Vacinas: otimismo de autoridades não bate com calendário das pesquisas

Vacinas de Oxford e da Sinovac devem permanecer em testes no Brasil até final de 2021. Pfizer só prevê estudo pronto em 2022. Mas governos prometem imunizante já em janeiro…

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O governador de São Paulo João Doria (PSDB) informou ontem que o Instituto Butantan foi procurado pelos russos, mas respondeu que não houve interesse uma vez que já existe uma parceria firmada com o laboratório chinês Sinovac. “O instituto já está totalmente empenhado na pesquisa da CoronaVac” reforçou o governo, em nota. “Por isso, não faria sentido participar de uma outra pesquisa com o mesmo objetivo e dividir seus esforços“, continua o texto.

Na segunda-feira, a Sinovac disponibilizou os resultados dos ensaios clínicos da fase 2 da sua candidata (mas ainda não houve revisão de pares). Entre 29 de abril e 5 de maio, 600 pessoas na China com idades entre 18 e 59 anos receberam doses da CoronaVac ou placebo. De acordo com o preprint, a tecnologia produziu anticorpos suficientes contra o vírus e se comprovou segura, com as reações adversas se resumindo a dor no local da injeção.

Por aqui, o Butantan iniciou testes da fase 3 da vacina em 21 de julho. Já estão em marcha em dez dos 12 centros de pesquisa selecionados. Os estudos só não começaram no Hospital Albert Einstein e no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, unidade da Fiocruz localizada no Rio de Janeiro. Mas até outubro, todos os nove mil voluntários devem receber as doses da vacina ou do placebo no Brasil.

Ontem, o presidente do instituto voltou a dizer que “é factível” que São Paulo comece a vacinar em janeiro. “Tem muita gente dizendo que é otimismo demais. Isso pode ser relacionado a outras vacinas, não a essa”, afirmou Dimas Covas à Folha. E o governo do estado está preparando a compra de dez milhões de seringas para dar conta desses planos.

Só que a Piauí mostra que alguma coisa não bate nesse calendário, já que o próprio Butantan prevê examinar o último participante da fase 3 em… outubro de 2021. “É a mesma data prevista pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford para terminarem os testes de sua vacina no Brasil. O terceiro laboratório que testa a sua droga no Brasil, a Pfizer, prevê completar o estudo em novembro de 2022”, lista a repórter Camille Lichotti, mostrando que entre o otimismo vendido à população por governantes e autoridades e os dados concretos há uma distância considerável.  Acompanhar os testes até o fim é uma das exigências para demonstrar a eficácia das candidatas. E todas elas já estão reduzindo os prazos normais da fase 3 em anos. 

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