Por que o MTST volta às ruas esta tarde

Sem-teto manifestam-se na Praça da Sé, em junto de 2014

Sem-teto manifestam-se na Praça da Sé, em junto de 2014

Manifestação em São Paulo denuncia perseguições da mídia e Ministério Público contra sem-teto. Movimento articula ações com jornalistas independentes. “Outras Palavras” participa e convida leitores

Por Antonio Martins

Cada vez mais conhecido, desde o fim do ano passado, pela intensa mobilização que promove nas periferias das metrópoles, em favor do Direito à Cidade, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) promete lançar mais uma inovação política esta tarde. A partir das 17h, sem-teto de São Paulo (fala-se em milhares…) irão se concentrar no vão livre do MASP — Avenida Paulista. Desta vez, não protestarão contra um governante, nem apresentarão uma pauta de reivindicações específica. Promoverão um “ato-debate”. Querem tornar explícita sua indignação diante da velha mídia e do Ministério Público — que os tratam com preconceitos e tentam criminalizá-los. Estarão presentes, entre muitos outros, a arquiteta Ermínia Maricato, o juiz Jorge Souto Maior, o professor de filosofia Paulo Arantes, a Associação dos Juízes pela Democracia, a candidata à Presidência Luciana Genro (PSOL) e os deputados Renato Simões e Adriano Diogo (PT).

Como o MTST tornou-se capaz de mobilizar os sem-teto para temas políticos sofisticados — como a crítica à mídia e aos promotores? É algo que merece ser examinado em profundidade, mas algumas pistas parecem claras. O movimento tira forças de um ânimo novo nas periferias. Segundo Guilherme Boulos, um dos coordenadores da organização, as franjas das metrópoles passaram a reagiram com força, após junho de 2013, à especulação imobiliária e suas consequências. Disseminaram-se as ocupações de terrenos vazios (veja entrevista abaixo). O movimento parece ter desenvolvido tecnologias sociais que dão organicidade a estas iniciativas e, em especial, sentido de pertencimento aos que nelas se envolvem. Isso cria um ambienta favorável à politização. Durante a votação do Plano Diretor de São Paulo, no primeiro semestre deste anos, os sem-teto mobilizaram-se muito mais que a parcela culturalmente avançada da classe média. Exigiram da Câmara Municial a aprovação e avanços reais na lei (1 2)

A emergência de um novo protagonismo nas metrópoles, de sentido rebelde e alternativo, incomodou os conservadores. A mídia não se conforma com a ação política dos “de baixo” e “de fora”. Uma sucessão de matérias censura os sem-teto por… não viverem permanentemente nas áreas que ocupam. É como se, para exigir, o Direito à Cidade, as maiorias precisassem passar antes por um ritual de sacrifício prolongado — enquanto alguns jornalistas colhem migalhas oferecidas pela oligarquia… A ação do Ministério Público é ainda mais indisfarçada. Reportagem do SpressoSP mostrou, há alguns dias: os mesmos promotores que atam os sem-teto protegem as grandes empreiteiras.

Outra novidade do MTSE é não se limitar à denúncia. O movimento tem multiplicado contatos com coletivos da mídia alternativa. Jornalistas e produtores de vídeo aproximam-se para documentar suas ocupações. Será possível produzir, a partir de tantos fatos novos gerados nas ocupações, uma nova narrativa sobre as lutas por moradia e pelo Direito à Cidade? Além de descrever fatos óbvios, como manifestações semelhantes às de hoje, seria possível contar a história das ocupações, do contexto que as estimula, dos personagens que se envolvem, das políticas que produzem exclusão urbana e das alternativas para enterrá-las?

Outras Palavras lança um desafio aos leitores — em especial, jovens jornalistas, outros profissionais e estudantes. Que tal organizarmos uma cobertura permanente das ações dos sem-teto. O site dispõe das técnicas e tecnologias para fazê-lo — mas não dos recursos humanos necessários para tanto. Interessados em se envolver com o tema podem enviar comentários a este post…

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