Para livrar a Educação da "Verdade Absoluta"

Aos poucos, Ciência aceita noção de que realidade não é única, mas intersubjetiva. Por que aprendizagem precisa manter-se cega a este avanço?

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Por Alex Bretas Vasconcelos | Imagem: M.C.EscherOlho (1946)

90% do que escrevo é invenção.

Só 10% é mentira

Manoel de Barros

Antônio amava Karina. Tanto que resolveu melhorar o mundo e levá-lo de presente para ela. Tendo amizade com o tempo, não seria complicado fazer uma viagem ao futuro para espionar quais eram as técnicas e os avanços que melhor serviriam para melhorar o mundo no presente. Foi o que ele fez. 25 anos depois, foi recebido com festa lá no futuro e começou a reparar e a perguntar como as pessoas estavam. Bateu a saudade de Karina, e Antônio rejuvenesceu. O tempo passou por ele ao contrário e, ao desembarcar de volta no presente, começou a contar às pessoas as histórias delas mesmas, só que adiantadas. Não se sabe o que de fato ele viu ou não no futuro, mas fato é que as histórias que Antônio compartilhava no presente faziam as pessoas despertarem. Brilharem os olhos. Firmavam-se, então, no propósito de buscarem aquela versão adiantada delas mesmas de que tanto gostaram.

Quando Antônio olhou no relógio, percebeu que os 25 anos já haviam chegado até ele novamente. Ao se virar 360 graus com a mão na testa, para não deixar o dia ensolarado atrapalhar sua vista, o que ele presenciou foi exatamente o que vira naquela breve passagem no futuro. As pessoas, a cidade, tudo respirava melhor e mais rejuvenescido do que antes. As histórias que contara acabaram sendo a técnica de que precisava para melhorar o mundo e entregá-lo mais avançado para Karina. Elas viraram verdade porque havia quem acreditasse nelas. Os olhos de Antônio, então, brilharam.

A jornada de Antônio que Adriana Falcão nos conta em A Máquina diz alguma coisa sobre a realidade. Ora, o que ele viu no futuro era realmente verdade? Ou talvez ele, danado que é, somente inventou histórias de um futuro promissor e as contou às pessoas? Essa questão deixa de ser tão importante quando toda a gente começa a acreditar no que Antônio dizia. As pessoas, pouco a pouco, vão criando suas realidades a partir do enredo profetizado. E, 25 anos depois, a autoestima daquela comunidade parece ter sido alterada drasticamente.

A compreensão sobre a realidade e a verdade é uma questão que acompanha a humanidade desde muito tempo. Filósofos, escritores, religiosos, gurus, e até mesmo reles mortais e alguns cientistas – estes, só mais recentemente – dedicam-se a explorar o tema. Não quero retomar todas essas visões, somente uma de que gosto muito.

Se eu percebo algo, é porque houve uma interação entre eu e o mundo. Entendo, então, que a percepção acontece de forma relacional (talvez não aconteça para quem não acredita que seja assim). A minha biologia condiciona – e não determina – o que sou capaz de captar a cada momento do ambiente e das pessoas. Meu sistema nervoso vive tudo como verdade a cada instante, só fazendo a distinção entre realidade e ilusão na comparação posterior entre experiências. O mundo passa a ser, assim, o meu mundo, que não deixa de ser nem um pouco real por isso.

Cena do filme “A Máquina”, baseado no livro homônimo.

Cena do filme “A Máquina”, baseado no livro homônimo.

Além disso, tem mais uma coisa: a cultura na qual estou imerso também interfere em como vejo meu mundo. Minhas crenças, meus valores, filosofia de vida, meus laços sociais, minha biografia, tudo isso contribui não apenas para moldar o que sou, mas também o que percebo com meus sentidos.

Biologia e cultura relacionando-se e condicionando o que distinguimos do mundo: trata-se da biologia cultural, um pensamento inaugurado por Humberto Maturana e Ximena Dávila – ele biólogo, ela epistemóloga – no início dos ano 2000.

Aqui, volto a pensar no caso de Antônio e nas histórias que ele contou às pessoas quando retornou do futuro. Por acreditarem no que ele disse, as crenças daquela gente mudaram e, assim, novas possibilidades de ação surgiram. Maturana também diz isso: as emoções – entendidas por ele como sensações corporais que antecedem a linguagem – condicionam nossos domínios de ação possíveis. Para aquela gente, uma emoção nova, de esperança, foi surgindo.

Que relações seria possível traçar entre essa visão de realidade e a aprendizagem? Se já existe uma compreensão a respeito da realidade intersubjetiva, por que continuamos com um modelo educacional pautado estritamente pela noção de verdade absoluta? Quando somos ensinados a venerar a tese evolucionista em detrimento do pensamento criacionista nas escolas, por exemplo, estamos sendo doutrinados pela lógica da objetividade. A ciência já compreende existir a possibilidade das múltiplas realidades – um ponto de partida poderoso para o reconhecimento da diversidade e horizontalidade de saberes –, mas lhe falta acreditar.

A crença de que cada um fala a partir de um lugar único, biológico e culturalmente, abre caminho para a forma de interação que mais acredita nesse pressuposto: o diálogo. Estou entendendo-o, aqui, como o tipo de conversa que permite o compartilhamento de experiências e o fluxo de significados, na linha do que a etimologia da palavra nos oferece: dia significa através de, e logos quer dizer sentido, palavra. Quando há conversação nas escolas e nas universidades, em geral o espírito é ou de discussão, em que é preciso chegar a uma conclusão, ou de debate, o qual pressupõe vencedores e perdedores. Se eu admito que cada pessoa representa uma oportunidade para ampliar minha compreensão sobre o mundo – isto é, aprender –, começo a entender a importância do diálogo para a educação.

Aprender num contexto de realidades múltiplas quer dizer não apenas compreender que cada pessoa é um mundo, mas também perceber que essas realidades refazem-se a todo instante. Reinventar percepções, assim como Antônio ajudou tanta gente a fazer, acaba tornando-se uma premissa. Na educação tradicional, a crença predominante é fundada num paradigma de escassez: como não há o suficiente para todo mundo, precisamos competir. Rigidez, provas, conteúdos e mais conteúdos goela abaixo, e até mesmo as aulas podem ser compreendidas como consequências dessa visão da realidade. Se é possível reinventar realidades, como seria se começássemos a perceber um mundo abundante, em que tem pra tudo mundo?

… 

O que Antônio viu no futuro era realmente verdade? Isso é material para as imaginações de cada um. De minha parte, fico com o poeta Manoel de Barros: “90% do que escrevo é invenção. Só 10% é mentira.”

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5 comentários para "Para livrar a Educação da "Verdade Absoluta""

  1. Jorge Llagostera disse:

    A realidade é uma só. A dificuldade é conhecê-la. O subjetivismo sempre foi oposto à ciência e não desiste. O relativismo procura insinuar que não existe realidade objetiva.

  2. Alex Bretas disse:

    Jorge, o que proponho no texto é a intersubjetividade, ou a objetividade entre parênteses, e não o subjetivismo.

  3. Mariana B disse:

    Legal o texto. Realmente, a cultura nos atravessa e tem peso sobre nossa percepção da realidade.
    Tendo a pensar, contudo, que sim os valores são absolutamente relativos, porém os fatos, não. Quanto aos fatos, a ciência, baseada não na verdade absoluta, mas nas proposições demonstradas logicamente, tem e deve ter peso relevante no ensino, por exemplo, com o ensino da teoria evolutiva darwiniana e não com o ensino criacionista, que é pura fantasia.
    Não queria ser chata, mas vou ser: “entre mim e o mundo”, e não “entre eu e o mundo”.

  4. Mariana, vamos brincar de ser chatos, então. 😉
    Valores não são absolutamente relativos, como você diz. Caso contrário, não poderíamos falar de valores humanos universais – que, de modos ora mais, ora menos desastrosos, todos buscamos, independentemente de cultura, tempo e lugar – como paz, amor, bondade, aceitação.
    Ao contrário dos valores, porém, como sublinhou Nietzsche, “não há fatos, apenas interpretações”. Basta estudar História e Filosofia da Ciência. O universo plano já foi “fato”. A Terra como centro do Sistema Solar já foi “fato”. A concepção planetária do átomo, nós mesmos estudamos na escola como “fato científico”. Incontestável. Mas não todos eles hoje nos parecem ingênuos: são apenas interpretações condicionadas pelos instrumentos (físicos e simbólicos) disponíveis, dentro do contexto de possíveis condicionado pelo tempo e lugar em que surgem tais interpretações. Absolutamente relativos, portanto.
    Tendo em vista a História da produção de conhecimento, é mais do que razoável supor que em alguns anos novas descobertas não nos levem apenas a mudanças incrementais no que hoje conhecemos, mas a alguma ruptura de paradigma que nos force a rever a maior parte dos nossos pressupostos sobre o que consideramos esta experiência de realidade. Imagino que não estamos longe disso; quando acontecer, todo um castelo de cartas de “fatos” desmoronará diante dos nossos olhos.
    Uma última observação: a ciência não se baseia apenas em proposições demonstradas logicamente – isso talvez esteja mais vinculado ao campo da Filosofia, não? Você se esqueceu da dimensão empírica como fundante na produção de conhecimento científico, além da abertura permanente à refutação (o que torna anti-científica a proposta de tratar como “fatos” o que se obtém através do método científico).
    Isso sem falar nos critérios de validação próprios ao campo das Ciências Humanas, onde desempenham papel crucial a Hermenêutica, a Observação Participante e… a validação intersubjetiva, sobretudo por pares.
    É assim que eu compreendo o convite do Alex neste texto, que me parece tão sensível: o tipo de educação que recebemos na escola está diretamente associado a uma concepção de conhecimento – e de realidade – que não se sustenta mais. O que chamamos de realidade não é algo fixo, uno e imutável, externo e independente de nós mesmos. Por que insistirmos, então, em uma modalidade de educação que se pretende única, e que, ao se impor como natural, nos imobiliza em um paradigma de escassez?

  5. Eunice disse:

    Isso é muito velho para quem percebe. E até já foi escrito antes.
    Mas nãoa é total. É uma parte mesmo.

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