O ano em que encaramos a ditadura do automóvel

Foi em 2015 que explodiu a busca de alternativas às cidades segregadas e dominadas por shoppings, condomínios e transporte individual

Por Raquel Rolnik, em seu blog

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Foi em 2015 que explodiu a busca de alternativas às cidades segregadas e dominadas por shoppings, condomínios e transporte individual. Nada será como antes, a partir de agora  

Por Raquel Rolnik, em seu blog

Para a política urbana de São Paulo, 2015 foi um ano importante. Durante este ano, agendas e pautas que já vinham emergindo há alguns anos, e que explodiram com veemência nas chamadas Jornadas de Junho de 2013, ampliaram de forma considerável sua presença na cidade: refiro-me principalmente à retomada e valorização do espaço público e a mudanças importantes no campo da mobilidade.verdadeiros

Para entender a dimensão dessas políticas, é importante lembrar que a partir dos anos 1990 um ajuste fiscal semelhante ao de hoje mergulhou a cidade numa verdadeira epidemia de abandono dos espaços públicos e disseminação de novos produtos imobiliários que podemos chamar de “enclaves fortificados”. No lugar do bairro, das casas e do prédio residencial, os condomínios fechados. No lugar das ruas comerciais, os shopping centers.

Sob a justificativa da insegurança e do medo, até as pequenas vilas existentes na cidade se fecharam. Esse modelo corresponde perfeitamente à lógica de cidade que prioriza o automóvel particular como meio de transporte: você sai de uma garagem para chegar a um estacionamento, sem contato direto algum com o meio externo, ou seja, a rua.

Na prática, porém, isso só aumentou a segregação territorial e, claro, a insegurança. Muros imensos, ruas vazias, espaços públicos abandonados, vias tomadas prioritariamente por automóveis particulares… a bola de neve foi crescendo.

O que estamos vivendo hoje é uma tentativa de reverter essa história. De um lado, com a revindicação e/ou retomada de espaços públicos por indivíduos, grupos e coletivos os mais diversos, com a apropriação de parques, praças, calçadas e outros espaços para as mais diversas atividades, mostrando que há um desejo de estar na rua e não apenas de passar por ela.

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De outro lado, o das políticas públicas, vimos a priorização do ônibus e das bicicletas com a implementação de vias exclusivas, ciclovias e, finalmente, o encontro destas duas agendas, com a abertura da Avenida Paulista para o lazer das pessoas aos domingos e total fechamento para carros.

Nada mais emblemático que o embate que a abertura da Paulista gerou com alguns setores da sociedade, especialmente com o Ministério Público, que se posicionou contra a medida: será que a era do Rei Automóvel na cidade está chegando ao fim?

O apoio – e adesão – da maior parte da população a estas medidas (inclusive da classe média) mostra que os cidadãos não aguentam mais viver sob o modelo da segregação, escondidos atrás de muros de condomínios e vidros de carros, pretensamente protegidos da violência. Muitas pessoas desejam outro modo de vida, em que seja possível se deslocar de transporte público, a pé ou de bicicleta, com segurança e conforto;,morar em áreas centrais, ter acesso a áreas verdes e de lazer… Isso é nítido, por exemplo, nas discussões que envolvem o futuro da área do Parque Augusta e do Minhocão.

E não se trata de um movimento exclusivo de São Paulo. Em várias outras cidades do país, encontramos discussões e mobilizações semelhantes. Por exemplo, no Recife, onde o Movimento Ocupe Estelita termina o ano com uma grande vitória: a decisão judicial que anulou o leilão de uma antiga área pública, o Cais José Estelita, de cerca de 100 mil metros quadrados, no centro histórico da cidade, e que estava prestes a receber um megaempreendimento imobiliário de luxo, com 13 torres de cerca de 40 andares.

Evidentemente, os desafios que temos para reinventar uma cidade que propicie a livre circulação de todos – isto é, transporte público abundante e eficiente, de qualidade e acessível –, e onde a qualidade, manutenção e generosa oferta de espaços e equipamentos públicos sejam seu elemento estruturador (não é sobre isso também que os estudantes do ensino médio em São Paulo estão falando em seu movimento?) ainda são enormes. Mas 2015 mostra que, talvez, quem sabe, estejamos vivendo o começo do fim do velho modelo rodoviarista e segregador…

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