Comer ou apenas nutrir-se? Eis a questão

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Alimentar-se e cozinhar não podem ser apenas atos “saudáveis”. Envolvem autonomias, escolhas culturais, atitudes diante do outro e do mundo

Por Juliana Dias, editora do site Malagueta | Imagem: Pieter Brueguel, O Casamento do Camponês, 1567

A abordagem da alimentação na escola não deveria se limitar a cultivar hábitos saudáveis, numa visão que coloca o alimento como nutriente e a responsabilidade nos ombros do sujeito que come. A escola é o lugar das interações sociais, produtora de sentido (CARRANO, 2009) e instituição cultural (PÉREZ, 1999). Portanto, é necessário ampliar os olhares para o valor da Alimentação Escolar. Esta é uma poderosa ferramenta para matar a fome de conhecimento, renovando o entendimento sobre a relação com a comida, afim de engajar e transformar pessoas, comunidades e sociedades.

Desde 2009, a Lei de Alimentação Escolar (11.947) oficializa o olhar cultural sobre o comer e inclui a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) no processo de ensino-aprendizagem, que deve perpassar o currículo escolar. Essa política pública estimula o respeito às tradições alimentares e à preferência alimentar local saudável; o desenvolvimento biopsicossocial; e amplia a presença de outros profissionais na escola, com proposta interdisciplinar e intersetorial. Também determina que ao menos 30% dos alimentos comprados para a refeição escolar venham da agricultura familiar local, preferencialmente produzidos de forma agroecológica ou orgânica.

TEXTO-MEIO

A esta legislação soma-se uma nova Resolução (Nº26 de 17/06/2013) do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Ela permitirá à escola colocar a comida no centro do debate sobre os desafios contemporâneos. O alimento passa a ser considerado “ferramenta pedagógica” para as ações de Educação Alimentar Nutricional, que deve ser “transdisciplinar, intersetorial, multiprofissional, de prática contínua e permanente” (art. 13). Nesse sentido, justifica-se a ampliação do significado desse aprendizado alimentar, em busca de uma articulação mais integrada com os membros da comunidade escolar e a sociedade civil.

Outro ponto importante da Resolução é estimular a formação de pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, com a alimentação na escola. Aqui, podemos considerar professores, inspetores, gestores, pais, entre outros. Dinamizar o currículo; promover metodologias inovadoras para o trabalho pedagógico; e estimular o desenvolvimento de tecnologias sociais, voltadas para o campo da Alimentação Escolar são algumas das recomendações. Falar de alimentação e escola, portanto, é olhar para o indivíduo e a sociedade.

O sociólogo francês Claude Fischler1 comentou que nos últimos anos tem se dedicado a pesquisas sobre alimentação no contexto escolar. Para ele, a sociedade depende da escola para a educação alimentar das crianças. Por isso, o tema está em alta nas pesquisas acadêmicas, em congressos científicos e debates com lideranças políticas internacionais, como a primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama; e a chef norte-americana, Alice Waters, idealizadora do projeto Edible Schoolyard, que influenciou diretamente o posicionamento de Michele neste campo. Trata-se de um novo tema de investigação e debates, que no Brasil está sendo estudada em diversas áreas de conhecimento. Fischler aponta que, antes, não comer era um problema; agora, configura-se num desafio diário e ameaçador.

Comer e conhecer estão entrelaçados no processo educativo para a vida, e na construção da cidadania. As palavras sabor e saber vêm da mesma fonte etimológica: sapere. Sabedoria (Sapientia) quer dizer conhecimento saboroso; e o sábio (sapio) é aquele que saboreia. Aprender tem gosto. Deve ser saboroso e com prazer. Por isso, há de se reconhecer a existência das intenções culinárias na busca pelo sentido da Educação em Saúde.

Saber o que se come diz respeito à identidade cultural, autonomia e consciência crítica para deliberar sobre o que se coloca no prato e participar das tomadas de decisões sobre o rumo do sistema alimentar moderno. É o caso, por exemplo, do debate sobre os transgênicos, pautado por controvérsias que colocam em xeque as implicações e compromissos entre ciência e democracia. O Brasil é o segundo maior produtor de transgênicos, Soja, milho e algodão modificados geneticamente ocupam 40,7 milhões de hectares, segundo estudo da consultoria Céleres2. Já o diálogo com a sociedade, sobre a positividade ou negatividade de seu uso,avança lentamente.

Buscar sentido em comer, cozinhar e compartilhar as refeições se faz urgente num tempo em que o indivíduo se sobrepõe ao coletivo e as refeições em casa são compartimentadas e herméticas, assim como as pedagogias que segmentam o conhecimento. Faz sentido acessar a memória gustativa para refletir sobre a contemporaneidade; convocar os poetas, educadores, artistas e literatos para ampliar a visão e os significados sobre o ato de se alimentar.

Para prosseguir nessa empreitada, é preciso resgatar o sentido das palavras educar e crítica. Educar vem do latim educare, que originalmente significava criar, nutrir, amamentar, cuidar. Depois, passou a significar instruir, ensinar. Educare também tem o sentido de ex-ductere (educere) que significa conduzir para fora, lançar, “tirar de dentro”, parir, produzir. Tais significados parecem completar-se demonstrando, por um lado, que para educar seria necessário alimentar, nutrir. Aquele que está sendo educado nutre-se de conhecimentos. Por outro, indica que este processo deve partir de dentro, sendo necessário ter fome e demonstrá-la (GARCIA, 2001, p. 95 e 96).

A tão desejada consciência crítica, da qual espera-se incutir nos aprendizes, também tem relação com o comer. Crítica deriva do grego krinein, que quer dizer julgar, separar, distinguir. Ora, o degustador profissional de comida ou vinho exerce a crítica. Ele não come indiscriminadamente tudo que lhe chega à mesa. Apenas prova. E ao corpo caberá fazer o julgamento e dar sua sentença: é bom ou ruim. O sabor tem sempre a palavra final, sob esse aspecto (ALVES, 2011, p.61). Trazendo essa ideia para o aprendizado, as informações que chegam aos aprendizes devem, da mesma forma, ser degustadas, ao invés de incorporadas, sem julgamento ou crítica.

A partir dos significados de educação, saber e crítica é oportuno propor uma associação entre o comedor biológico e o comedor cultural, tal como o sociólogo Claude Fischler definiu o homem onívoro. Assim, educar é nutrir, aspecto fisiológico e vital para a sobrevivência humana. Da mesma maneira, as disciplinas são elementares para o conhecimento escolar. Saber é descobrir sabores, característica social, construída pelo convívio entre alunos, professores, amigos e família, tal qual o ambiente escolar proporciona. Trata-se de um conhecimento que não está apenas no conteúdo. É apreendido na experiência saborosa da sociabilidade e do aprendizado com o cotidiano. Portanto, educar, saber e exercer um olhar crítico para o mundo não podem ser dissociados. Essa ligação inerente pode ser aquecida pelo sabor do conhecimento, escolar, científico e popular, além do calor do fogão.

Cozinhar é um exercício de autonomia e consciência de si, do outro e do mundo. Em novo livro, Cozinhar: uma história natural da transformação (Editora Intrínseca), o jornalista e ativista alimentar Michael Pollan, que tem investigado o modo como os norte-americanos se alimentam, conclui que encontrou resposta para suas inquietações na cozinha. Ela começa em questões particulares: como cuidar da saúde e bem-estar, e melhorar o relacionamento com o filho adolescente. Mas avança para temas políticos: por exemplo, qual seria a orientação mais importante para ajudar a mudar o sistema alimentar de um país, tornando-o mais saudável e sustentável. Outras questões são de ordem filsolófica: como compreender a relação do homem com o mundo natural. Foi à beira do fogão que suas perguntas foram sendo cozidas. Em entrevistas concedidas durante sua passagem pelo Brasil, em agosto, Pollan destacou que em 30 minutos dá para preparar uma boa refeição – não é complicado, nem pesaroso. Mas tem que praticar. O autor eitera em seus comentários que as refeições é que devem se encaixar nas agendas e não o contrário. Defende a cultura como ferramenta para conscientização. Mandar todo mundo para cozinha não é utopia – mas é revolucionário…

Ao refletir sobre as relações entre educar/nutrir, saber/sabor e crítica/degustação, o pensamento de Paulo Freire é pertinentem ao considerar que não se deve separar o cognitivo do emocional no aprendizado:

Estudamos, aprendemos, ensinamos e conhecemos (…) com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e com a razão crítica” (1998, p. 8).

Tendo em vista as demandas da Lei de Alimentação Escolar e uma reflexão a respeito da interseção entre alimentação e educação, busco apontar a sinergia entre esses dois campos. É vital estreitar e evidenciar os elos por meio da interdisciplinaridade, visando uma atitude transdisciplinar, considerar a memória, o afeto e os sentidos, seja no refeitório ou na sala de aula.

Referências bibliográficas

____BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Lei 11.947, de 16 de junho de 2009.

____BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Resolução Nº26 de 17 de junho de 2013.

____BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Marco de referência de educação alimentar e nutricional para as políticas públicas.

CARRANO, Paulo César Rodrigues. Identidades Culturais juvenis e escolas: arenas de conflitos e possibilidades. Diversia, Nº1, CIDPA Valparaíso, Abril 2009, pp. 159-184.

FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro – El gusto, lacocina y elcuerpo. Editora Anagrama: Barcelona,1995.

FREIRE, Paulo. Professora sim, Tia não: Cartas a quem ousa ensinar. Editora Olho d’ água, São Paulo, 1998.

GARCIA, M. A. A. Saber, agir e educar: o ensino-aprendizagem em serviços de saúde. Rev. Interface – Comunicação, Saúde e Educação. v.5, n.8, p.89-100, 2001.

PÉREZ, G. A. La cultura escolar em la sociedad neoliberal. Madrid. Ed. Morata, 1999.

POLLAN, M. Cozinhar: uma história natural da transformação. Trad.: Cláudio Figueredo. Ed. Intrínseca: Rio de Janeiro, 2014.

1Comunicação oral durante o I Congresso Comer en la Escuela, realizado em Barcelona, na Espanha, em maio de 2012

2Matéria “Área com transgênicos no país deve crescer 25,8% nos próximos dez anos”, publicado em 31/01/2014, disponível em http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=4&cid=187288.

TEXTO-FIM
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Juliana Dias

editora do site “Malagueta – palavras boas de se comer” (www.malaguetanews.com.br), mestre em Educação em Ciências e Saúde pelo NUTES/UFRJ, e doutoranda em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia, na UFRJ. Pesquisa sobre alimentação, cultura e sociedade, tendo como eixo as áreas da educação e comunicação. É co-líder da associação Slow Food, no Rio de Janeiro, e membro do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea-Rio).