Anvisa ficou de fora de decisão sobre cloroquina

Documento da agência mostra que ela não foi ouvida nem avaliou recomendações do governo sobre cloroquina

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Pouco depois que o Ministério da Saúde publicou suas orientações sobre o uso precoce da cloroquina e da hidroxicloroquina, o TCU deu dez dias para que a pasta e a Anvisa explicassem o que havia embasado a decisão. Mas só ontem, depois de O Globo conseguir os documentos enviados pela Anvisa via Lei de Acesso à Informação, um grave (mas não inesperado) problema foi exposto: a agência afirma que não foi consultada nem avaliou previamente as novas recomendações. Diz ainda que não avaliou o uso off-label (para indicações não previstas na bula) dos medicamentos, e que, especificamente para a covid-19, nunca avaliou sua segurança e eficácia. 

Quando as orientações do Ministério foram publicadas, em maio, chamou a atenção o fato de estarem em desacordo com a nota técnica divulgada pela Anvisa no dia 20 de março. Nela, o órgão dizia ter feito uma revisão sistemática da literatura científica, e ressaltava que a indicação dessas drogas para a covid-19 só deveria acontecer depois da realização de estudos mais aprofundados. Após a franca liberação dos remédios pelo governo federal, a agência reafirmou que os estudos existentes eram inconclusivos. 

O documento recém-descoberto comprova que o Ministério deliberadamente passou por cima da Anvisa. “É extremamente perigoso que a Anvisa não tenha sido incluída neste processo. Ela deveria ter sido consultada desde o início, afinal, é uma das principais agências reguladoras do país e tem pessoal qualificado. Além disso, o fato de ela não ter avaliado a segurança do uso da cloroquina contra a covid-19 mostra o risco que estamos correndo ao recomendar essa substância”, diz, no jornal, a presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia do Rio de Janeiro, Tania Vergara. A Anvisa não se manifestou.

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