Esperança e cautela com corticoide que promete salvar vidas na pandemia

Em ensaio clínico randômico com mais de seis mil pacientes, dexametasona reduziu chance de morte — mas só nos doentes mais graves. Trabalho de pesquisadores de Oxford ainda não passou por revisão de pares

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Pesquisadores da Universidade de Oxford deram ontem uma baita notícia: eles verificaram que o corticoide dexametasona aumentou a sobrevida de pacientes de covid-19 hospitalizados. O melhor é que se trata de um medicamento barato, fácil de produzir e disponível no mundo inteiro. Anti-inflamatória e imunossupressora, a dexametasona é usada há décadas em doenças inflamatórias e respiratórias, reumatismo e alergias.

É a primeira vez que um medicamento tem esse tipo de resultado em um estudo clínico randomizado, o ‘padrão ouro’ da ciência. O ensaio em questão é o Recovery, que investiga seis potenciais tratamentos em mais de 11 mil pacientes. Em relação à dexametasona, 2.104 pessoas a receberam por dez dias junto com os cuidados habituais, enquanto 4.321 não tomaram a droga. No fim, o remédio reduziu em um terço as taxas de mortalidade dos pacientes graves, que estavam submetidos à ventilação mecânica. Nos que recebiam oxigênio, a redução foi de um quinto. Naqueles que não precisavam de ajuda para respirar, não houve benefícios.

Tem um problema: os dados completos não foram divulgados e o trabalho ainda não passou por avaliação de pares. A divulgação veio por uma nota de duas páginas escrita pelos pesquisadores, e não por publicação em uma revista científica. A pandemia está (ou deveria estar) nos deixando calejados quanto a isso. “A gente viu muita coisa que parecia promissora, e foi retirada. Ainda estamos naquela fase de ver para crer. Precisamos ter o artigo completo em mãos, para ter certeza que faz todo sentido”, diz no Globo Luciano Cesar Azevedo, médico e especialista em medicina intensiva do Hospital Sírio Libanês.

Mas, se os dados forem confirmados, essa será provavelmente a melhor novidade dos últimos tempos. Os autores do estudo estimam que, se o medicamento estivesse disponível no Reino Unido desde o início da pandemia, até cinco mil vidas poderiam ter sido salvas (houve cerca de 40 mil mortes por lá).

De todo modo, deve ser preciso tentar frear desde já uma possível corrida às farmácias e os boatos vindouros de que o remédio poderia prevenir a covid-19 ou curar casos leves. Na realidade, a dexametasona não ataca o coronavírus, mas atua suprimindo o sistema imunológico (já que em alguns pacientes a doença parece se agravar justo por conta de uma resposta forte demais desse sistema, levando a grandes inflamações). Isso significa que, se tomado muito cedo, o remédio pode até mesmo dificultar que o corpo combata o vírus. No Brasil, a Câmara avalia restringir a compra a pacientes com prescrição, para evitar desabastecimento. 

O fato de o remédio só funcionar em pacientes graves quer dizer também que eles não devem fazer muita diferença em termos de sobrecarga dos sistemas de saúde: só são beneficiadas as pessoas internadas, que portanto precisam encontrar leitos disponíveis. “O verdadeiro fator de mudança será uma droga que impede as pessoas de passarem de sintomas leves a um estado grave, além uma vacina”, nota Devi Sridhar, da Universidade de Edimburgo, no site da Science.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou em nota que vai coordenar uma “meta-análise para aumentar a compreensão geral dessa intervenção”, e ainda que vai atualizar suas diretrizes sobre a covid-19 “para refletir como e quando o medicamento deve ser usado”. No Reino Unido, o equivalente ao ministro da Saúde, Matt Hancock, disse que vai adotar o remédio como tratamento padrão desde já.

A dexametasona também está sendo testada por aqui em um estudo da Coalização Covid Brasil (que é coordenada pelos hospitais Sírio Libanês, Albert Einstein, HCor, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa). O ensaio começou em abril, envolve 40 hospitais do país e testou dois terços do público-alvo (280 pacientes). A ideia é que o restante seja submetido nos próximos 20 dias e que os resultados saiam em agosto. Não sabemos o quanto os resultados de Oxford vão impactar a continuidade desse estudo, caso o Brasil passe a usar o corticoide como tratamento padrão para pacientes graves.

E, falando em medicamentos no Brasil, a maior parte dos estados ignora a orientação do Ministério da Saúde de ampliar o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves. A informação é da Folha, que entrou em contato com todas as secretarias estaduais e recebeu resposta de 21 delas. Só seis estão prescrevendo esses remédios para casos leves.

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