Saúde: os três meses do ministro Mandetta

Até agora, poucas ações concretas e muita proximidade com hospitais filantrópicos. Leia também: brasileiros querem que Estado diminua desigualdades sociais; o comércio mundial de lixo; e muito mais.

Imagem: Rodrigo Nunes / MS

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TRÊS MESES DE MANDETTA

Folha fez um resumo das principais ações do Ministério da Saúde nestes quase cem dias de governo. Na realidade, o que se destaca mesmo são as ‘não-ações’. Por enquanto, muita coisa está apenas em um (ainda nebuloso) plano das intenções: a reformulação do Mais Médicos, o projeto para melhorar a cobertura vacinal e a construção de um novo modelo de equipes de atenção básica, com o terceiro turno de atendimento. Um dos poucos anúncios do período foi a controversa reorganização dos hospitais federais do Rio de Janeiro, incluindo a oferta de cargos a militares. 

A agenda do ministro, Mandetta, está concentrada em atendimento a parlamentares e na aproximação com hospitais filantrópicos e entidades médicas, como o Conselho Federal de Medicina. 

Ele não atendeu as pedidos de entrevista, mas a reportagem ouviu pesquisadores que avaliaram o caminhar da pasta. Mário Scheffer, da USP, teme que o tal terceiro turno nas unidades de saúde não chegue a se concretizar, por falta de condições de as prefeituras financiarem. Ele ainda criticou a campanha de HIV no Carnaval, que propositalmente não se dirigiu à população LGBT. A presidente Abrasco, Gulnar Azevedo, comentou que a criação de uma Secretaria de atenção básica pode significar uma positiva priorização desse nível, mas ao mesmo tempo “o que estamos vendo é e o desmonte de políticas essenciais” (ela se referia às ameaças na saúde indígena e o fim do Mais Médicos).

A QUEDA DO OTIMISMO

Mais uma pesquisa mostrou a queda na popularidade de Jair Bolsonaro. O Datafolha registrou a pior avaliação após três meses de governo entre todos os presidentes eleitos desde 1985. Hoje, 30% consideram o seu governo  ruim ou péssimo, 32% consideram ótimo ou bom e 33% acham que é regular. Mas 59% dos entrevistados ainda acreditam que ele vai fazer uma gestão ótima ou boa (antes da posse, eram 65%). Os que mais aprovam Bolsonaro são os brancos, enquanto pretos e pardos são os que mais desaprovam. Evangélicos seguem entusiasmados. 

Primeiro, o presidente disse que não comentaria os resultados, mas depois foi falar disso nas redes sociais. No Twitter, riu (“kkkk”) do trecho da pesquisa que aponta que 39% dos entrevistados o consideram pouco inteligente. 

APLAUSOS

O general Mourão foi mais bem avaliado do que Bolsonaro (18% de reprovação), mas ao mesmo tempo é desconhecido por 59% dos entrevistados. De todo modo, o vice, que tem se apresentado desde o começo como a versão moderada do presidente, foi aplaudido de pé várias vezes em Harvard, ontem. As palmas faltaram, porém, quando o assunto foi saúde. Após uma pergunta sobre os planos para a área, já que o Mais Médicos tem vagas ociosas e há doenças avançando, o general foi sucinto: não falou nada do Mais Médicos, e ainda disse que o retorno do sarampo é culpa dos venezuelanos. Em outro momento, falando sobre as mudanças climáticas, afirmou que não se sabe se elas são realmente fruto da ação humana ou se podem vir de um processo natural. “Não!”, gritaram várias pessoas na plateia, discordando. As informações são da BBC.

PRIORIDADES

Saíram ainda os resultados de outra pesquisa do Datafolha, feita com a Oxfam, medindo a percepção sobre a desigualdade no Brasil. Quase todo mundo (86%) acha que o progresso está ligado à redução das desigualdades, 94% acham que os impostos devem ser usados para beneficiar mais pobres e 77% defendem o aumento de impostos para pessoas muito ricas

Boas notícias: aumentou o percentual de pessoas que percebem como as questões de gênero e raça influenciam trabalho, rendimentos, justiça. E mais gente considera que o Estado tem a obrigação de diminuir a disparidade entre muto ricos e muito pobres: 84% dos entrevistados, contra 79% em 2017. 

Os entrevistados ainda tiveram que dar notas para dez medidas prioritárias para reduzir desigualdades. Em primeiro lugar ficou o combate à corrupção, seguido por investimento público em saúde e em educação. Quanto às prioridades que levariam a uma melhora de vida, a “fé religiosa” foi o aspecto mais citado. Só em seguida vieram “estudar” e “ter acesso à saúde”. Cultura e lazer ficaram no fim da lista. 

LIXO EM TRÂNSITO

Exite toda um fluxo mundial de lixo ignorado pelo grosso das populações. Existe ainda uma face suja da reciclagem que escapa ainda mais aos nossos olhos. A Deutsche Welle põe luz sobre esses dois aspectos numa matéria que fala da crise internacional criada depois de a China decidir parar de comprar lixo para reciclar. Até 2017, o país importava mais de metade do lixo plástico do mundo, e uma boa parcela dos resíduos de papel. Mas, com o crescimento do consumo, já desenvolve sistemas de coleta e produz lixo suficiente para abastecer suas usinas de reciclagem. Noutros cantos, onde não há capacidade para reciclar ou onde o consumo ultrapassa essa capacidade, criou-se um grande problema – e países como Malásia, Vietnã e Índia, com pouco ou nenhum controle e fiscalização, tornaram-se novos importadores. Só que o processo nas usinas está longe de ser limpo e sustentável, até porque, no caso do plástico, ele não é 100% reciclável: a incineração gera uma fumaça tóxica que se dissipa e adoece moradores.

REFUGIADOS

Temos acompanhado as notícias de pessoas removidas de suas casas por estarem em áreas de risco de rompimentos de barragens. Esta semana o Estadão ouviu algumas das 748 pessoas realocadas pela Vale em Minas Gerais, e outras de Pinheiros, um bairro nobre de Maceió que corre o risco de afundar e que 19 mil pessoas estão sendo obrigadas a desocupar. No primeiro caso, a mudança na vida é ainda mais brusca: gente que plantava, criva porco e galinha, mora por tempo indefinido em apart-hotéis na capital mineira. No segundo, ninguém sabe ainda as causas para o risco de desabamento dos imóveis – no ano passado, um tremor de terra provocou fissuras e afundamento do solo, mas o porquê é desconhecido. Há quem não acredite no risco e não queira sair de casa. 

SISTEMA S

Desde que Paulo Guedes anunciou cortes no Sistema S, as entidades vinculadas ao comércio e serviços estão se mexendo para evitar que eles de fato aconteçam. A avaliação é de que, com os cortes, 20 mil alunos perderiam suas vagas nas escolas Sesc, e mais de 200 escolas seriam fechadas; na saúde, havia redução de 700 mil atendimentos odontológicos e 400 mil pessoas deixariam de receber doações de alimentos. A matéria da Folha fala da corrida em direção a governadores, deputados federais e senadores para parar o ministro, e mostra o quanto essas entidades próximas da política. “A gente já tem um alinhamento porque ele já presidiu a federação da indústria em Mato Grosso”, disse o presidente da Confederação Nacional do Comércio, José Roberto Tadros, sobre o governador Mauro Mendes, do DEM. Enquanto isso, Guedes emplacou um aliado na presidência do Conselho Nacional do Sesi e, no Sebrae, o governo busca destituir o atual presidente, João Henrique de Sousa, que chegou ao comando pelas mãos de Temer.

SEM PARAR

O fato de que o novo governo aprova registros de agrotóxicos o tempo inteiro está chamando muita atenção. E o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), ex-ministro da Saúde no governo Dilma, fez um projeto de decreto legislativo para sustar  os atos de 2019 do Ministério da Agricultura. Para pressionar a casa, o deputado abriu uma petição eletrônica para as pessoas dizerem se concordam ou não com o decreto. Foi entrevistado pela Agência Publica .

NEM COM MODERAÇÃO

Um estudo publicado no Lancet  afirma que beber, mesmo moderadamente, pode aumentar a pressão arterial e o risco de AVC. Foram acompanhados 500 mil adultos chineses durante 10 anos e, segundo os pesquisadores, os resultados fornecem a evidência mais segura sobre os efeitos do álcool.  Mas outros cientistas, entrevistados pela BBC, apontam limitações da pesquisa. Como o fato de se concentrar em chineses e no consumo de cerveja e destilados, e não em vinho, por exemplo. 

SEM CONFLITO

A Funai informou na sexta que fez sua maior expedição em 20 anos para contatar índios isolados. Normalmente o contato é evitado, mas às vezes a aproximação é necessária. Nesse caso, foi para evitar um conflito entre indígenas das etnias Korubo do rio Coari, em situação de isolamento voluntário, e Matis, em contato com outros grupos desde os anos 1970. A expedição começou em março e a equipe contou com 30 pessoas, entre indigenistas e indígenas. O resultado foi bom, pacífico e com reencontro de familiares.

METRALHADOS

No Rio de Janeiro, militares do Exército abriram fogo contra um carro onde estavam um casal, o pai da mulher e duas crianças. Foram pelo menos 80 tiros. O motorista e uma pessoa que passava pelo local morreram. Já em SP, em um ano aumentaram 46% as mortes por policiais militares. 

ANIVERSÁRIO

Ontem fez um ano que Lula foi preso. Houve manifestações em várias cidades, tanto por “Lula Livre” como “pró Lava Jato”. Em São Paulo, houve agressões a apoiadores do ex-presidente. 

DIA DA SAÚDE

O Dia Mundial da Saúde, comemorado ontem, teve mais uma vez seu tema (“Saúde para todos, em todos os lugares”) baseado na complicada ideia de cobertura universal. Por aqui, o governo adotou o tema “imunização e vacinação”.

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