Sem respostas, sem estratégia

Governo federal não têm recomendação ou estratégia para que estados garantam isolamento de novos infectados e rastreio de contatos

Foto: Gilson Machado / Prefeitura de Campinas

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 15 de junho. Leia a edição inteira.
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Prestes a completar um mês como ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello defendeu em entrevista à CNN que fazer a “triagem” da população é mais importante do que manter o isolamento social. “Se na triagem for detectado que ele está com risco de covid, tem que ir para um médico. Tem que ter triagem no mercado, no hospital etc, para aferir temperatura, oxigenação, a pressão, ver se tem ou não característica que ele deve ir ao médico”. Não consta que a pasta tenha dado alguma orientação, inclusive em termos de logística, para estados e municípios em relação a isso. “Se usar de maneira correta, a capacidade de montar uma triagem é muito simples. Precisa compreender a necessidade de fazer uma triagem robusta e rápida”, completou ele, vagamente.

Sabemos que as reaberturas econômicas estão em curso, ainda que a maior parte do país não saiba direito quantos casos possui. Em alguns locais, como Manaus, a trégua da epidemia é observada pela queda do número de enterros. A taxa de ocupação de leitos de UTI também é usada como parâmetro para as flexibilizações, embora possa estar ligada à abertura de leitos, e não à redução dos casos. O número de internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) é outro parâmetro. Esses indicadores, porém, são sempre um espelho do passado, já que só mudam dias ou semanas depois que o contágio aumenta ou diminui.

Mas a população saiu do isolamento bem antes de os governos flexibilizarem suas medidas. Em São Paulo, o primeiro dia de reabertura de lojas foi marcado por grande movimento nas ruas, e mesmo assim a taxa de isolamento ficou no mesmo patamar observado nas semanas anteriores – um pouco abaixo de 50%.

Até onde sabemos, o governo federal não tem nenhuma recomendação ou estratégia em relação a como garantir o isolamento de novos infectados e o rastreio de seus contatos. Nisso, como em todo o resto, as respostas locais devem divergir. Mas mesmo na rica capital de SP, o secretário de saúde Edson Aparecido reconhece que não há testes suficientes para todos os contatos de infectados. Isso não é surpresa. Tal estratégia só faz sentido quando há poucos casos novos por dia. O estado teve nada menos que 5,3 mil novos registros no domingo.

Porém, seria algo fundamental para reduzir a chance de novos picos (nos locais onde os casos e mortes de fato diminuíram) e a necessidade de novas quarentenas. Em Curitiba, o prefeito Rafael Greca (DEM) já precisou voltar a adotar restrições porque, após a flexibilização, os casos aumentaram rapidamente. “Era de 20 por dia durante 70 dias, pulou para 40 por dia em 15 dias e está em 60 por dia agora”, tuitou ele, referindo-se aos registros de infecções.

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