Mais Médicos: em três meses, 1.052 desistências

Número de médicos que deixaram o programa surpreende, mesmo considerando a tradicional alta taxa de evasão de basileiros. Leia também: governo praticamente acaba com sensores de velocidade nas estradas; Academias francesas rechaçam homeopatia; e muito mais

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PIOR DO QUE SE ESPERAVA

Desde que Cuba saiu do Maís Médicos, o alerta vinha sendo feito: a taxa de desistências dos brasileiros é alta e o número animador de inscrições nas duas rodadas de seleção não queria dizer muita coisa. Pois a quantidade de médicos que já saíram do Programa conseguiu superar as expectativas. Segundo a reportagem de Natália Cancian na Folha, foram pelo menos 1.052, ou 15% dos 7.120 que assumiram desde dezembro. O tempo de permanência dos desistentes variou de uma semana a três meses. Nos últimos anos, a média era de 20% de saídas em até 12 meses.  

O cenário fica ainda pior quando se lembra que o ministério da Saúde já anunciou que não vai mais abrir vagas nos atuais moldes. Existe uma reformulação do programa em pauta, mas ainda não se sabe exatamente o que vai ser feito, muito menos quando haverá novas contratações. A pasta disse em nota que as vagas “poderão ser ofertadas em novas fases do provimento de profissionais ainda em análise”. Os gestores ouvidos por Cancian estão preocupados, com razão. 

Os principais motivos para a saída dos médicos foram a busca por outros locais de trabalho e por cursos de especialização e residência médica. As cidades mais afetadas são aquelas em que mais de 20% da população vive em extrema pobreza. Vieram delas 31% das desistências. Mas em segundo lugar estão capitais e regiões metropolitanas (com 20% do total).  Mauro Junqueira, representante dos secretários municipais de saúde, notou que as vagas do Mais Médicos nas cidades grandes em geral estão em bairros pobres e violentos. Já Mário Scheffer (USP) lembrou ainda que, nelas, há mais vagas de trabalho para as quais esses médicos podem ter migrado. 

ACIDENTES VÃO AUMENTAR

Mais uma não-surpresa: Jair Bolsonaro decidiu cancelar a instalação de novos radares e rever a manutenção dos que já existem. Quer pôr fim ao que chama de “indústria da multa”. Com isso, praticamente vai acabar com a rede já existente, informa o Globo. De acordo com a reportagem, o sistema de fiscalização eletrônica já encolheu de 5,5 mil pontos ativos, em julho de 2018, para cerca de 440 até março deste ano, em 52 mil quilômetros de vias administradas pela União. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes considera que a presença dos radares contribuiu para redução de 24,7% no número de mortes nas vias federais entre 2010 e 2016. A quantidade de acidentes caiu 47%. 

TEMPO FECHADO

É até difícil descrever a audiência de ontem na CCJ da Câmara, onde Paulo Guedes foi falar sobre a Reforma da Previdência. Rodrigo Maia o apoiou. O ministro perdeu as estribeiras, bateu boca com todo mundo, deputados do PSOL levantavam cartazes de “Reforma pra banco lucrar”, Guedes disse que “tem que internar” quem não concorda com a reforma, enfim, uma confusão que terminou com o ministro sendo chamado de tigrão para aposentados e tchutchuca para privilegiados e retrucando que tchutchuca é a mãe.

Bolsonaro, cuja capacidade de articulação tem se mostrado sempre duvidosa, vai se reunir hoje com dirigentes de cinco partidos (PRB, PSD, DEM, MDB e PP) para negociar apoio das legendas. O El País nota que todos os dirigentes em questão são ou foram investigados em operações policiais. 

Enquanto issoavança a tramitação do Orçamento impositivo.  

A CRISE VENEZUELANA

A ONG Human Rights Watch divulgou ontem um relatório sobre a crise da saúde na Venezuela, feito com pesquisadores da Universidade Johns Hopkins. Pede que a ONU seja mais enfática ao expressar a necessidade de deixar países e organismos estrangeiros entrarem com comida e medicamentos – e de fornecer dados oficiais sobre doenças, epidemiologia, segurança alimentar e nutrição.  Como o governo não fornece estatísticas confiáveis há algum tempo, o documento se baseou em entrevistas de profissionais de saúde. Mas mesmo as informações do governo são alarmantes. A mortalidade materna, por exemplo, aumentou 65% desde 2015, e a infantil subiu 30%. Segundo as estimativas, 7 milhões de pessoas precisam imediatamente de atenção médica e comida. Segundo a matéria da Folha, a ONG não pretende tratar a questão de forma política (“Não faz diferença nesse caso quem seja a autoridade no comando”, diz uma pesquisadora, na Folha). Difícil. 

É UM DIREITO

No mês que antecede a Conferência Nacional de Saúde Indígena, o jornalista Adriano de Lavor, da Radis, publicou uma longa entrevista com Joênia Batista de Carvalho, a primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal. Preocupada com as posições do Ministério da Saúde para a área, ela fala também sobre as demarcações. “Ameaçar os preceitos constitucionais, como por exemplo dizer que os indígenas devem ser integrados à sociedade não-indígena para poder exercer seus  direitos, no sentido de achar que a demarcação de terras indígenas não é um direito, mas pode ser flexibilizada ou relativizada, coloca em risco não somente a questão das terras, mas também a garantia dos direitos sociais relacionados à terra. A saúde é um efeito disso”.

IRMÃ RICA

Há pouco tempo a FDA (tipo a Anvisa dos EUA) aprovou um novo remédio para depressão, o Spravato, que tem sido apontado como revolucionário para pacientes que não melhoram com duas ou mais tentativas com medicações diferentes. Em coluna do Estadão, Daniel Martins de Barros faz alguns questionamentos e levanta um ponto bem interessante. O princípio ativo do Spravato é a esketamina. Mas outra substância, a ketamina, “já demonstrou efeitos antidepressivos em até mais estudos do que a primeira”. Por que não foi ela a ser liberada? Segundo Barros, a esketamina é patenteada pela Janssen Pharmaceuticals, que tem muito a lucrar com a aprovação. Já a ketamina, sua “irmã pobre”, não tem patente. Portanto, nem lobby.  

CONTRA A HOMEOPATIA

As Academias Nacionais Francesas de Medicina e Farmácia publicaram um comunicado conjunto pedindo o fim da homeopatia na saúde pública e nas universidades, por não haver evidências científicas que atestem sua efetividade. Franceses costumam usar bastante remédios homeopáticos. No Questão de Ciência, o jornalista Carlos Orsi resume e explica a posição: “O documento afirma que o uso de homeopatia ‘não viola a ética ou as boas práticas’, desde que não leve ao adiamento de um diagnóstico ou do início de uma terapia eficaz, e desde que o médico saiba que está prescrevendo um placebo ‘para ganhar tempo’, e nada mais. ‘Não é aceitável usar a homeopatia como uma ‘medicina alternativa’ em outras situações’, pontifica”.  

MUNDO DESCONHECIDO

Pesquisas sobre remédios frequentemente não incluem mulheres grávidas e que estão amamentando. Isso significa que há pouca informação sobre o que oferece ou não perigo aos fetos e bebês, nem sobre como as mudanças hormonais nas mulheres nesses períodos deveriam afetar as doses recomendadas. O problema é trazido à tona num artigo publicado no News England Journal of Medicine. Existe uma base de dados nos EUA chamada LactMed com estudos sobre medicação durante o aleitamento, mas, segundo os autores do artigo, só 2% das suas recomendações são baseadas em dados robustos. “Não é dada atenção a isso. As mulheres precisam simplesmente descobrir por si próprias”, diz, no Stat, uma das autoras, referindo-se à segurança e eficácia dos medicamentos.  

MOTIVO INTERESSANTE

As mortes por câncer de próstata se estabilizaram ou diminuíram em dezenas de países neste século, segundo levantamento da Sociedade Americana do Câncer. A maior queda foi registrada nos EUA, e o mais interessante é a provável razão para isso: é pelo uso cada vez menor do uso do exame de PSA para diagnosticar a doença. Esse teste identifica muitos tumores benignos e produz falsos positivos demais; além disso, alguns cânceres de próstata não são agressivos e nunca chegam a crescer o suficiente para representar algum risco.  

MORRENDO PELA BARRIGA

Pesquisadores analisaram a dieta de pessoas em 195 países e estimaram o papel de dietas pobres nutricionalmente no risco de morte por problemas como doenças cardíacas, alguns cânceres e diabetes. Mostraram que a alimentação ruim é fator de risco para mortes na maior parte do mundo, e inclusive mata mais do que o tabaco. O estudo foi publicado no Lancet.

TRABALHO ESCRAVO

Saiu a última “lista suja”, divulgada ontem pelo Ministério da Economia, com 48 novos empregadores. A Animale, marca de roupas de luxo, subcontratou bolivianos que trabalhavam mais de 12 horas e dormiam nas oficinas, com as baratas. O produtor do café Fazenda Cedro, que tem selos de boas práticas de certificadoras internacionais, tinha trabalhadores com jornadas exaustivas e condições de higiene degradantes nos alojamentos.  

NO GERAL

Brasil de Fato fez as contas de quantos agrotóxicos foram liberados desde o impeachment de Dilma: 1,2 mil. O gráfico que mostra a evolução desde 2005 merece uma olhada.  

BRUMADINHO

Uma juíza determinou ontem que a Vale comece a pagar imediatamente a pensão aos parentes de empregados mortos ou desaparecidos no desastre e que custeie o tratamento médico e psicológico dos sobreviventes e seus dependentes.  

SUPEROU

O número de casos de sarampo nos EUA nesses três primeiros meses de 2019 já superou o número total do ano passado. 

MORTOS POR SUJEIRA

Ontem falamos dos dados da OMS afirmando que 25% das unidades de saúde do mundo não têm saneamento básico. A Folha ressalta um ponto especialmente preocupante: mais de 900 mil recém-nascidos morrem todo ano por causa disso. 

SERIA UM RECORDE?

Na entrevista à Record em que criticou a metodologia do IBGE para calcular o desemprego, Jair Bolsonaro falou três informações erradas em menos de um minuto. Ironicamente, foi no dia 1º de abril.  

AGENDA

Com o Dia Mundial da Saúde se aproximando (7/4), amanhã tem um evento da OPAS em Brasília sobre a importância da Atenção Primária paa a sustentabilidade do SUS. Será realizada uma roda de conversa e o lançado o Prêmio APS Forte, e o evento vai ser transmitido pelo site do Datasus. 

E o prazo para submeter resumos para o  Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária da Abrasco é 6 de maio

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