Brasil, Chile e México puxam epicentro para América Latina

Na semana passada, metade das mortes diárias por covid-19 aconteceram nos países latino-americanos. Ministro chileno caiu por manipular dados.

Foto: Christian Rucinski / Unsplash

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Ontem, o mundo chegou à marca dos oito milhões de casos oficialmente registrados do novo coronavírus. E o ritmo da doença em junho continua acelerada, com cerca de 124 mil novas infecções registradas todos os dias. O diretor-geral da OMS fez um resgate que ajuda a dar a devida proporção a esse número: “Foram necessários mais de dois meses para que os primeiros cem mil casos fossem relatados. Nas últimas duas semanas, mais de cem mil novos casos foram relatados quase todos os dias”, disse Tedros Ghebreyesus ontem.

O Brasil, como sabemos, nas últimas semanas se movimentou rapidamente rumo ao segundo lugar do ranking de infecções e de mortes por covid-19. Estamos com mais de 890 mil casos e 44 mil mortes. Mas de acordo com Michael Ryan, diretor-executivo da OMS, não dá para afirmar que já somos o novo epicentro da pandemia. Para ele, a América Latina “como um todo” está nessa situação. Na última semana, morreram em média 4,3 mil pessoas por dia no planeta por conta da doença; mais de duas mil delas no subcontinente latino-americano.   

Junto conosco, Chile e México merecem destaque, segundo a OMS. E, francamente, a liderança política deste último país também não anima, apesar de ser de esquerda. No domingo, o presidente López Obrador fez um pedido à população mexicana: que não tenha medo de sair de casa. Na segunda, o país atingiu o marco dos 150 mil casos confirmados. Por lá, como aqui, a reabertura do comércio acontece justo no momento em que se está próximo do que os epidemiologistas chamam de pico. 

Já no Chile, que tem 180 mil infectados, o ministro de saúde caiu no fim de semana depois de dias de desgaste: foi denunciado por um consórcio de jornalistas de estar manipulando os números de mortos por covid-19. Divulgava uma cifra à OMS e outra ao público, numa diferença de cinco mil óbitos – bem mais do que os 2,8 mil que divulgava oficialmente o Ministério. No lugar de Jaime Mañalich assumiu  Rafael Araos, que já anunciou que o Chile vai passar a contabilizar como mortes por coronavírus não só os falecidos que fizeram testes do tipo PCR ou em que apareça no atestado de óbito essa causa, mas todas as mortes prováveis

Falando em subnotificação de mortes e manipulação de números, temos sinais contraditórios vindos do Planalto. De um lado, o vice-presidente Hamilton Mourão admitiu que o governo errou ao mudar de forma abrupta a forma como se divulgam dados sobre a pandemia (mas para ele o “novo” sistema, que omite várias informações importantes para os pesquisadores, é melhor). Já o presidente Jair Bolsonaro é mais… bolsonarista mesmo. Ontem, o chefe do Executivo voltou a questionar, sem nenhuma prova, os números. Disse que “não condizem com a realidade”.

Podemos todos concordar com ele, mas pelo motivo inverso: as cifras subestimam a realidade. O mais recente exemplo disso é trazido pela Piauí: para cada dez pessoas que morreram por covid-19 depois de terem sido hospitalizadas, outras oito morreram por Síndrome Respiratória Aguda Grave sem causa determinada, num acumulado de 23 mil casos do tipo. Não que todas as mortes por SRAG sejam, na verdade, causadas por coronavírus, mas parece ser consenso científico que uma boa parte é.

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