Empresa que aparece em gravação com Pazuello vende de tudo, menos vacinas

De ornamentos de Natal a itens de sex shop, World Brands nunca importou imunizantes. Bolsonaro colocou a culpa de mais esse escândalo nos “lobistas de Brasília”

Por Leila Salim

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E chegou ao general da ativa: a notícia da última sexta, que repercutiu durante todo o fim de semana, foi o encontro de Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, com um grupo de intermediários para negociar a compra da CoronaVac pelo triplo do preço pago pelo Butantan.

A reportagem da Folha obteve um vídeo em que Pazuello aparece junto aos representantes da empresa catarinense World Brands em março, num encontro não registrado na agenda oficial. A reunião ocorreu no gabinete do coronel da reserva Elcio Franco, então secretário-executivo do ministério. 

“Saímos daqui hoje com o memorando de entendimento já assinado e com o compromisso do ministério de celebrar, no mais curto prazo, o contrato para podermos receber essas 30 milhões de doses”, diz Pazuello no vídeo, depois de agradecer ao “líder da comitiva”, identificado apenas como “John”. No mesmo vídeo, o ex-ministro diz que a comitiva viabilizaria a transação “em uma compra direta com o governo chinês”. A transação, como se sabe, não se concretizou. 

Quando depôs à CPI em maio, Pazuello afirmou que não conduziu as negociações com a Pfizer porque a prática seria incompatível com suas atribuições como ministro. Como “dirigente máximo” da pasta, argumentava, não poderia negociar com empresas – postura que o vídeo parece contradizer.

A World Brands ofereceu as 30 milhões de doses da vacina por US$ 28 a dose. O valor é quase o triplo dos US$ 10 cobrados por dose para a aquisição da mesma vacina pelo Instituto Butantan, em contrato anunciado pelo governo brasileiro dias antes da reunião realizada no gabinete de Élcio Franco. 

Na própria sexta, Pazuello emitiu nota através da Secom negando a negociação com os intermediários para compra de CoronaVac  e reafirmando que jamais participou de tratativas com empresários para aquisição de vacinas. A nota diz ainda que Pazuello foi à sala apenas para “cumprimentar os representantes da empresa, após o término da reunião” e destaca que havia sido encaminhada à Folha uma notificação extrajudicial demandando direito de resposta. No dia seguinte, o jornal informou que iria negar o pedido

“Propina, é pelado dentro da piscina”, foi o que disse Bolsonaro em defesa de Pazuello ontem, após deixar o hospital. “Se eu estivesse na Saúde, eu teria apertado a mão daqueles caras todos. O receber (os representantes)… ele não estava sentado à mesa. Geralmente, teria uma fotografia dele sentado à mesa e negociando. E se fosse propina, (Pazuello) não daria entrevista, meu Deus do céu, não faria aquele vídeo”, afirmou. 

Já Rodrigo Cruz, atual secretário-executivo da Saúde e responsável pelas negociações de vacinas, afirmou que a atual gestão não tratou da compra das 30 milhões de doses negociadas por Pazuello.

A empresa recebida no ministério, por sua vez, acumula polêmicas. Em 2014, o empresário Jaime José Tomaselli, no nome de quem a World Brands está registrada, foi condenado pela Justiça Federal de Itajaí, Santa Catarina, por fraude em documentos de importação de produtos. Segundo a coluna de Lauro Jardim, d’O Globo, a empresa importa de ornamentos de Natal a itens de sex-shop – mas jamais trabalhou com vacinas. 

Enquanto as investigações avançam e encostam nas Forças Armadas, um dado chama a atenção: na última década, de 2011 a 2020, dobraram os casos de militares de alta patente que foram alvos de inquérito mas terminaram sem investigação e punição. É o que mostra levantamento feito pela Folha através de dados do Superior Tribunal Militar. Foram arquivados 41 inquéritos policiais militares que investigavam generais, brigadeiros e almirantes, contra 22 na década anterior. 

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