O riso a cavalo e o galope do sonho

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Uma viagem com Ariano Suassuna pelo sertão do Nordeste e pela diversidade do mundo — pouco antes de Caetana levá-lo

Por Rosemberg Cariry

A vida de todos nós está sempre nos preparando surpresas, umas difíceis, outras boas… Entre os bons acontecimentos da minha, está o privilégio de ter encontrado Ariano Suassuna e com ele ter convivido, por muitas semanas, viajando pelo sertão, realizando o O Nordeste de Ariano, com produção e concepção de roteiro de Wagner Campos e Alexandre Nóbrega, produzido pelo SESC Nacional.

Juntos, varamos os sertões do Ceará, Alagoas, Sergipe e Bahia, só parando quando ouvimos a pancada do mar, o denso areal de Aracati, onde Dom Sebastião – o Desejado se desencanta, com seu exército aluminoso, em noite de lua cheia. Nestas andanças, erudito e simples na paciência professoral, Ariano foi-se adentrando, nas artes barrocas populares e nas lendas do povo, nas antropologias e interpretações da nação brasileira… De tudo falou: de índios, de negros, de cafuzos, de brancos, de beatos, de cangaceiros, de lutas e revoluções. “Oropa, França e Bahia” que se reinventam Brasil – pátria dos encontros de todas as etnias e de todas as culturas, sob o signo da universalidade e singularidade que nos engrandece e irmana.

Em várias ocasiões, diante de um curumim, nas ruínas de Canudos, na Casa de Antônio Conselheiro, em Quixeramobim, vi o mestre Ariano chorar. Ele se mostrava tão sensível, andava com o coração na mão e parecia enternecido, quando a gente do povo o parava nas ruas; ou quando, nas aldeias, os índios dançavam um Toré em sua homenagem e os quilombolas batucavam tambores e sapateavam Zambé. Nessa caminhada, a ele eram destinados tão belos ritos, da mesma forma que o Galo da Madrugada o homenagearia depois, no carnaval do Recife. De todos, ele recebia muitas palavras carinhosas que se traduziam em uma só ideia: “Olha o mestre Ariano, ele é um grande escritor e um defensor do povo brasileiro”. Sim, Ariano Suassuna era um apaixonado pelo povo brasileiro, parte indissociável dele, porque se fez sopro encantado desse mesmo barro; e hoje, depois da sua morte, transformou-se em um defensor perpétuo e desencarnado deste mesmo povo. Ele lutou a boa luta e não se entregou facilmente. Gostava de dizer: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”.

A morte-mulher, que ele chamava Caetana, feiticeira e sedutora, levou-o em seu cavalo branco, riscou os cascos da noite, atritou as faíscas das estrelas e levantou o véu de poeira cósmica nas suaves vias lácteas. A hora fatal foi cantada por Ariano com desassombro, com profundidade e beleza, no poema “A Morte – O Sol do Terrível”:

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
O Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei por que a teia do Destino
Não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
Que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
Verei feita em topázio a luz da Tarde,
Pedra do Sono e cetro do Assassino.

Ela virá, Mulher, afiando as asas,
Com os dentes de cristal, feitos de brasas,
E há de sangrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei
A coroa da Chama e Deus, meu Rei,
Assentado em seu trono do sertão.

Contador de histórias inigualável, com um humor solar, alumioso, Ariano nos acalentava a alma com o riso e nos alimentava a mente com suas sabedorias infindáveis. Para ele, o homem devia encarnar os arquétipos do Rei, do Guerreiro, do cantador de histórias (o mentiroso) e do Palhaço. Ele tinha na alma esses aspectos generosos da grandeza humana. Era um espírito universal. O que Ariano Suassuna tinha de regional era justamente a sua universalidade, amante que era do Cego Oliveira e de Cervantes, de Dostoievsky e de Shakespeare, de Homero e de Garcia Lorca, de Molière e Goethe, de Lino Pedra Azul e de Gil Vicente, de Guimarães Rosa e de Elomar. Mundos que se reinventavam nos sertões sem porteiras, que Ariano carregava e recriava dentro da alma. Este homem amava o Brasil por entender o que de universal herdara o povo brasileiro, numa torrente de signos vindos de todas as culturas, povos e etnias… Por isso, talvez, ele achava que “ao outro” ele só podia dar o melhor de si, a sua própria originalidade.

Tido por alguns como conservador, Ariano Suassuna surpreendia pelas suas ideias avançadas e politicamente arejadas. Ao modo de Machado de Assis, gostava de denunciar o “Brasil oficial” (das elites e dos exploradores do povo), que sempre corta a cabeça do “Brasil real” (os pobres e deserdados dos campos e das cidades) cada vez que este povo avançava em suas conquistas sociais e políticas. Gostava de citar o exemplo de Canudos e dizia que cada vez que a polícia invadia uma favela, era Canudos que está sendo devastada; que cada vez que explorávamos ou humilhávamos uma empregada doméstica, era Canudos que estava sendo pisoteada; que cada vez que se assassinava um líder camponês, indígena ou operário, era a cabeça de Antônio Conselheiro que estava novamente sendo cortada… Canudos saía da história e do sertão, para invadir as favelas cariocas e as cozinhas no nossos apartamentos confortáveis de classe média ansiosa para entrar no “Brasil oficial”… Ariano Suassuna marchou junto com Miguel Arraes em momentos decisivos e corajosos da política nacional e terminou por se filiar ao Partido Socialista Brasileiro, sendo o seu presidente de honra, embora preferisse o reisado de congo com suas cores e brilhos, festas e repartição de comidas e dengos, nos terreiros da gente humilde dos sertões e das cidades.

Se alguém me perguntasse o que, durante toda esta convivência, ao lado dele, peregrinando por cidades, praias, serras, caatingas e desertos, achei mais bonito ou mais importante em Ariano Suassuna, não me seria difícil responder: foi o carinho e o amor que ele dedicava à Dona Zélia, sua mulher – o grande amor da sua vida. Era comovente ver como ele a protegia, como ele estava sempre se desfazendo em mimos por ela e lhe confessando a sua paixão. Via-se ali um amor tão bonito que a todos nós comovia, como se aquele sentimento fosse pura luz e irradiasse calor.

A todos da equipe de filmagem ele tratava com carinho e tinha sempre, todos os dias, uma brincadeira para fazer, uma motivação para que não desanimássemos da nossa difícil missão, quando a pessoa mais velha e mais frágil, a que mais precisava de proteção e renovação de ânimo era ele. De Petrus Cariry mangava porque se cansou na íngreme e pedregosa ladeira que leva à Gruta de Angicos, onde morreram Lampião, Maria bonita e o seu bando; de Júnior Sindeaux Jr. e Ezaquiel Rodrigues (eletricista e assistente) – espécie de dupla de palhaços naturais, sempre inventando presepadas, ao modo de João Grilo e Chicó – ria-se com fartura; de Dirceu Saggin (muito branco à sombra e sempre vermelho ao sol), engenheiro de som, inventava antigos brasões e fidalguias; com Wagner Campos, discutia políticas e conceitos filosóficos; com Alexandre Nóbrega (esposo da sua filha Maria), apontava vontades e estirava a prosa amiga; comigo falava de cantadores e de cinema… Sonhava ver os guerreiros alagoanos em um filme, com a mesma beleza e dignidade dos samurais nos filmes de Akira Kurosawa.

De toda a equipe, Dona Zélia e Ariano dedicavam especial carinho e simpatia sincera à Bárbara Cariry e a Daniel Pustouka: era como se esse casal de jovens enamorados os representassem na juventude, em todo o frescor da vida e confiança no futuro. Para Bárbara e Daniel, Ariano Suassuna pintou uma Igreja de Canudos e afetuoso lhes ofereceu. Era um quadro lindo – um dos presentes mais bonitos que esses jovens terão recebido em suas vidas. Maíra, minha outra filha, como presente, encantou-se com a magia de ouvir Ariano narrar histórias, ao redor de uma fogueira, na Fazenda Magé, em Quixadá.

Depois de um longo intervalo, por causa de doenças ocasionais do mestre Ariano, planejávamos retomar as filmagens, em outubro próximo. De repente, chegou-nos a notícia de que Ariano sofrera um AVC hemorrágico e estava internado no Real Hospital Português, em Recife. Ficamos aflitos, preocupados, como se alguém da nossa família tivesse adoecido. Sim, Ariano é alguém da nossa família, não apenas da minha ou da sua, mas de todos nós nordestinos e brasileiros. Ariano é uma espécie de pai espiritual e mítico de todos os artistas e intelectuais da minha geração. Mesmo os que, por falta de informação ou por equívocos de interpretação, combateram as suas ideias. No fundo, estávamos todos tocados pelo universo mágico e universal da sua literatura, que superava as nossas diferenças ideológicas ou estéticas.

Ninguém lê Ariano Suassuna, impunemente, sem que a sua vida se transforme. Confesso que o meu cinema tem muito de Ariano e do sertão que ele me ensinou a desvendar, a intuir e ver para além das mais chãs aparências. O meu primeiro filme de ficção, “A Saga do Guerreiro Alumioso”, é uma homenagem e leitura compartilhada do universo sertânico e imaginoso de Ariano. Ler a literatura de Ariano é um processo iniciático, feito o do cavaleiro da Távola Redonda, que, à procura do Santo Graal, termina por encontrar a sua própria alma e um sentimento profundo de pertencimento a um povo e lugar; não no sentido de um regionalismo estreito, mas de um “lugar sagrado”, de onde se torna possível amar o mundo e a diversidade cultural dos povos do planeta, enquanto completamos o nosso processo de individuação, no sentido que lhe dava Gustav Jung.

Dizem que, quando o homem morre, encanta-se e encontra sua plenitude. O que sei é que, quando um grande homem morre, faz-se mais vivo do que nunca. Todo morto é mágico, e sua história, livre dos limites da carne, já pode ser contada e reinventada, pelos séculos afora. A plenitude de um homem é a sua eterna reinvenção. Se antes éramos os filhos espirituais em luta edipiana com o pai pela posse da “mãe arte”, com a morte do “pai”, somos seus herdeiros e temos o compromisso de ajudar, como ele o fazia, na recriação ou transformação do mundo. Acredito que mesmo a mais ousada vanguarda nordestina (mesmo aquela que guarda fortes influências estrangeiras) é filha de Ariano, muito embora com ele possa arengar. Em Ariano, todos se encontram: de Chico Science a Caetano Veloso, de Elenilson a Samico, de Marlos Nobre a Antônio José Madureira, de Gilberto Gil a Antônio Nóbrega, de Lenine a Wagner Campos, de Cláudio Assis a Kléber Mendonça – todos beberam na mesma fonte luminosa das artes populares e eruditas universais, por Ariano tão profundamente valorizadas, antes de usarem os engenhos das misturas alquímicas e invenções pós-modernas, para fazerem as suas artes brasileiríssimas. Toda vanguarda, ao negar uma pretensa tradição, tenta dela se apoderar para melhor destruí-la e, ao fazer isto, sela o seu destino: bebe “o veneno” da sua própria destruição enquanto “vanguarda”, pois condenada está a também virar uma tradição, no ciclo sem fim das dinâmicas culturais e das dialéticas históricas. É por isto que a modernidade e as vanguardas do século XX ficaram tão antigas e têm um sabor de tradição. São tão inofensivas e saborosas como uma tapioca com queijo, servida com café quente, ao entardecer.

Ariano se foi, levado pela morte Caetana e as “asas rubras de dragões antigos”, feito um guerreiro do reisado, que subiu pro céu e o seu pai – o seu herói, o seu Rei – que cedo lhe roubaram, com sua mãe, em companhia de São Pedro, está agora a recebê-lo na porta, para fazer de novo pulsar juntos dois corações. Encantou-se feito Dom Sebastião. Com certeza, se existe mesmo este céu do qual fala a tradição bíblica, deve ser como o céu imaginado pelo poeta e cordelista José Pacheco – um céu que é uma representação do sertão, com casa de varanda, pote de barro, terreiro para dança de guerreiros e congadas, vaquejada e cantadores… Não tenho dúvida de que, neste momento, Ariano já deve estar neste céu, arrodeado de gente boa (Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Jackson do Pandeiro, Paulo Freire, Padre Cícero, Severino Pinto, Antônio Conselheiro, José de Alencar, João Ubaldo Ribeiro, Darcy Ribeiro, Padre Ibiapina, Inácio da Caatingueira, Glauber Rocha, Jorge Amado, Dona Ciça do Barro Cru, Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Mestre Vitalino, Rachel de Queiroz e João do Vale, entre centenas de outros… Gente que não acaba mais), diante da sua Santa Compadecida – que compreende e perdoa os pequenos pecados dos homens, contando causos e dando boas gargalhas.

Acho que hoje, no céu, a lua deve estar clara e deve fazer frio, são tão frias as noites no céu… Daí esta fogueira que arde com a luz da arte e ilumina o mundo. Sei que a saudade dói, mas num se avexe não, minha gente… Vez por outra, Ariano virá dar umas voltinhas pelo sertão… Quererá alumiar e se achegar às pessoas e coisas mais amadas que por ali sem querer deixou… Só conseguirão vê-lo aqueles que têm na alma os olhos abertos para a poesia… Ele virá encantado e alumioso, como Dom Sebastião, e aparecerá, nos lençóis maranhenses e nas dunas do Cumbe, com seu exército alumioso formado por violeiros, cantadores, mamulengueiros, rabequeiros, xilógrafos, cordelistas, escritores, brincantes de reisados, dançarinos, mascarados, artistas plásticos, romeiros, músicos, vaqueiros e milhares de palhaços de circo feito Chicós e Joões Grilos, anti-heróis sertanejos resgatados da Comédia dell’arte e das brumas dos séculos, pela alma generosa do povo mestiço, que tudo reinventa e alimenta. Ele também surgirá sozinho nos corredores da casa bonita (na rua do Chacon, no bairro de Poço de Panela, em Recife), de mansinho, leve com uma pluma, apenas para se achegar a Dona Zélia e dizer (delicadamente em forma de saudade), no seu ouvido: – “Zélia, meu amor, aí que saudade d’ocê”.

Salve, Mestre Ariano, de todos os sertões do mundo, teu nome faz mais bonito o Brasil!

Fortaleza, 23 de julho de 2014

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A Realidade, esta danada, e a Mídia Pinóquia

Corredores de ônibus: apoiados por entre 88% e 93% da população, segundo pesquisas. Para mídia, é preciso destruir prefeito que apoia ideias perigosas...

Corredores de ônibus: apoiados por entre 88% e 93% da população, segundo pesquisas. Para mídia, é preciso bloquear ações de governante que apoia ideias perigosas…

São Paulo: como jornais atropelam os fatos para tentar destruir Fernando Haddad, um prefeito não-enquadrado. Dois fatos singelos

Por Carol Almeida*

E vamos nós pra mais um capítulo daquela novela tão conhecida mídia pinóquia: como destruir a gestão Haddad em SP. Cena de ontem (22/7): #EstadãoIngrato. Sabe aquelas medidas bem celebradas e super “cool” lá na Europa de criar mais ciclovias, investir em transporte público pra eliminar a presença do carro travando as cidades, entender que dependente químico precisa de tratamento humanizado e criar ações sustentáveis pra reciclar lixo e comer comida saudável?

Pois bem, pro Estadão, tudo isso representa nada mais que, palavras de seu editorial nesta terça, “experiências esdrúxulas e marqueteiras“. Sobre o Braços Abertos: o Estadão diz (em tom de chacota): “A ‘inovação’ foi oferecer a esses drogados (leia-se: drogados-merecia-tudo-morrer) hospedagens em hotéis da região e um emprego de varredor de rua, com remuneração e R$ 15 por dia (leia-se: é muita fortuna pra esses… drogados!) e assistência médica. A óbvia contrapartida – a de que o viciado fosse obrigado a se tratar – não foi exigida. O resultado é que, em vez de resolver o problema da Cracolândia, a Prefeitura, em nome de uma nova ‘atitude’ acabou financiando indiretamente o consumo de crack.”

A Realidade diz (em tom de “really”?): de janeiro a junho deste ano, foram 422 beneficiários cadastrados, 50% a 70% de redução do consumo de crack entre os beneficiários (em média), 228 participantes no serviço de varrição de ruas, 66 participantes trabalhando no projeto Fábrica Verde, 330 pessoas conseguiram novos documentos e mais de 28 mil atendimentos de saúde realizados. PAM! O jornal canadense “The Globe and Mail” já fez uma extensa matéria louvando o programa Braços Abertos, mas Canadá é terceiro mundo, né gente? Vai confiar?

Sobre os corredores de ônibus, o Estadão diz: “Mas nada traduz melhor o improviso dessa administração despreparada do que as faixas exclusivas de ônibus.” A Realidade, essa danada, responde: segundo uma pesquisa do Ibope encomendada pela Rede Nossa São Paulo, divulgada em setembro de 2013, 93% dos 805 entrevistados disseram ser a favor da implementação de faixas exclusivas de ônibus. Numa pesquisa feita pelo Datafolha sobre o mesmo tema, 88% dos 823 entrevistados aprovaram as faixas, sendo que 77% estavam entre os que mais utilizam automóveis. PAM PAM!

Querido (not!) Estadão, ingrato é você, promovendo um jornalismo que atira contra a população da cidade de SP. Igualzinho àquela polícia daquele senhor que vocês tanto amam… Mas essa é uma outra história (na verdade, é a mesma, mas enfim).

O fardo do Homem Branco

A woman grieves during the funeral of the four Palestinian children from the Baker family, whom medics said were killed by a shell fired by an Israeli naval gunboat, in Gaza City

16/7: mulher lamenta morte de quatro crianças que brincavam na praia, em Gaza, e foram atingidas por bomba disparada pela marinha israelense

Cumplicidade com genocídio dos palestinos marca declínio do Ocidente. E cada criança morta é um prego no caixão da velha democracia

Por Nuno Ramos de Almeida

Em 1899, os Estados Unidos da América discutiam no Congresso a anexação das antigas colônias espanholas que tinham lutado pela sua independência, nomeadamente as Filipinas. Nessa altura, o poeta britânico Rudyard Kipling escreveu um poema apologético para declarar que o facho da civilização tinha passado das mãos do Reino Unido. “O Fardo do Homem Branco” defendia que passara a caber a Washington tratar dos selvagens para o bem deles, sem contar com o seu agradecimento. Os nativos do mundo tinham de ser dirigidos pelas potências ocidentais. Eram homens inferiores, de civilizações fracas que precisavam de ouvir a voz do dono. Os agitadores deviam ser castigados e eliminados, se necessário por meios violentos. Os selvagens deviam ser controlados, para seu bem. Assim começava a declaração de bondade civilizadora:

Tomai o fardo do Homem Branco,
Enviai vossos melhores filhos.
Ide, condenai seus filhos ao exílio
Para servirem aos seus cativos;
Para esperar, com arreios
Com agitadores e selváticos
Seus cativos, servos obstinados,
Metade demônios, metade crianças.

Entre o consenso dos meios de comunicação e dos poderosos, houve um homem que não se calou. O escritor que assinava Mark Twain, autor das As Aventuras de Huckleberry Finn, respondeu com um artigo em plena euforia “civilizadora”, quando os poderosos norte-americanos abriam garrafas de champanhe pela anexação das ilhas do Havaí, de Samoa e das Filipinas, de Cuba, Porto Rico e de uma ilhota que se chama, eloquentemente, dos Ladrões. Perante isto, Mark Twain faz uma singela proposta, pede que se mude a bandeira nacional: que sejam negras, diz, as listas brancas, e que umas caveiras com tíbias cruzadas substituam as estrelas e assumam a verdadeira identidade de piratas.

Em pleno século XXI pouco mudou. Somos governados por piratas: a cumplicidade dos governos ditos civilizados, e da sua obediente comunicação social, com o genocídio dos palestinos, é reveladora da manutenção da ideia de que há seres humanos mais humanos que outros. Os palestinos são para essa gente verdadeiros homo sacer, que podem ser mortos e torturados, segundo o direito romano nos tempos do Império, sem nenhuma sanção legal ou moral. Há gente que acha que Israel é uma democracia e por isso tem o direito de assassinar crianças palestinas. Há colaboracionistas ditos de esquerda que defendem que, como em Israel a situação dos gays e das mulheres é melhor que nos países árabes, as tropas hebraicas têm licença para destruir as casas palestinianas e matar as mulheres e crianças de Gaza.

Ironia da história, a operação ideológica que permite aos assassinos justificar o sangue derramado é a mesma que permitia aos nazistas justificar aos alemães a solução final. Para os nazis, os judeus eram sub-humanos, e por isso podiam ser mandados para as câmaras de gás; para os “democratas ocidentais” os palestinos são criaturas culpadas pela sua morte e as bombas israelitas são a garantia da paz.

A atitude de apoio ao genocídio dos governos europeus põe em causa a própria democracia. Nem todos chegam ao nível de sabujice reles do líder socialista francês François Hollande, que proíbe manifestações contra a invasão israelita em Paris e manda a polícia de choque disparar contra os manifestantes, mas é preciso dizer que uma democracia não é definida pela forma como trata os poderosos, mas pela forma como trata os mais desprotegidos. Israel não é uma democracia, não porque não trata bem os judeus, mas porque funciona como um regime de apartheid para a sua população árabe e como um regime nazi para os palestinos. O mesmo sucede com a Europa Ocidental: não existirá democracia enquanto permitirmos, sem reagir, o massacre dos palestinos. A luta pela paz e uma Palestina independente é um combate pela nossa liberdade e pela afirmação dos seres humanos contra as bestas.

Desesconder o Ministério da Cultura

 

Janeiro de 2011: O ministro Gilberto Gil aplaude seu sucessor, Juca Ferreira, empossado por Lula

Julho de 2008: O ministro Gilberto Gil aplaude seu sucessor, Juca Ferreira, empossado por Lula

Precisamos resgatar o MinC que dialogava com juventude crítica, lançava políticas de enorme repercussão internacional e contribuía com radicalização da democracia

Por Marcus Faustini* 

“Fazer políticas culturais é fazer cultura”, afirmou o então Ministro da Cultura (MinC), Gilberto Gil, por volta de 2004/5. Mais do que bom frasismo, capaz de promover síntese, esse ponto de vista nos coloca diante de um amálgama, de constante reconfiguração na fundição desse metal chamado cultura, que inventa um lugar preciso — ainda não superado — para o MinC no jogo político e simbólico. Coloca a tarefa objetiva de uma instância governamental para além de dirigismo ou da procrastinação. Nada de um saudosismo por aqui, nem resgate ingênuo que não observa contradições. O fato é que perdemos essa postura, posicionamento e performance do ministério nos últimos anos. Serei direto, então, no recado desta semana.

Hoje, do jeito que está, se desfaz a perigosa fronteira que coloca o MinC no clássico lugar da fácil fala de “guardião de uma identidade nacional popular”, apenas para cumprir encenações de protocolo sem de fato fomentar a potência da diversidade dessas identidades em movimento, sucumbindo a sua atuação a programas fragmentados e ensimesmados. Uma falta de coragem em assumir o debate e as ações de um projeto de atualização do sentido da cultura que acaba contribuindo para a autoperpetuação das conhecidas formas e relações cambiantes em nosso país, que mantém a deliberada distinção, através de hierarquia, entre produção material da cultura versus produção imaterial. Sabemos muito bem que esse lugar difuso ao qual retornamos não diminui desigualdades regionais e não garante diversidade de imaginário e do protagonismo na produção e acesso. O MinC precisa voltar a ser um animador dos direitos culturais e de uma ecologia de formas de produção e acesso para o desenvolvimento. Não pode apenas estar resignado num lugar de regulador ordinário de práticas econômicas da cultura que possam se viabilizar como mercado, tratando o vasto campo em ebulição apenas com ações reparadoras, que restringem a ideia de diversidade como uma “exceção cultural” — pensamento já superado até pelos grandes organismos internacionais dos direitos culturais.

Já tive a oportunidade de apontar aqui na coluna e em outros artigos que parte considerável da falta de conexão com os movimentos de junho, sobretudo com as novas formas de expressão e organização da juventude que estava lá, vem desse controle e esvaziamento das políticas culturais do Ministério da Cultura que estabeleciam possíveis diálogos e ambientes de ação comum com grupos e ações culturais urbanas e rurais. Era a liga dessa nova geração com a institucionalidade. Uma brecha de contato, através das políticas capitaneadas por Gil e Juca Ferreira com suas inovadoras visões de cultura digital e dos pontos de cultura — uma ampla política pública que, além de disparar reconhecimentos represados historicamente, foi impulsionadora de formas de produção diversas e necessárias para a economia da cultura. É claro que os desafios institucionais e políticos foram grandes, como todo novo sistema de direitos e processos de produção carregam. O espanto é que esse momento de frescor que vivemos ali, reconhecido internacionalmente como eficaz contribuição para a radicalização da democracia, recebeu um forte freio de controle nos últimos quatro anos. Foram os ativistas culturais que mantiveram a causa e batalharam por ela no Congresso Nacional com ótimas estratégias de busca de aliados.

Um outro efeito, quase ainda não estudado, foi a forte influência positiva que aquele momento, aquele MinC, exerceu sobre municípios, gerando novas secretarias de cultura, departamentos e políticas para além das capitais.

O aprendizado que fica, mesmo nesse breve foco no assunto, é que uma instância de governo precisa ser um ator que inspira o debate, que age sobre as condições de produção. Se temos um ministério pouco catalisador, como guiar o desenvolvimento?

Falo isso tudo na condição de eleitor da Dilma, mesmo sem a alegria do voto, mas isso é assunto para o meu perfil nas redes sociais. Por ora, pego emprestado, com gosto dos Manuéis “Bandeira” e “de Barros”, o neologismo do então presidente Lula, que disse na mesma época que era preciso “desesconder a cultura”. Agora também é necessário desesconder o ministério.


*Publicado originalmente em O Globo, este texto é republicado em Outras Palavras com anuência do autor.

O impacto de Poesia Pau-Brasil

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Em 1924, meses após publicação do manifesto de Oswald, Paulo Prado antevê: acabou tempo da “eloquência balofa”, de imitar Europa decadente. Exigimos “outros poetas, outros versos”

Por Paulo Prado | Imagem Tarsila do Amaral, Morro da Favela (1925)

levante

Contam que houve uma porção de enforcados

E as caveiras espetadas nos postes

Da fazenda desabitada

Miavam de noite

No vento do mato

Oswald de Andrade, Poemas da Colonização

 

Com esse artigo do Paulo Prado, “Poesia Pau-Brasil”, escrito em 1924, procuramos avançar no percurso modernista e no entendimento da obra de Oswald de Andrade.

Evidentemente que não estamos desenvolvendo um traçado em linha reta, mecanicamente cronológico. Não teríamos meios, nem essa é nossa intenção. No entanto, procuramos organizar, de algum modo, esse universo modernista no que ele possui de requintado e multifário.

Apenas dois exemplos. O texto do Oswald, “Informe sobre o Modernismo”, escrito em 1945, foi uma maneira de pensarmos a semana de 22 e o modernismo, assim como já havíamos feito com a publicação de um longo ensaio de Mário de Andrade [aqui] e [aqui].

E tem mais. Precisaremos abordar ainda o polêmico tema da antropofagia, assim como os demais trabalhos do escritor, os trabalhos e obras de outros modernistas, como o próprio Paulo Prado, Villa-Lobos, Flávio de Carvalho e Raul Bopp. Mas não é só isso: existem as vanguardas, a relação do modernismo com as diversas práticas culturais e o modernismo hoje. Vamos aos poucos.

No presente artigo, destaca-se claramente a sua função de um documento histórico da experiência modernista. Além disso, nele antevemos algumas preocupações que o seu autor desenvolveria, mais tarde, em “Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira”.

Escrito quando da publicação do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil“, de Oswald de Andrade, o texto de Paulo Prado traz como um dos grandes eixos de discussão, o “problema do nacionalismo”, naquilo que diz respeito à construção de um pensamento modernista.

Mas existe a outra volta do parafuso. Nesse sentido, em que pese o problema da mentalidade colonial, que atravessa, segundo Paulo Prado, a evolução da “vida intelectual do Brasil”, a perspectiva histórica, que ora vivenciamos, nos coloca diante de uma outra questão igualmente sensível.

Conforme observa Pascoal Farinaccio, em seu estudo sobre a crítica literária na obra oswaldiana, há um “núcleo basilar de nosso Modernismo”1 que assimilou a cobrança nacionalista como “critério de aferição do valor artístico das obras”2. E isso em alguma medida está presente no texto do Paulo Prado.

Há ainda o tema da ausência de uma produção de crítica modernista em discrepância com a sua produção artística. Evidentemente que esse é outro motivo para tornar esse texto ainda mais significativo.

Por último, vale prestar atenção na preocupação do seu autor quanto à renovação dos modos de expressão, aliado à permanência do “mal da eloquência balofa” em nossa literatura. Esses dois aspectos podem ser compreendidos no célebre aforismo de que os tempos modernos não cabiam mais na tessitura dos sonetos. Assim, no início do século XX, estamos diante do canto novo nietzschiano. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60″)

1 Farinaccio, Pascoal. Serafim Ponte Grande e as Dificuldades da Crítica Literária. São Paulo: Ateliê Editorial: FAPESP, 2001, p. 29.
2 Idem, p.29

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Poesia Pau-Brasil

A poesia “pau-brasil” é o ovo de Colombo – esse ovo, como dizia um inventor meu amigo, em que ninguém acreditava e acabou enriquecendo o genovês. Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier da Place Clichy – umbigo do mundo — descobriu, deslumbrado, a sua própria terra. A volta à pátria confirmou, no encantamento das descobertas manuelinas, a revelação surpreendente de que o Brasil existia. Esse fato, de que alguns já desconfiavam, abriu seus olhos à visão radiosa de um mundo novo, inexplorado e misterioso. Estava criada a poesia “pau-brasil”.

Já tardava essa tentativa de renovar os modos de expressão e fontes inspiradoras do sentimento poético brasileiro, há mais de um século soterrado sob o peso livresco das ideias de importação. Um dos aspectos curiosos da vida intelectual do Brasil é esse da literatura propriamente dita ter evoluído acompanhando de longe os grandes movimentos da arte e do pensamento europeus, enquanto a poesia se imobilizou no tomismo dos modelos clássicos e românticos, repetindo com enfadonha monotonia as mesmas rimas, metáforas, ritmos e alegorias. Veio-lhe sobretudo o retardo no crescimento do mal romântico que, ao nascer da nossa nacionalidade, infeccionou tão profundamente a tudo e a todos. Com a partida para fora da colônia do lenço de alcobaça e da caixa de rapé de D. João VI, emigraram por largo tempo deste país o bom senso terra-a-terra e a visão clara e burguesa das coisas e dos homens.

Em política o chamado “grito do Ipiranga” inaugurou a deformação da realidade de que ainda não nos libertamos e nos faz viver num como sonho de que só nos acordará alguma catástrofe benfeitora. Em literatura, nenhuma outra influência poderia ser mais deletéria para o espírito nacional. Desde o aparecimento dos Suspiros poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, que os nossos poetas e escritores, até os claros dias de hoje, têm bebido inspirações no crânio humano cheio de bourgogne com que se embebedava Childe Harold nas orgias de Newstead. O lirismo puro, simples e ingênuo, como um canto de pássaro, só o exprimiram talvez dois poetas quase desprezados – um, Casimiro de Abreu, relegado à admiração das melindrosas provincianas e caixeiros apaixonados; outro, Catulo Cearense, trovador sertanejo, que a mania literária já envenenou. Foram esses, melancólicos, desalinhados e sinceros, os dois únicos intérpretes do ritmo profundo e íntimo da Raça, como Ronsard e Musset na França, Moeriken e Uhland na Alemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra, e Whitman nos Estados Unidos. Os outros são lusitanos, franceses, espanhóis, ingleses e alemães, versificando numa língua estranha que é o português de Portugal, esbanjando talento e mesmo gênio num desperdício lamentável e nacional.

O verso clássico:

“Sur des pensers nouveaux, faisons des vers antiques” está também errado. Não só mudaram as ideias inspiradoras da poesia, como também os moldes em que ela se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridículo. Descrever com palavras laboriosamente extraídas dos clássicos portugueses e desentranhadas dos velhos dicionários, o pluralismo cinemático de nossa época, é um anacronismo chocante, como se encontrássemos num Ford um tricórnio sobre uma cabeça empoada, ou num torpedo a alta gravata de um dândi do tempo de Brummel. Outros tempos, outros poetas, outros versos. Como Nietzsche, todos exigimos que nos cantem um canto novo.

A poesia “pau-brasil” é, entre nós, o primeiro esforço organizado para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de nossos dias, já outros iniciaram, com escândalo e sucesso, a campanha de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensável para a existência de uma literatura nacional. Um período de construção criadora sucede agora às lutas da época de destruição revolucionária, das “palavras em liberdade”. Nessa evolução e com os característicos de suas individualidades, destacam-se os nomes já consagrados de Ronald de Carvalho, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, não falando nos rapazes do grupo paulista, modesto e heroico.

O manifesto de Oswald, porém, dizendo ao público o que muitos aqui sabem e praticam, tem o mérito de dar uma disciplina às tentativas esparsas e hesitantes. Poesia “pau-brasil”. Designação pitoresca, incisiva e caricatural, como foi a do confetismo e fauvismo para os neo-impressionistas da pintura, ou a do cubismo nestes últimos quinze anos. É um epíteto que nasce com todas as promessas de viabilidade.

A mais bela inspiração e a mais fecunda encontra a poesia “pau-brasil” na afirmação desse nacionalismo que deve romper os laços que nos amarram desde o nascimento à velha Europa, decadente e esgotada. Em nossa história já uma vez surgiu esse sentimento agressivo, nos tempos turbados da revolução de 93, quando “pau-brasil” era o jacobinismo dos Tiradentes de Floriano. Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão étnica e protetora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova língua brasileira, que será como esse “Amerenglish” que citava o Times referindo-se aos Estados Unidos. Será a reabilitação do nosso falar quotidiano, sermo plebeius que o pedantismo dos gramáticos tem querido eliminar da língua escrita.

Esperemos também que a poesia “pau-brasil” extermine de vez um dos grandes males da raça – o mal da eloquência balofa e roçagante. Nesta época apressada de rápidas realizações a tendência é toda para a expressão rude e nua da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e sintética.

“Le poète japonais
Essuie son couteau:
Cette fois l’éloquence est morte.”

diz o haicai japonês, na sua concisão lapidar. Grande dia esse para as letras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia. Interromper o balanço das belas frases sonoras e ocas, melopeia que nos aproxima, na sua primitividade, do canto erótico dos pássaros e dos insetos. Fugir também do dinamismo retumbante das modas em atraso que aqui aportam, como o futurismo italiano, doze anos depois do seu aparecimento, decrépitas e tresandando a naftalina. Nada mais nocivo para a livre expansão do pensamento meramente nacional do que a importação, como novidade, dessas fórmulas exóticas, que envelhecem e murcham num abrir e fechar de olhos, nos cafés literários e nos cabarés de Paris, Roma ou Berlim. Deus nos livre desse esnobismo rastacuérico, de todos os “ismos” parasitas das ideias novas, e sobretudo das duas inimigas do verdadeiro sentimento poético – a Literatura e a Filosofia. A nova poesia não será nem pintura, nem escultura, nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconsciente. Como uma planta.

O manifesto que Oswald de Andrade publica encontrará nos que leem (essa ínfima minoria) escárnio, indignação e mais que tudo – incompreensão. Nada mais natural e mais razoável: está certo. O grupo que se opõe a qualquer ideia nova, a qualquer mudança no ramerrão das opiniões correntes é sempre o mesmo: é o que vaiou o Hernani de Victor Hugo, o que condenou nos tribunais Flaubert e Baudelaire, é o que pateou Wagner, escarneceu de Mallarmé e injuriou Rimbaud. Foi esse espírito retrógrado que fechou o Salon oficial aos quadros de Cézanne, para o qual Millerand pede hoje as honras do Panthéon; foi inspirado por ele que se recusou uma praça de Paris para o Balzac de Rodin. É o grupo dos novos-ricos da Arte, dos empregados públicos da literatura, Acadêmicos de fardão, Gênios das províncias, Poetas do “Diário Oficial”. Esses defendem as suas posições, pertencem à maçonaria da Camaradagem, mais fechada que a da política; agarram-se às tábuas desconjuntadas das suas reputações: são os bonzos dos templos consagrados, os santos das capelinhas literárias. Outros, são a massa gregária dos que não compreendem, na inocência da sua curteza, ou no afastamento forçado das coisas do espírito. Destes falava Rémy de Gourmont quando se referia a “ceux qui ne comprennent pas”. Deixemo-los em paz, no seu contentamento obtuso de pedra bruta, ou de muro de taipa, inabalável e empoeirado.

Para o glu-glu desses perus de roda, só há duas respostas: ou a alegre combatividade dos moços, a verve dos entusiasmos triunfantes, ou para o ceticismo e o aquoibonismo dos já descrentes e cansados, o refúgio de que falava o mesmo Gourmont, no Silêncio das Torres (das Torres de marfim, como se dizia).

Maio, 1924.