Desesconder o Ministério da Cultura

 

Janeiro de 2011: O ministro Gilberto Gil aplaude seu sucessor, Juca Ferreira, empossado por Lula

Janeiro de 2011: O ministro Gilberto Gil aplaude seu sucessor, Juca Ferreira, empossado por Lula

Precisamos resgatar o MinC que dialogava com juventude crítica, lançava políticas de enorme repercussão internacional e contribuía com radicalização da democracia

Por Marcus Faustini* | Imagem Coletivo Teatral Sala Preta

“Fazer políticas culturais é fazer cultura”, afirmou o então Ministro da Cultura (MinC), Gilberto Gil, por volta de 2004/5. Mais do que bom frasismo, capaz de promover síntese, esse ponto de vista nos coloca diante de um amálgama, de constante reconfiguração na fundição desse metal chamado cultura, que inventa um lugar preciso — ainda não superado — para o MinC no jogo político e simbólico. Coloca a tarefa objetiva de uma instância governamental para além de dirigismo ou da procrastinação. Nada de um saudosismo por aqui, nem resgate ingênuo que não observa contradições. O fato é que perdemos essa postura, posicionamento e performance do ministério nos últimos anos. Serei direto, então, no recado desta semana.

Hoje, do jeito que está, se desfaz a perigosa fronteira que coloca o MinC no clássico lugar da fácil fala de “guardião de uma identidade nacional popular”, apenas para cumprir encenações de protocolo sem de fato fomentar a potência da diversidade dessas identidades em movimento, sucumbindo a sua atuação a programas fragmentados e ensimesmados. Uma falta de coragem em assumir o debate e as ações de um projeto de atualização do sentido da cultura que acaba contribuindo para a autoperpetuação das conhecidas formas e relações cambiantes em nosso país, que mantém a deliberada distinção, através de hierarquia, entre produção material da cultura versus produção imaterial. Sabemos muito bem que esse lugar difuso ao qual retornamos não diminui desigualdades regionais e não garante diversidade de imaginário e do protagonismo na produção e acesso. O MinC precisa voltar a ser um animador dos direitos culturais e de uma ecologia de formas de produção e acesso para o desenvolvimento. Não pode apenas estar resignado num lugar de regulador ordinário de práticas econômicas da cultura que possam se viabilizar como mercado, tratando o vasto campo em ebulição apenas com ações reparadoras, que restringem a ideia de diversidade como uma “exceção cultural” — pensamento já superado até pelos grandes organismos internacionais dos direitos culturais.

Já tive a oportunidade de apontar aqui na coluna e em outros artigos que parte considerável da falta de conexão com os movimentos de junho, sobretudo com as novas formas de expressão e organização da juventude que estava lá, vem desse controle e esvaziamento das políticas culturais do Ministério da Cultura que estabeleciam possíveis diálogos e ambientes de ação comum com grupos e ações culturais urbanas e rurais. Era a liga dessa nova geração com a institucionalidade. Uma brecha de contato, através das políticas capitaneadas por Gil e Juca Ferreira com suas inovadoras visões de cultura digital e dos pontos de cultura — uma ampla política pública que, além de disparar reconhecimentos represados historicamente, foi impulsionadora de formas de produção diversas e necessárias para a economia da cultura. É claro que os desafios institucionais e políticos foram grandes, como todo novo sistema de direitos e processos de produção carregam. O espanto é que esse momento de frescor que vivemos ali, reconhecido internacionalmente como eficaz contribuição para a radicalização da democracia, recebeu um forte freio de controle nos últimos quatro anos. Foram os ativistas culturais que mantiveram a causa e batalharam por ela no Congresso Nacional com ótimas estratégias de busca de aliados.

Um outro efeito, quase ainda não estudado, foi a forte influência positiva que aquele momento, aquele MinC, exerceu sobre municípios, gerando novas secretarias de cultura, departamentos e políticas para além das capitais.

O aprendizado que fica, mesmo nesse breve foco no assunto, é que uma instância de governo precisa ser um ator que inspira o debate, que age sobre as condições de produção. Se temos um ministério pouco catalisador, como guiar o desenvolvimento?

Falo isso tudo na condição de eleitor da Dilma, mesmo sem a alegria do voto, mas isso é assunto para o meu perfil nas redes sociais. Por ora, pego emprestado, com gosto dos Manuéis “Bandeira” e “de Barros”, o neologismo do então presidente Lula, que disse na mesma época que era preciso “desesconder a cultura”. Agora também é necessário desesconder o ministério.


*Publicado originalmente em O Globo, este texto é republicado em Outras Palavras com anuência do autor.

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O impacto de Poesia Pau-Brasil

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Em 1924, meses após publicação do manifesto de Oswald, Paulo Prado antevê: acabou tempo da “eloquência balofa”, de imitar Europa decadente. Exigimos “outros poetas, outros versos”

Por Paulo Prado | Imagem Tarsila do Amaral, Morro da Favela (1925)

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Contam que houve uma porção de enforcados

E as caveiras espetadas nos postes

Da fazenda desabitada

Miavam de noite

No vento do mato

Oswald de Andrade, Poemas da Colonização

 

Com esse artigo do Paulo Prado, “Poesia Pau-Brasil”, escrito em 1924, procuramos avançar no percurso modernista e no entendimento da obra de Oswald de Andrade.

Evidentemente que não estamos desenvolvendo um traçado em linha reta, mecanicamente cronológico. Não teríamos meios, nem essa é nossa intenção. No entanto, procuramos organizar, de algum modo, esse universo modernista no que ele possui de requintado e multifário.

Apenas dois exemplos. O texto do Oswald, “Informe sobre o Modernismo”, escrito em 1945, foi uma maneira de pensarmos a semana de 22 e o modernismo, assim como já havíamos feito com a publicação de um longo ensaio de Mário de Andrade [aqui] e [aqui].

E tem mais. Precisaremos abordar ainda o polêmico tema da antropofagia, assim como os demais trabalhos do escritor, os trabalhos e obras de outros modernistas, como o próprio Paulo Prado, Villa-Lobos, Flávio de Carvalho e Raul Bopp. Mas não é só isso: existem as vanguardas, a relação do modernismo com as diversas práticas culturais e o modernismo hoje. Vamos aos poucos.

No presente artigo, destaca-se claramente a sua função de um documento histórico da experiência modernista. Além disso, nele antevemos algumas preocupações que o seu autor desenvolveria, mais tarde, em “Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira”.

Escrito quando da publicação do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil“, de Oswald de Andrade, o texto de Paulo Prado traz como um dos grandes eixos de discussão, o “problema do nacionalismo”, naquilo que diz respeito à construção de um pensamento modernista.

Mas existe a outra volta do parafuso. Nesse sentido, em que pese o problema da mentalidade colonial, que atravessa, segundo Paulo Prado, a evolução da “vida intelectual do Brasil”, a perspectiva histórica, que ora vivenciamos, nos coloca diante de uma outra questão igualmente sensível.

Conforme observa Pascoal Farinaccio, em seu estudo sobre a crítica literária na obra oswaldiana, há um “núcleo basilar de nosso Modernismo”1 que assimilou a cobrança nacionalista como “critério de aferição do valor artístico das obras”2. E isso em alguma medida está presente no texto do Paulo Prado.

Há ainda o tema da ausência de uma produção de crítica modernista em discrepância com a sua produção artística. Evidentemente que esse é outro motivo para tornar esse texto ainda mais significativo.

Por último, vale prestar atenção na preocupação do seu autor quanto à renovação dos modos de expressão, aliado à permanência do “mal da eloquência balofa” em nossa literatura. Esses dois aspectos podem ser compreendidos no célebre aforismo de que os tempos modernos não cabiam mais na tessitura dos sonetos. Assim, no início do século XX, estamos diante do canto novo nietzschiano. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60″)

1 Farinaccio, Pascoal. Serafim Ponte Grande e as Dificuldades da Crítica Literária. São Paulo: Ateliê Editorial: FAPESP, 2001, p. 29.
2 Idem, p.29

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Poesia Pau-Brasil

A poesia “pau-brasil” é o ovo de Colombo – esse ovo, como dizia um inventor meu amigo, em que ninguém acreditava e acabou enriquecendo o genovês. Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier da Place Clichy – umbigo do mundo — descobriu, deslumbrado, a sua própria terra. A volta à pátria confirmou, no encantamento das descobertas manuelinas, a revelação surpreendente de que o Brasil existia. Esse fato, de que alguns já desconfiavam, abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo, inexplorado e misterioso. Estava criada a poesia “pau-brasil”.

Já tardava essa tentativa de renovar os modos de expressão e fontes inspiradoras do sentimento poético brasileiro, há mais de um século soterrado sob o peso livresco das ideias de importação. Um dos aspectos curiosos da vida intelectual do Brasil é esse da literatura propriamente dita ter evoluído acompanhando de longe os grandes movimentos da arte e do pensamento europeus, enquanto a poesia se imobilizou no tomismo dos modelos clássicos e românticos, repetindo com enfadonha monotonia as mesmas rimas, metáforas, ritmos e alegorias. Veio-lhe sobretudo o retardo no crescimento do mal romântico que, ao nascer da nossa nacionalidade, infeccionou tão profundamente a tudo e a todos. Com a partida para fora da colônia do lenço de alcobaça e da caixa de rapé de D. João VI, emigraram por largo tempo deste país o bom senso terra-a-terra e a visão clara e burguesa das coisas e dos homens.

Em política o chamado “grito do Ipiranga” inaugurou a deformação da realidade de que ainda não nos libertamos e nos faz viver num como sonho de que só nos acordará alguma catástrofe benfeitora. Em literatura, nenhuma outra influência poderia ser mais deletéria para o espírito nacional. Desde o aparecimento dos Suspiros poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, que os nossos poetas e escritores, até os claros dias de hoje, têm bebido inspirações no crânio humano cheio de bourgogne com que se embebedava Childe Harold nas orgias de Newstead. O lirismo puro, simples e ingênuo, como um canto de pássaro, só o exprimiram talvez dois poetas quase desprezados – um, Casimiro de Abreu, relegado à admiração das melindrosas provincianas e caixeiros apaixonados; outro, Catulo Cearense, trovador sertanejo, que a mania literária já envenenou. Foram esses, melancólicos, desalinhados e sinceros, os dois únicos intérpretes do ritmo profundo e íntimo da Raça, como Ronsard e Musset na França, Moeriken e Uhland na Alemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra, e Whitman nos Estados Unidos. Os outros são lusitanos, franceses, espanhóis, ingleses e alemães, versificando numa língua estranha que é o português de Portugal, esbanjando talento e mesmo gênio num desperdício lamentável e nacional.

O verso clássico:

“Sur des pensers nouveaux, faisons des vers antiques” está também errado. Não só mudaram as ideias inspiradoras da poesia, como também os moldes em que ela se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridículo. Descrever com palavras laboriosamente extraídas dos clássicos portugueses e desentranhadas dos velhos dicionários, o pluralismo cinemático de nossa época, é um anacronismo chocante, como se encontrássemos num Ford um tricórnio sobre uma cabeça empoada, ou num torpedo a alta gravata de um dândi do tempo de Brummel. Outros tempos, outros poetas, outros versos. Como Nietzsche, todos exigimos que nos cantem um canto novo.

A poesia “pau-brasil” é, entre nós, o primeiro esforço organizado para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de nossos dias, já outros iniciaram, com escândalo e sucesso, a campanha de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensável para a existência de uma literatura nacional. Um período de construção criadora sucede agora às lutas da época de destruição revolucionária, das “palavras em liberdade”. Nessa evolução e com os característicos de suas individualidades, destacam-se os nomes já consagrados de Ronald de Carvalho, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, não falando nos rapazes do grupo paulista, modesto e heroico.

O manifesto de Oswald, porém, dizendo ao público o que muitos aqui sabem e praticam, tem o mérito de dar uma disciplina às tentativas esparsas e hesitantes. Poesia “pau-brasil”. Designação pitoresca, incisiva e caricatural, como foi a do confetismo e fauvismo para os neo-impressionistas da pintura, ou a do cubismo nestes últimos quinze anos. É um epíteto que nasce com todas as promessas de viabilidade.

A mais bela inspiração e a mais fecunda encontra a poesia “pau-brasil” na afirmação desse nacionalismo que deve romper os laços que nos amarram desde o nascimento à velha Europa, decadente e esgotada. Em nossa história já uma vez surgiu esse sentimento agressivo, nos tempos turbados da revolução de 93, quando “pau-brasil” era o jacobinismo dos Tiradentes de Floriano. Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão étnica e protetora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova língua brasileira, que será como esse “Amerenglish” que citava o Times referindo-se aos Estados Unidos. Será a reabilitação do nosso falar quotidiano, sermo plebeius que o pedantismo dos gramáticos tem querido eliminar da língua escrita.

Esperemos também que a poesia “pau-brasil” extermine de vez um dos grandes males da raça – o mal da eloquência balofa e roçagante. Nesta época apressada de rápidas realizações a tendência é toda para a expressão rude e nua da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e sintética.

“Le poète japonais
Essuie son couteau:
Cette fois l’éloquence est morte.”

diz o haicai japonês, na sua concisão lapidar. Grande dia esse para as letras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia. Interromper o balanço das belas frases sonoras e ocas, melopeia que nos aproxima, na sua primitividade, do canto erótico dos pássaros e dos insetos. Fugir também do dinamismo retumbante das modas em atraso que aqui aportam, como o futurismo italiano, doze anos depois do seu aparecimento, decrépitas e tresandando a naftalina. Nada mais nocivo para a livre expansão do pensamento meramente nacional do que a importação, como novidade, dessas fórmulas exóticas, que envelhecem e murcham num abrir e fechar de olhos, nos cafés literários e nos cabarés de Paris, Roma ou Berlim. Deus nos livre desse esnobismo rastacuérico, de todos os “ismos” parasitas das ideias novas, e sobretudo das duas inimigas do verdadeiro sentimento poético – a Literatura e a Filosofia. A nova poesia não será nem pintura, nem escultura, nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconsciente. Como uma planta.

O manifesto que Oswald de Andrade publica encontrará nos que leem (essa ínfima minoria) escárnio, indignação e mais que tudo – incompreensão. Nada mais natural e mais razoável: está certo. O grupo que se opõe a qualquer ideia nova, a qualquer mudança no ramerrão das opiniões correntes é sempre o mesmo: é o que vaiou o Hernani de Victor Hugo, o que condenou nos tribunais Flaubert e Baudelaire, é o que pateou Wagner, escarneceu de Mallarmé e injuriou Rimbaud. Foi esse espírito retrógrado que fechou o Salon oficial aos quadros de Cézanne, para o qual Millerand pede hoje as honras do Panthéon; foi inspirado por ele que se recusou uma praça de Paris para o Balzac de Rodin. É o grupo dos novos-ricos da Arte, dos empregados públicos da literatura, Acadêmicos de fardão, Gênios das províncias, Poetas do “Diário Oficial”. Esses defendem as suas posições, pertencem à maçonaria da Camaradagem, mais fechada que a da política; agarram-se às tábuas desconjuntadas das suas reputações: são os bonzos dos templos consagrados, os santos das capelinhas literárias. Outros, são a massa gregária dos que não compreendem, na inocência da sua curteza, ou no afastamento forçado das coisas do espírito. Destes falava Rémy de Gourmont quando se referia a “ceux qui ne comprennent pas”. Deixemo-los em paz, no seu contentamento obtuso de pedra bruta, ou de muro de taipa, inabalável e empoeirado.

Para o glu-glu desses perus de roda, só há duas respostas: ou a alegre combatividade dos moços, a verve dos entusiasmos triunfantes, ou para o ceticismo e o aquoibonismo dos já descrentes e cansados, o refúgio de que falava o mesmo Gourmont, no Silêncio das Torres (das Torres de marfim, como se dizia).

Maio, 1924.

Os Condenados: novo capítulo da trilogia de Oswald

140721_Edvard Munch, Separation

“Um demônio novo, pouco a pouco, ia tomando conta dele, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma permanecia nua, no pijama sobre a carne.”

Por Oswald de Andrade | Imagem Edvard Munch

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.
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Na sequência anterior, Jorge d’Alvelos, primo de Alma, volta ao Brasil. Artista ignorado, o escultor arma um atelier, seduzido pela mudança de ambiente. Fica horrorizado com artistas e críticos que conhece. Suas tendências para a escultura revelaram-se ainda no Amazonas. Alma resolve posar para Jorge. Ele a procura com força apaixonada. A jovem se retira. O aparecimento de Alma é um aviso de devastações e prazer. Fazem viagem a Barueri. Mauro Glade está no mesmo trem: combinaram de se encontrar. Alma não deixaria nunca de amar esse homem. Na pequena cidade, um ajuntamento colorido de feira. Mulheres mascaradas de gesso, prostitutas de São Paulo, famílias ingênuas, negras de trunfa. E o batuque guerreiro na sombra do samba: o tambor seco, igual, com o caracaxá e o ribombo longínquo do bombo. Era Pirapora. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60)

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Estava na lama da rua, indeciso de novo. Um sino feriu uma pancada forte e trêmula na torre enorme. Fez a volta do templo, recordando. Regressou ao hotel: o empregado encontrava-se de novo à porta.

– Temos um pedido para a noite…

– Quem é?

– Um casal.

Como ficasse sentado longamente, não tendo ânimo de ir ao quarto, onde cairia sem solução no drama que o dilacerava, o homem falou-lhe:

– O senhor veio cumprir promessa?

– É.

Jorge pensou em tomar informações a respeito de Mauro, talvez fosse conhecido ali, mas achou-se ridículo e perguntou quem era o senhor que tinha chegado.

– Fazendeiro em São Simão. Já no tempo da defunta D. Augusta, ele vinha visitar o Senhor Bom Jesus.

Uma vontade saudosa apertou-o. Por que não iria lá em cima ao colégio da meninice? Por que não se dissolveria no chamado das orações?

Do Brasil todo, corriam para ali, numa confiança secular, os pais, as mães, as mulheres salvas de maus transes, os homens que tinham tido dramas na vida. Vinham todos inundar a Sala das Graças de fotografias até o teto, rostos de cera, mãos, torsos, pinturas ingênuas de chagas.

A imagem das águas, o Senhor dadivoso, de grandes pálpebras erguidas sobre o fulgor de eternidade, inundava-os de socorros invisíveis. E ele? Como voltara até o santuário?

*-*-*-*-*

Tinham saído para fora, onde o samba dos homens se despedaçava sob o samba das estrelas. A lua dançava muito negra no espaço. E o rio, espumoso e noturno, dançava.

A uma esquina, um grupo de carnaval ia e vinha, com música e folhagens, festejando uma dúzia de homens alinhados, impassíveis, soberanos. Era a esmola de um baile perante um acampamento de morféticos. No auge da competição dos corpos rítmicos, os dançarinos convidavam os lázaros com gestos. Mas eles sorriam apenas, extáticos, envolvidos de xales, com sorrisos longínquos, onde se escarrava a saudade da carne roída dos narizes, das orelhas, dos olhos.

Depois foi o revolto fim e um grito dos mutilados lentos:

– Deus lhes pague!

Alma pediu a Jorge que a levasse à bacanal noturna do Barracão. Penetraram na quermesse de luz mortiça, espaçada, onde trovejava o ribombo do bombo. Subiram. Parecia um palácio de colunas infinitas, onde uma luzida mascarada de negros festejasse.

Súbito, diante deles, o anão de piche abriu círculo, dançou. Era uma metade lépida e preta, grudada com tenazes de mãos em ancas polpudas que vibravam. Sob o chapéu enterrado até a boca de dentes imensos, as pernas trabalhavam, batiam os pés básicos, enlameados e enormes em vaivéns de samba e de maxixe.

E o coral empolgante, religioso, gritava de toda parte, por cem peitos metálicos de fêmeas e de machos, num desfalecido estreitamento de ancas e de sexos.

*-*-*-*-*

Na hipnose lúbrica do quarto silencioso ele sentia-lhe o hálito, os beiços carnudos. Apertou-lhe o rosto com as duas mãos. Ela cerrou os olhos.

– Amas ainda…

– Amo-te!

– E por isso arrastas-me a uma viagem em que devias ser dele?

Ela então perguntou:

– Queixaste?… Foste tu o ladrão…

– Nasceste para mim.

– E provocas ainda o homem roubado…

– Matá-lo-ia.

– Serias capaz? – sussurrou ela, de olhos interrogativos, a boca descerrada.

– Matar?

– Matar.

Uniram-se. Embolaram-se no leito.

*-*-*-*-*

Jorge d’AIvelos ficara a um canto num tomborete.

O apartamento que havia tomado para ela, depois da prometida renúncia, era entre silêncios e barulhos longínquos de bondes, num primeiro andar da Rua Scuvero, no Cambuci. O quarto atravancava-se de vasos, craiões, flores e livros – recordações trazidas da Europa pelo artista.

Um enorme abat-jour de ouro descia exageradamente a luz, encerrada num círculo, sobre um tapete central.

À janela do estreito patamar aéreo para o jardim mal cuidado, uma cortina branca enquadrava a silhueta vermelha de Alma.

– E falaste-lhe…

– Que remédio…

Voltara-se, crescera sorrindo.

– Responderei então à carta de Roma.

– Ela te visitava?

– Como tu.

– Ia ao teu atelier?

– Como tu.

– Foi tua amante?

Ele baixou a cabeça. Ela disse:

– Responde! Eu volto ao meu amor.

– És digna dele!

– Cala-te, Jorge. Faz hoje um ano que nos encontramos.

Jorge recordou a tarde em que a vira no Correio, pela primeira vez, depois da longa separação.

– Oito horas! – prosseguiu ela, desmanchando os cabelos. E atirou-se num salto pesado de gata, ao leito.

De fora, de um quartel vizinho, vinham sons de corneta na noite de ressonância. Depois, foi um brum-brum-brum de tambores. E a corneta, mais clara, cortou insistentemente o silêncio.

– Ouves? – fez Jorge, de pé, num súbito carinho. – Esta noite de recordação permanecerá na nossa vida. Escuta como se recortam bem essas notas, como tocam profundamente esses tambores… tudo para ficar gravado.

E aproximando-se, convincente:

– Como me falam os teus olhos! Rodeia-os uma inquietação.

Houve um silêncio persuasivo.

– Deixarás de ser a boneca que foste! Vê como é triste ser uma boneca… Que foste até agora? A boneca maltratada dos que te formaram longe de mim; depois, a boneca dele, desse salafrário! E a tua consciência, que é a minha consciência, morta, apagada, inútil! Será preciso que leves a minha vida para acordar em ti a mulher que és?

Ela murmurou:

– A boneca morreu…

– Quando?

– Agora. Não ouviste o funeral de tambores?

– Alma! – gritou Jorge, querendo beijá-la toda.

E ficaram escutando a corneta que tocava, cheia, sonora, na noite de estrelas.

A fanfarra de quartel cessou num último tru-tru! tru-tru! de tambores. E no silêncio inesperado, a voz dele cresceu, alongou-se emocional.

– Fiz-te passar pela coisa mais bela da vida… – exclamou ela.

– Por que?

– Pela desgraça.

– Alma!

– Beija-me agora e vê como é bom.

– Que lindo teatro!

Riram ambos. Houve um silêncio jucundo. Jorge d’Alvelos buscou seu pijama de listras numa cadeira, entre vestidos atirados. E apertou o botão da luz, dizendo na escuridão ainda doirada:

– Representamos bem hoje. Toca para a frente o nosso carro de ciganos!

*-*-*-*-*

Carlos Bairão promovia uma excursão a Santos, naquela noite enorme de lua.

Jorge d’Alvelos recusara-se a ir sem Alma. E numa efusão os amigos que tinham acabado de jantar num gabinete comum do Pierrot, decidiram buscá-la.

Além de Carlos e de Jorge, havia Mário de Alfenas e seu irmão Bruno.

A Cadillac foi tomar essência. E, conduzida por Carlos Bairão, deixou o centro da cidade pelo Largo da Sé.

– Vimos roubar-te para ir a Santos, disse Jorge, entrando.

– Em trem especial?

– No meu trem de setenta cavalos – anunciou Carlos que subira também.

– Vamos sós?

– Com os dois Alfenas.

– E o chauffeur?

– Eu mesmo.

– Vai fazer-nos derrapar na serra?

– Consequências de uma aposta – fez Jorge. – Como choveu toda a semana e a estrada está horrível, Bruno de Alfenas apostou uma ceia com champagne como Carlos não era capaz de descer a Curva da Morte com o pé no acelerador.

– E nós vamos nos prestar à experiência. Lindo! Vocês vão me esperar no auto…

Beijaram-lhe a mão e saíram para o escuro onde o carro estacara.

Ela veio muito grande, toda em jersey, recostou-se entre Jorge e Mário de Alfenas, ao fundo.

Sentado ao volante, tendo ao lado Bruno, Carlos saiu.

Conversando, passaram a garganta populosa do Lava-pés e tomaram a estrada do Ipiranga. Houve a primeira parada à saída de São Paulo: um homem com sono veio examinar e viatura sob o arco de ferro iluminado. Penetraram no estirão fofo e duro do Caminho do Mar. Num rasgar de bandeiras desfraldadas, Carlos Bairão gritou:

– Cento e noventa à hora!

A flâmula branca da Hípica Paulista fremia sobre os holofotes. Desceram de repente. Subiram. Tinham atingido as primeiras luzes de São Bernardo em dez minutos. Passaram, alcançando logo a atmosfera fria da Serra.

Bruno de Alfenas, voltado completamente para o banco do fundo, contava um passeio sensacional que fizera com o pintor Meira, o músico quieto Torresvedras e o impagável Barrinhos, todos bêbedos.

– O Meira bateu o recorde quilométrico do vômito. Foi molhando o caminho todo. Na Serra, o auto, um velho Hupmobile, guiado por um motorista de praça, virou sleeping-car – todos dormiam, inclusive o chauffeur. Resultado: demos de banda numa pedra e foi preciso terminar a viagem a pé. Pela estrada, o Barrinhos queria convencer o Torresvedras de que o devia pôr em ópera. Quando chegamos ao Largo do Rosário, às cinco horas, o Meira exigiu uma farmácia, senão morria. O Barrinhos, muito míope, viu uma porta acesa e levou-o para lá – era um açougue!

Riram todos. Apenas Alma conservava-se silenciosa e recurva. A descida fazia-se com súbitas derrapagens. Brecado, o carro guinchava perigosamente no declive. Subia do escuro um cheiro forte de borracha queimada contra o cascalho e à direita, abriam-se vales onde boiavam estiradas copas de árvores. A uma volta panorâmica, as luzes de Santos desenharam-se ao luar, perdidas num mapa de enseadas e montanhas. O auto marchava com velocidade cautelosa, contornando-os de repente sobre despenhadeiros sem fundo. Calavam-se agora os viajantes e da Serra vinham vozes de água e de folhas. A lua parecia muito próxima, acima da barranqueira.

Súbito, Jorge percebeu que a mão de Alma tocava ligeiramente a mão de Bruno, sempre Voltado para eles; e teve um recuo para o seu canto. Alma achegou-se também. Bruno pôs-se de novo a falar, repetindo os perigos que passara ali

Jorge sentia um mal-estar profundo e um ódio torvo invadirem-lhe o peito. Alma apertou-se mais contra o seu ombro. Num incontido gesto, ele enterrou-lhe as unhas na carne do braço. Ela não teve um gemido, um movimento de defesa.

O auto continuava a fazer ladeiras em curva, por entre enormes árvores pasmadas. Saiu, embaixo, no caminho estreito do Cubatão. Veloz agora, deslizava pela madrugada na direção de Santos.

– Que tens? – sussurrou Alma a Jorge.

– Nada.

Haviam atingido a estrada lisa, de pedra socada, beirando a cerca da ferrovia.

*-*-*-*-*

Jorge d’Alvelos sentia mais uma vez que não podia abandoná-la. Atirado de novo ao chão, no conjunto amado, debruçava a cabeça, sobre o colo preferido, que uma saia de gabardine branca, com largos botões, fechava.

De fora, no meio-dia azul, vinham baques repetidos de roupa, num tanque.

Sentada no leito, ela foi mansamente descobrindo os agasalhos íntimos, e ofereceu-lhe as coxas, entre rendas, para a carícia habitual.

À luz filtrada, eles descansaram ali numa reconciliação insistida e feliz.

*-*-*-*-*

Alma entrara com a carta amarrotada na mão, pela vingadora manhã, no atelier do Palácio. E disse:

– Sabes quem me perseguiu até aqui?

– Quem?

– Mauro.

Num irrefletido susto, não querendo por nada perdê-la, o escultor pensou num segundo em fugirem ambos para outros tumultos de cidades, onde ele os ignorasse. Ia propor… Mas ela ria, grande, fulva. Tinha mentido. Jorge devorou a carta. Era dele, despedindo-se, datada de bordo de um paquete americano.

*-*-*-*-*

Tomara nas mãos o seu antigo vigor.

Ao tocar o Brasil, compusera, num estouvamento, o grupo de As Amazonas e o Cavalo que passara logo em gesso.

No ímpeto da luta com a resistência de Alma, viera A Fonte da Vida.

Fora sempre um fragmentário. Em torsos quebrados, metades, estudos largados, concentrava numa predileção alegre e constante, a força reveladora de sua arte. Era um criador de mutilações.

O vasto atelier compunha-se assim: para lá em branco, as Amazonas com o animal; no cavalete central, a estátua de Alma, e esboços e trechos e torsos e bronzes vindos da Europa e fotografias das exposições e ânforas altas.

Alma aquietava-se em silêncios felizes, no divã de flores monstruosas, mãos perdidas entre os joelhos. Ele vinha beijar-lhe os olhos. Ela recusava-se a acordar daquela perplexidade de êxtase contente, na luz das manhãs.

*-*-*-*-*

E ele seguiu-a sem ser visto pelas ruas centrais de São Paulo. Havia chovido. Passara por ela num momento de acaso e não fora percebido. Decidiu então segui-la à distância, numa delícia de admiração ingênua. Onde iria? Ao Palácio das Indústrias decerto.

Alma trajava um vestido suave, onde, da gola redonda, das mangas secas, emergia a carne viva. Marchava sem pressa e seu chapéu vermelho e copado flutuava acima das cabeças, no movimento da tarde, na Rua 15 de Novembro.

Cortou direito o Largo do Tesouro, atravancado de bondes e vendedores de jornais. Jorge teve uma ligeira surpresa. Por que não descera na direção do Palácio? Talvez fosse para casa, sem lhe fazer a visita habitual. Ela estava agora perto do Largo da Sé. Não dobrou a Rua Direita, enveredou para os lados do Carmo. Ele sorriu satisfeito; ela iria ao Palácio das Indústrias e, numa fantasia de criança, escolhera o caminho mais longo.

– Chapeuzinho vermelho! – murmurava seguindo-a.

Ela ia descer pela ladeira íngreme do Carmo, até a várzea ajardinada. Tomou a Travessa da Sé.

Mas ela não desceu a ladeira curta do Carmo; tomou para a frente, dirigindo-se no mesmo passo tranqüilo e lento até a Rua da Boa Morte. Jorge deixou entre ambos maior distância. Havia poucos transeuntes. Ela passará a igreja e o colégio. Ele acompanhava-a surpreso, temendo ser visto.

Súbito, Alma parou em frente a uma casa baixa. Um moço saía. Ela interpelou-o. Ele voltou, fez a chave correr na fechadura. Ela desapareceu. Ele fechou de novo a porta e veio na direção do escultor. Ia passar por ele. Jorge interrogou-o.

– Pode dizer-me se mora naquela casa o Sr. Mauro Glade?

– Não conheço.

– Não é a casa dele?

– Não. É uma garçonnière de rapazes…

Fora andando. Jorge estacara. Numa obsessão eufônica, voltava-lhe cem vezes a frase que vinha dizendo: – o lobo te espera! o lobo de espera!

Num ímpeto, alcançou a porta, bateu; Alma assomou à janela ainda de chapéu.

Depois, veio calmamente, abrir.

– Que vens fazer aqui?

– É a casa de uma amiga. Queres entrar?

Jorge penetrou. Um corredor extenso levava até o fundo indeciso.

– Não vale a pena – fez ela.

E saíram, batendo a porta.

Voltaram em silêncio; um silêncio que se seguira à estupefação rápida de ambos.
Começou de repente a chover. Ocultaram-se meia hora, calados, a uma porta de sobrado. Depois, puseram-se a andar na mesma vaga direção.

*-*-*-*-*

Dois dias vieram e foram, inflexíveis e inúteis. Jorge engolia distâncias, descia alamedas, contornava praças animadas de algazarras infantis, perdia-se em bairros longínquos.

O seu raciocínio emperrara numa conclusão tremenda: Alma traía-o, entrara numa garçonnière, ele vira-a entrar, retirara-a lá de dentro. Não havia sofisma que a pudesse defender. Alma traía-o.

Subitamente, tomou um elétrico que passava para o centro. Desceu no Largo da Sé, esperou passeando para cá e para lá. Com um rumor surdo, chegou um bonde do Ipiranga, cheio de gente. Subiu, sentou-se. Ia vê-la pela última vez. Queria apenas que ela confessasse. Não obtivera nada do seu obstinado silêncio na volta daquela tarde. O bonde passou o Largo João Mendes desceu pela Rua da Glória.

Jorge apeou um quarteirão antes, tomou a Rua Scuvero e entrou rapidamente em casa.

Alma estava sentada no leito, mal vestida, na penumbra morrente. Continuou pregando a uma calça um largo monograma azul.

Jorge começou:

– Alma, não quero mais do que uma palavra tua, uma palavra de confissão. Perdoarei se a disseres. Não há nada de pior na vida do que a incerteza. Fala, conta! Tens um amante?

– Tenho.

– Quem é?

Alma erguera a cabeça, largando o trabalho, file sentou-se a uma cadeira.

– Conta!

– Um velho conhecido – disse ela.

– Um velho amante?

Ela calava-se.

– Esse telegrafista de quem me falaste no Jardim da Luz, nos primeiros dias…

Duas lágrimas involuntárias despencaram dos cílios baixados de novo.

– Ele?

Ela fez um gesto que não.

Houve um enorme silêncio.

– Quem é? Por tua mãe morta, fala!

– Um rapaz.

– Como se chama?

– Artur.

– Que faz?

– Não sei. Sei apenas que conversa muito bem e dança muito bem.

– Onde o encontraste?

– Na rua.

Calaram-se. Jorge sentia um aniquilamento definitivo cortar-lhe a vida.

– Como chegaste a ir lá?

– Tinha o endereço.

– E foste procurá-lo?

Insultou-a pesadamente. Alma não se moveu, olhando o tapete numa fixidez insensível

– Mas como foi? Como? Por que? Não te bastava o teu cáften?

– Nunca te traí com Mauro…

– E traíste-me com outro, agora, quando eu pretendia ligar para sempre a minha existência à tua… Perdeste-me… Perdeste-me…

A noite vinha de fora. Alma levantou-se, ficou toda nua, grande, fulva. Pôs um pijama de seda e veio enroscar-se no fundo do leito.

Uma mole sensualidade quebrava o corpo de Jorge. Deitara-se ao lado da amante poluída. O contato de uma anca, sob a seda, interpelou-o.

Um demônio novo, pouco a pouco, ia tomando conta dele, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma permanecia nua, no pijama sobre a carne. Jorge perguntou-lhe:

– Como te entregaste?

– Ia passando, ele estava à janela, fez-me entrar.

– E depois?

– Foi mostrar-me o quarto. Sentamos ao leito, para conversar. Uma aranha pequenina assustou-me. Ele riu, dizendo: araignée du soir, espoir! E deitou-me.

Jorge, tomado de uma volúpia espantosa, ao ouvir a cínica narrativa, queria minúcias, obstinava-se de dentes cerrados.

– Foi para mostrar os dessous novos que te entregaste?

A sua mão, fazendo-se automática, atingira-lhe o pijama que se rachava frouxamente. Ela deixou-se acariciar, acariciou-o também, com as mãos longas e brancas. Mas de um salto Jorge levantou-se, fugindo ao espasmo diabólico que o tomava. E ria agora num doloroso esgar:

– É a vida!

Veio de novo, disposto a torturá-la. Cingiu-lhe os seios com as mãos numa violência de bruto. Ela gemia, fugindo. Ele atacava furioso. Agatanhara-lhe a garganta.

– Pede-me perdão! pede!

Ela recusava-se, gemendo sempre. Pequeninas lágrimas apontaram-lhe aos cílios; e gritou afinal na sombra, sentindo-se esganada:

– Perdão!

Largou-a e fugiu para o patamar. Descera. Parou um instante à esquina. Depois foi-se, alquebrado e triste.

(Continua na próxima semana)

Stiglitz aposta no Banco dos BRICS

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Para Nobel de Economia, iniciativa aproveita brecha importante e desafia esforço dos EUA para manterem, mesmo em decadência, controle da ordem econômica global

Entrevista a Juan Gonzalez e Amy Goodman, no Democracy Now | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Alex RossUncle Sam

Na última terça-feira (16/7), um grupo de cinco países lançou seu próprio banco de desenvolvimento para fazer frente ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional, dominados pelos Estados Unidos. Governantes dos países conhecidos por BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – divulgaram a criação do Novo Banco de Desenvolvimento em uma reunião de cúpula no Brasil. O banco terá sede em Xangai. Juntos, os BRICS têm 40% da população mundial e 25% do PIB global.

Em entrevista aos jornalistas Juan González e Amy Goodman, do Democracy Now, o economista ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, fala sobre o que significa esse fato. Stiglitz é professor da Universidade de Columbia e autor de diversos livros, sendo o mais recente Creating a Learning Society: A New Approach to Growth, Development, and Social Progress (Criando uma Sociedade do Conhecimento: uma Nova Abordagem ao Crescimento, Desenvolvimento e Progresso Social).

Stiglitz: FMI e Banco Mundial "não foram capazes de perceber que, no século 21, seus líderes deveriam ser escolhidos na base do mérito – não apenas por serem norte-americanos.

Stiglitz: FMI e Banco Mundial “não foram capazes de perceber que, no século 21, seus líderes deveriam ser escolhidos na base do mérito – não apenas por serem norte-americanos”.

Por gentileza, fale sobre o significado desse banco

Ele é muito importante, por várias razões. Primeiro, a necessidade de mais investimentos, globalmente – em especial nos países em desenvolvimento – é da ordem de grandeza de trilhões, algo como dois trilhões de dólares por ano. E as instituições existentes simplesmente não têm recursos suficientes. Eles têm o suficiente para 2% a 4% disso. De modo que a criação desse banco vem somar recursos ao fluxo monetário que irá para financiar infraestrutura, adaptação às mudanças climáticas e outras necessidades muito evidentes nos países mais pobres.

Segundo, ele reflete uma mudança fundamental no poder econômico e político global, e a ideia por trás disso é que os BRICS são hoje mais ricos que eram os países desenvolvidos quando o Banco Mundial e o FMI foram fundados. Vivemos em um mundo diferente, mas as velhas instituições não acompanharam as mudanças. O G-20 concordou com uma mudança na governança do FMI e do Banco Mundial, criados em 1944. Houve algumas revisões, mas o Congresso dos EUA recusa-se a implementar esse acordo. Estas instituições não foram capazes de acompanhar a noção básica de que, no século 21, seus líderes deveriam ser escolhidos na base do mérito – não apenas por serem norte-americanos. Na prática os EUA negaram o novo acordo. Por isso, essa nova instituição expressa a assimetria e o déficit democrático na governança global — e tenta repensá-la.

Por fim, houve muitas mudanças na economia global. A nova instituição reflete o conjunto de mandatos, as novas preocupações, os novos instrumentos financeiros que podem ser empregados. Espero que, ao percebendo as deficiências do antigo sistema de governança, esta nova instituição estimule a reforma das instituições existentes. Não se trata apenas de competição. É uma tentativa real de obter mais recursos para os países em desenvolvimento, de maneira consistente com os seus interesses e necessidades.

Qual a importância de países como a China, que tem enormes reservas monetárias, e o Brasil, que criou seu próprio banco de desenvolvimento há um bom tempo, serem peças-chave na nova organização financeira?

É muito grande, e vale lembrar alguns pontos interessantes. A China tem reservas internacionais no valor de 3 trilhões de dólares. Para os chineses, uma das questões centrais é como usar estes fundos melhor do que apenas transformando-os em títulos do Tesouro norte-americano. Meus colegas na China dizem que isto é como colocar a carne na geladeira e desligar a eletricidade – porque o valor real do dinheiro convertido em títulos do Tesouro dos EUA está declinando. Eles dizem, “Precisamos fazer melhor uso desses recursos”, certamente melhor do que aplicá-los na construção de, digamos, casas de má qualidade em meio ao deserto de Nevada. Você sabe, há necessidades sociais reais, e aqueles fundos não têm sido usados com esses propósitos.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem o BNDES – um enorme banco de desenvolvimento, maior que o Banco Mundial. As pessoas não se dão conta disso, mas o Brasil demonstrou na prática como um país pode, sozinho, criar um banco de desenvolvimento muito efetivo. Há um aprendizado sendo feito. E essa noção de como se cria um banco de desenvolvimento efetivo, que promova desenvolvimento real, sem todas as condicionalidades e armadilhas que permeiam as velhas instituições, será uma parte importante da contribuição do Brasil.

E qual a diferença no funcionamento do novo banco, com relação a outros bancos de desenvolvimento do Norte?

Ainda não sabemos, porque ele está apenas começando. O acordo vem sendo construído há algum tempo. As discussões começaram há cerca de três anos. Firmaram um compromisso e, desde então, vêm trabalhando nele com muita firmeza. Havia alguma preocupação de que pudesse haver conflitos de interesses entre os países. Todos queriam sediar o banco, queriam a presidência. Haveria coesão política, solidariedade suficiente para fazer um acordo? A resposta foi: sim, há. A mensagem que está sendo transmitida é que, a despeito de todas as diferenças, os países emergentes podem trabalhar juntos, de maneira até mais efetiva do que alguns países desenvolvidos conseguem.

Você é ex-economista chefe do Banco Mundial. Qual é a sua avaliação do Banco Mundial sob a presidência de Jim Yong Kim? Acabamos de completar o segundo aniversário de seu mandato.

Ainda é muito cedo para dizer. Demora um pouco para alguém tomar pé do Banco Mundial. É como um grande navio. Há um grande interesse em que ele traga uma força muito positiva para o banco – o foco na saúde e a preocupação com outras questões sociais. Mas, para ser bem sucedida nos temas relacionados a desenvolvimento, a instituição terá de continuar a se concentrar em alguns dos velhos temas.

E Kim tem uma experiência um pouco menor nos fundamentos do crescimento econômico. Penso que ele é provavelmente mais sensível a alguns dos problemas que foram o açoite das instituições financeiras internacionais no passado, como as condicionalidades exigidas para a concessão de empréstimos. Mas ele enfrenta um problema de governança. O presidente do Banco Mundial é escolhido pelos EUA, ainda que Washington não desempenhe mais o papel econômico e de liderança que desempenhou no passado. Todos acreditamos em democracia, e a democracia diz que a presidência não deveria ser confiada exclusivamente a um país.

Durante a crise do Leste da Ásia, no final dos anos 1990, um dos altos funcionários do Tesouro dos EUA disse, “Vocês estão reclamando por dizermos aos países o que devem fazer? Mas quem paga a banda, escolhe a música.” E agora, ouço os países em desenvolvimento – a China e os outros – dizendo: “Estamos pagando a banda. Somos os principais atores, agora. Temos os recursos, as reservas. E mesmo assim vocês não querem deixar que desempenhemos, no jogo, um papel que refleta o tamanho de nossa contribuição na economia.” Essa é uma queixa real, e é difícil para uma instituição ser tão eficaz como poderia, quando a governança está tão fora de sintonia com as realidades políticas e econômicas atuais.

Quero lhe fazer uma pergunta sobre imigração. Temos uma situação em que há um esforço para criar barreiras ao fluxo livre do trabalho. Qual o impacto que isso tem na economia mundial?

Há alguns aspectos a serem apreciados. Por um lado, é absolutamente verdadeiro que a livre mobilidade do trabalho teria um impacto maior, sobre as rendas globais, que a livre mobilidade do capital. A agenda que os EUA tem perseguido, a da livre mobilidade do capital, não tem sido impulsionada com base na eficiência econômica global. Trata-se, na verdade, de interesses especiais. São os bancos que querem isso.

Edição de julho

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É hora de mudar o rumo

[ponto de vista]
As contas externas brasileiras parecem seguir um caminho perigoso, que pode levar a uma crise, como em 1982 e 1998

A suada coligação

Se Dilma vencer o pleito de outubro ela será capaz de administrar os interesses de uma ampla coalizão? [Tânia Caliari]

A ocupação da Maré

Entre os traficantes e o Estado: assim vivem os moradores do maior complexo de favelas do Rio de Janeiro [Lia Imanishi]

No meio do caminho

A África do Sul ainda procura uma saída para superar a enorme desigualdade entre brancos e negros [Sônia Mesquita]

O boom do e-commerce

Amazon, Ebay, Alibaba, as maiores empresas do comércio eletrônico mundial estão de olho nos países emergentes [Thiago Domenici]

China, campeã mundial?

É o que dizem analistas ao projetar que o PIB do país, medido pela paridade do poder de compra, deve bater o dos EUA neste ano. Mas o governo chinês discorda [Teia Magalhães]

Entre a fama e a máfia

Garcia Márquez detestava a fama, mas adorava ser o Gabo, aquele que vivia feliz no pequeno círculo formado por familiares e amigos [Ricardo Viel]

A beleza de Candeia branca

Em seu primeiro disco solo como cantora, a pioneira cavaquista Luciana Rabello interpreta canções feitas em parceria com Paulo Cesar Pinheiro [Julia Andrade]

Os caxinauás, por eles mesmos

Obra apresenta relatos históricos escritos do povo que habita o Acre e o Peru [Ana Yano]

Um mestre na periferia capitalista

João Filgueiras Lima, o Lelé, deixa obra que impactou a forma da produção arquitetônica brasileira [Ana Castro]