Para privilegiar militares, PNI transforma própria orientação em letra morta

Milhares de fardados passaram à frente dos civis na campanha de vacinação do DF. Ordem veio do Ministério da Defesa, mas Saúde foi conivente

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Documentos e depoimentos apontam que o Ministério da Defesa agiu para que todos os militares da ativa do Exército, da Aeronáutica e da Marinha furassem a fila da vacinação no DF.

Ao todo, 29.671 fardados entraram como grupo prioritário, a contrapelo da orientação do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O caso está sendo apurado pelo MPF em um inquérito civil aberto em junho. Os indícios reunidos nesse inquérito apontam que lotes de vacinas foram destinados com exclusividade às Forças Armadas.

Os imunizantes foram enviados ao Quartel-General do Exército em Brasília, que executa a vacinação dos militares.

Segundo documentos, as ordens partiram da Defesa para o Ministério da Saúde que, por sua vez, pediu a reserva de imunizantes para a Secretaria de Saúde do DF.

Acontece que uma nota técnica do Ministério da Saúde publicada em março esclareceu que apenas membros das Forças Armadas envolvidos no atendimento de pacientes ou diretamente nas ações de vacinação deveriam ser considerados como parte do grupo prioritário.

Mas a orientação da Defesa incluiu todos os militares, incluindo os administrativos. E, chegando ao Ministério da Saúde, não foi questionada.

A procuradora da República Ana Carolina Roman, responsável pelo inquérito, se reuniu com integrantes do PNI para entender por que a nota técnica não foi seguida.

Recebeu como resposta que “qualquer trabalhador dessa área de Forças Armadas” foi incluído porque nas “Forças Armadas, às vezes o trabalhador faz aquele serviço de gestor e está no campo”. Pois é.

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