiu. “Então…” Eu não encontrei uma explicação didática para o porquê de a arte representar o que existe. E ninguém perguntou.

Não devo ser a única que penso assim já que, recentemente, o Edital do concurso literário do Sesc de Brasília causou revolta por ter a exigência “Os contos devem conter elementos que promovam o bem-estar e os valores morais” O que soava como censura prévia.

Mas o que toda esta longa introdução tem a ver com a série “Ligações Perigosas” da rede Globo?

Estando na leitura do livro apenas um pouco mais avançada que o enredo da série, não fui, inicialmente, contra a cena de estupro apresentada. Afinal, está no livro.

Cheguei, inclusive, a defendê-la nos comentários do instagram do ator Selton Mello, definindo arte como catarse. Defendia que era bom as pessoas se chocarem.

Tive uma forte interlocutora neste debate. Ela afirmava que a Globo fazia um desserviço ao mostrar o estupro e estava incentivando milhões de homens a estuprarem mulheres. Respondi que não precisava incentivar, já que os homens faziam isso há séculos. Retomei a arte como catarse, gerando polêmica para provocar discussões.

Na verdade, minha interlocutora se referia à cultura do estupro, a qual amplamente disseminada, apenas incentiva que a prática da violência contra a mulher continue, por dar todo um suporte ideológico. E eu sabia disso.

Mas, na minha ingenuidade, esperava ansiosa pela sequência das cenas após a violência sexual. Esperava por aquilo que não expliquei a meus alunos e expliquei mal a minha interlocutora de comentários de instagram: a arte que educa pelo choque, a polêmica que traz a discussão. Afinal eu já sabia a sequência original do que acontecia com Cécile, (Cecília, na série) após ser vítima de ato tão abominável.

Primeiro, deixemos claro, como o romance é baseado em cartas, o leitor sabe do estupro através da descrição de Valmont (Augusto, na série). Por isso cabe uma descrição sutil e prazerosa do ato, verossimilhante com certas mentalidades masculinas e completamente coerente com a personagem Augusto/Valmont.

O livro descreve, no dia seguinte, uma Cécile (Cecília) que amanhece pálida — por chorar a noite toda — não encara seu agressor ao vê-lo na mesa do café, tem uma crise nervosa que assusta todas as pessoas da casa. Escreve à Marquesa de Merteuil (Isabel, na série) contando a sua desgraca, e, principalmente tranca a porta do quarto para que Valmont não entre no dia seguinte. Valmont se irrita horrores e chama essa vergonha “tardia” de infantilidade.

A Marquesa responde a Cécile de forma bastante irônica e cruel:

“Então, menina, cá está você muito aborrecida e envergonhada! E esse Sr. de Valmont é mesmo um homem mau, não é? Como! Ousa tratá-la como a mulher que ele mais ama! Ensina-lhe o que você morria de vontade de saber! Tais atitudes [da Cecile] são, na verdade, imperdoáveis.” (grifo meu) LACLOS, Choderlos de. As relações perigosas (Les Liaisons dangereuses). Tradução de Dorothée de Bruchard. 1ª ed. São Paulo: Penguin, 2012. p 296.

Está aí o que eu queria ver. Queria ver como a série iria retratar uma menina, que com o agravante de não saber nada da vida, é levada por Isabel/Marquesa e Augusto/Valmont a naturalizar a violência sofrida.

Eu queria ver retratada na série esta culpabilização da vítima, ou seja, quando a vítima é convencida de que foi responsável pela violência sofrida, por atraí-la ou de alguma forma provocá-la. Ou ainda, quando a vítima é convencida de que teria meios de se defender se quisesse.

Pedófilos, estupradores, abusadores de um modo geral usam constantemente de frases como “Eu sei que você está achando bom”, ou “Vou te mostrar como é gostoso” ditas durante o abuso para as suas vítimas. Não li o suficiente para saber se é para autojustificar o ato ou se já é o começo do abuso psicológico, ou talvez as duas coisas. Pesquisas em psicologia e psicanálise mostram que a relativização ou a negação do acontecimento — quando a vítima consegue relatá-lo — trazem fortes danos psicológicos, às vezes até maiores, que os danos da violência sexual em si.

Eu não sei se espero muito da dramaturgia brasileira, ou se reconheço uma grande oportunidade desperdiçada, mas a questão é que, para minha grande decepção, o capítulo que recomeçava a trama logo após o estupro de Cecília (sexta- cap 5) trouxe uma Isabel doce, apenas com a sequência posterior à descrita do livro, quando ensina a Cecília a hipocrisia vigente de ter um marido e poder ficar com mais quantos queira.

Para piorar, a única fala idêntica ao livro desta conversa é a de uma Cecília confusa que diz “Não sei como foi isso, é certo de que não amo o Sr. de Valmot, muito pelo contrário, mas havia momentos em que sentia como o amasse.” Idem p. 269

A única fala do livro inteiro que não deveria existir em nenhuma versão recente é justamente a fala que os roteiristas resolveram manter. Ora, convenhamos, uma mulher descrevendo que acha que talvez tenha gostado de um estupro só cabe em um romance do século XVIII escrito por um homem.

E assim, o que temos na série não é a oportunidade de discutir a culpabilização da vítima, e sim o completo contrário: a disseminação da cultura do estupro porque dá a entender — na cena do ato e na fala da personagem — que seja possível que uma mulher goste do sexo durante o estupro.

Parou por aqui? Não, piora.

Pois mesmo em um romance do século XVIII escrito por um homem, o processo de medo, vergonha e autopunição de Cecília durou mais que na série da Globo. Afinal, no mesmo capítulo 5, depois de quase nada de choro, sem nenhuma porta trancada, vemos uma Cecília feliz, rindo na cama com Augusto. Fiquei tão consternada com a sequência que se apresentou que voltei ao instagram e dei razão a minha interlocutora: a Globo fez um grande desserviço, romantizou o estupro etc. E escrevi alguns dos argumentos que aqui estão, entre eles o de que se a justificativa da cena é que a série é fiel ao livro, seja fiel em tudo. Se é adaptação, adapte-se tudo.

Não sou totalmente a favor da crítica “a Globo autocensura beijo gay, mas não se censura em cena de estupro”, porque pode levar à interpretação de que sempre há algo que deva ser censurado em ficção. Não se deve censurar nada, pela censura em si. Continuo defendendo que arte pode ser catarse (se é que tem arte na Globo). O problema não foi exibir a cena de estupro, o problema foi a forma como foi exibida e, se talvez desse para tentar engolir a a forma romantizada, a sequência posterior matou qualquer possibilidade de justificativa à escolha dos roteiristas e diretores de “Ligações Perigosas.”

A Globo tinha três opções para não ajudar a disseminar a cultura da violência sexual contra a mulher, sem precisar censurar a cena do estupro em si.

1 – Deixar a cena como foi, com o joguinho do Augusto com a Cecília e a história do beijo roubado ou dado, com ela ingenuamente imaginando que ele iria embora depois do beijo, mas sem a insinuação cênica de que ela estava envolvida nesse beijo. E, principalmente, seguir o livro na sequência que se deu. Cecília chorando o dia inteiro no dia seguinte, trancando a porta para Augusto não entrar na outra noite. Augusto colérico porque ela trancou a porta, achando um absurdo. Uma Isabel fazendo a lavagem cerebral na menina para ajudar que ela passe a aceitar Augusto em sua cama.

2 – Deixar a cena como foi, romantizada e tudo, mas como uma lembrança contada por Augusto, e, principalmente, seguir a sequência da Cecília chorando, trancando porta etc.

3 – Mais fácil: fazer uma sequência de sedução mesmo, com Cecília com vontade de saber o que é sexo, o que foi insinuado no quase beijo lésbico do 1º capítulo (que é uma grande liberdade em relação ao livro). A sedução de Cecília é, inclusive, o que os telespectadores estavam esperando, e a solução em relação ao possível argumento de que não haveria tempo em uma série de só 10 capítulos para a sequência fiel ao livro.

Não devemos mesmo descarregar nossas frustrações em redes sociais, pois escrevi no instagram do Selton Mello, algo bem desrespeitoso: “Desliguem a TV e vão ler o livro!”. Bem nos comentários da postagem em que havia toda uma descrição da história do livro, de como esta história sempre foi polêmica e de como era interessante o quanto esta trama centenária ainda causa comoção nas pessoas. Defendendo, por fim, que os clássicos devem ser sempre revisitados.

Engraçado, é tudo que eu defendo: Vamos revisitar os clássicos! Globo, faça isso direito.

Como tive a honra de ter todos os meus comentários críticos apagados do instagram do ator — e fui a primeira! — antes de apagarem os comentários da minha interlocutora e das pessoas que ou concordavam comigo ou discordavam de mim, não pude escrever a minha desculpa que reproduzo aqui:

“Foi chocante e bem chato mandar as pessoas desligarem a TV e lerem o livro bem aqui no instagram do Selton, desculpa, é falta de respeito com ele e outros atores. Faço a ressalva: desliguem a TV, leiam o livro, vão ao cinema! Faz tempo que os roteiros da Globo têm atrapalhado os atores (O que foi o Selton ter que dizer 4 vezes “Vai ser muito prazeroso levar Cecília para a cama” no mesmo capítulo? As pessoas já entenderam de primeira a pretensão do personagem). Eu só paro para ver a Globo para ver as séries de janeiro. Faz mais de 10 anos que eu não vejo novela. Os diálogos das novelas me irritam. Única exceção feita à “Lado a lado” que tinha um enredo excelente e não infantilizava o telespectador. Como hoje tudo está no Youtube, procurem lá para quem não assistiu e vejam uma Marjorie Estiano, também em uma história de época, em outro nível de excelência.”

Fica para uma próxima a discussão de como a sequência toda da Mariana, desde o 1º capítulo é mal feita. E ainda, que é uma pena retratarem a Isabel como alguém de índole má, sendo que a Marquesa de Merteuil é bem mais complexa que isso: em uma sociedade que subjuga as mulheres, ela quer liberdade. E julga que faz apenas o necessário para não se submeter, como as outras mulheres, a uma vida escolhida pelos outros. Mas fica claro que o roteiro atrapalhou bem mais a Marjorie Estiano que a Patrícia Pillar.

Por outro lado, a responsabilidade é sempre só de roteiristas e direção?

O ator Selton Mello que se dedica principalmente ao cinema, que estava há quatro anos afastado de uma produção da Globo, que recebe muita propostas e recusa outras tantas… de todos os roteiros que ele poderia ter escolhido, escolheu justo esse?

Em entrevistas, Selton Mello tem constantemente elogiado o roteiro da série Ligações Perigosas e diz ter se apaixonado por fazer Augusto/Valmont, por ser um personagem clássico e cheio de nuances. Confirmou isso em entrevista ao Serginho Groisman no Altas Horas do último dia 9, quando a polêmica da cena de estupro ainda estava quente.

Realmente, para os atores, a série “Ligações Perigosas” deve ter sido um desafio interpretativo e tanto, um excelente meio de desenvolver a técnica. Mas e nas consequências do roteiro, ninguém pensa? O raciocínio de se envolver em algo pelo desafio profissional sem pensar no todo é perigoso. Levou, por exemplo, à construção da bomba atômica. Tentar isolar o átomo era tarefa tão fascinante que os cientistas se esqueceram qual seria o objetivo final do trabalho.

Dentre a polêmica na cena de estupro nas redes sociais, o site Bolsa de Mulher perguntou aos internautas o que achavam, primeiro com a frase “Cena de estupro foi violenta ou normal?” (estamos mal, muito mal) que depois foi reescrita.

O texto do blog resume os resultados da enquete “A cena dividiu opiniões. Se por um lado há quem acredite que a cena faz parte da trama e a interferência na dramaturgia é um insulto ao conteúdo artístico, por outro existem pessoas que acreditam se tratar da romantização de uma grave violência contra a mulher.” (mantive o grifo)

Espero, com minha longuíssima exposição, ter desconstruído o argumento sobre o “insulto ao conteúdo artístico”, já que a arte aqui passou longe.

Nessa vibe de “Vamos revisitar os clássicos”, o blog Bolsa de Mulher termina seu texto “lembrando” que a série da Globo é baseada no livro e que a cena de estupro também está no filme clássico de 1988, com Uma Thurman e John Malkovich. A pessoa atenta que resolver rever o filme “Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, 1988) verá uma cena de estupro? Sim. Mas verá um estupro romantizado? Não! Verá uma Cécile transtornada no dia seguinte e trancando porta para Valmont? Sim! Verá uma Marquesa de Merteuil jogando a culpa do estupro em cima da Cécile? Sim! (para quem estiver curioso e sem tempo, esta sequência se dá depois de 47 minutos de filme)

E, apesar de estarmos em 1988, quando as questões feministas não estavam em tão efervescente debate (mesmo nos EUA), os roteiristas tiveram o cuidado de não colocar, na boca de Cécile, a frase “Eu não amo sr. Valmont, mas em alguns momentos era como se amasse.”

Selton Mello contou mais de uma vez em entrevistas que a equipe da série optou por não assistir às adaptações anteriores de Relações Perigosas. Deveriam ter assistido.

Para quem ainda tiver fôlego, reproduzo abaixo, na íntegra o diálogo do filme entre Cécile e Marquesa de Merteuil sobre o estupro:

Merteuil – Diga-me, você resistiu, não?

Cécile – Claro que sim… tanto quanto pude.

Merteuil – Ele a forçou?

Cécile – Não… não exatamente… Mas foi impossível defender-me.

Merteuil – Por quê? Ele a amarrou?

Cécile – Não… é o modo como ele coloca as questões. Fica-se sem resposta.

Merteuil – Nem mesmo “não”?

Cécile  Falei “não” o tempo todo… Mas, de algum modo, não era o que eu fazia. Sinto tanta vergonha.

Merteuil – A “vergonha” é como a “dor”. Só se sente uma vez…. Quer realmente o meu conselho? Deixe que o sr. Valmont continue a sua educação.

TEXTO-FIM
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Melissa Suárez

Melissa Suárez é ninguém. Vive de tentativas. Tentou ser professora. Tenta ser escritora. Já sofreu abuso sexual, apesar de nunca ter sido bonita (apenas como 8 em cada 10 mulheres). E, para quem interessar possa, é formada em Letras pela USP.

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