Centrão no coração do poder ajuda ou atrapalha Bolsonaro?

PP finca bandeira na Casa Civil, responsável pela coordenação do governo. Manobra embaralha imagem do presidente ao fisiologismo, mas pode render vantagens na disputa em 2022

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Numa das mais importantes manobras de seu governo, Jair Bolsonaro selou ontem o ingresso do Centrão no coração do poder. O presidente nacional do Progressistas, Ciro Nogueira, vai assumir a Casa Civil, dando fim ao ciclo de generais no comando da principal pasta da Esplanada. Caberá a ele, que é senador pelo Piauí, nada menos do que a coordenação entre os ministérios e a nomeação dos principais cargos do governo.    

Parar abrir espaço para o Centrão, Bolsonaro promoveu nova dança das cadeiras para manter canetas na mão dos correligionários mais próximos. Onyx Lorenzoni, inventor do célebre “lockdown dos insetos”, mudará de pasta pela quarta vez. O presidente resolveu recriar o Ministério do Trabalho para abrigá-lo. Já o atual chefe da Casa Civil, general da reserva Luiz Eduardo Ramos, vai ocupar a Secretaria-Geral da Presidência no lugar de Onyx. 

“Eu não sabia, estou em choque. Fui atropelado por um trem, mas passo bem”, desabafou Ramos em entrevista ao Estadão. Mas nem todo mundo foi pego de surpresa pela movimentação. De acordo com O Globo, Nogueira já vinha sendo sondado pelo senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Segundo Mônica Bergamo, Nogueira recebeu uma ligação para tratar do assunto ainda na segunda-feira

De modo que, terça à tarde, Bolsonaro e Paulo Guedes começaram a acertar o desmembramento do superministério da Economia, liberando as áreas de Trabalho e Previdência para a reforma ministerial.

Na mesma tarde, durante uma reunião com três ministros, o presidente ligou para fazer o convite oficial. Deve ter sido um momento e tanto para Ciro Nogueira: de férias, em uma praia no México, ele topou assumir o posto-chave da Esplanada. 

Só depois disso, Ramos e Onyx foram chamados ao gabinete presidencial e comunicados de que precisariam deixar seus cargos. E, então, começaram os vazamentos para a imprensa. Ainda na noite de terça, a pedra foi cantada para a jornalista Natuza Nery

Na quarta de manhã, foi a hora de testar as redes. “Estamos trabalhando uma pequena mudança ministerial”, disse Bolsonaro em entrevista à rádio Jovem Pan de Itapetininga.

Prós e contras

O resultado disso tudo pode ser muito bom ou muito ruim para o presidente. Ao escolher Ciro Nogueira para a Casa Civil e criar mais um ministério, Bolsonaro se distancia ainda mais da imagem anti toma lá, dá cá que conseguiu construir na campanha eleitoral de 2018. A quantidade de escândalos de corrupção cercando sua família e seu governo, porém, já tinham tornado a manutenção dessa imagem bastante difícil. 

Ciro Nogueira responde a inquéritos por suspeita de receber propina da Odebrecht e da JBS, e tentativa de atrapalhar a Lava Jato. Num longínquo 2017, já chamou Bolsonaro de “fascista”. E preside o PP, que está no centro das atenções da CPI – Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, dragado para o centro do caso Covaxin e orbitando em outras maracutaias levadas a cabo por Roberto Dias no Ministério da Saúde, é do partido.

O bloco de partidos fisiológicos que reúne cerca de 150 parlamentares no Congresso já havia fincado bandeira em três ministérios: Secretaria de Governo (Flávia Arruda – PL), Comunicações (Fábio Faria –PSD) e Cidadania (João Roma – Republicanos).

Entre os bolsonaristas-raiz no Congresso, a ida de Nogueira para a Casa Civil foi recebida com silêncio. A coluna Painel tentou falar com gente como Carla Zambelli (PSL-SP) e Major Vitor Hugo (PSL-GO), que preferiram não comentar. “Nas redes sociais, o assunto não existiu”.

Ramos foi mesmo o único a colocar um pouquinho a boca no trombone. Na mesma entrevista ao Estadão falou: “Se eu estivesse sendo trocado por alguém formado em Oxford ou Harvard, tudo bem, poderiam dizer que falhei. Mas é por um político aliado do presidente, é assim que funciona”. Ontem de noite, porém, já estava fazendo post em que aparece sorridente ao lado de Bolsonaro no jogo do Flamengo. Na foto, ele é o único sem máscara.

Na avaliação de Lauro Jardim, “a alteração é uma indicação inequívoca de fragilidade do governo”. O colunista especializado em política continua: “O governo capitulou. Antes da posse, o bolsonarismo desdenhava o Centrão, hoje precisa dele para sobreviver. Cada palavra do célebre ‘Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão’, cantarolado em tom de superioridade pelo general Augusto Heleno na campanha de 2018, teve que ser engolida goela abaixo.”

Por outro lado, a ida de Ciro Nogueira para o “miolo do poder”, como descreve Lauro, parece apresentar um conjunto de vantagens para Bolsonaro no curto prazo e no prazo que importa: a campanha eleitoral de 2022

Em um primeiro momento, Bolsonaro agrada a base aliada, que estava insatisfeita com a performance de Ramos na Casa Civil. Ao nomear pela primeira vez em seu governo um senador para a Esplanada, o presidente risca da lista esse déficit que tinha com a Casa, difícil de entender.

Segundo o Estadão, nos próximos meses Bolsonaro aposta em um tripé para elevar sua combalida popularidade: vacinação mais rápida, novo Bolsa Família – a ser anunciado em breve – e retomada do emprego, tudo isso num cenário sem variantes-surpresa do novo coronavírus e em que a economia se recupera. A base aliada feliz também aumenta as chances de aprovação das reformas liberais de Guedes, perspectiva que deve continuar a impedir que a Faria Lima pule para o barco do impeachment.

Há ainda dois elementos que ganham destaque nas reportagens sobre a movimentação de ontem. Número 1: haveria no Planalto o temor de que Ciro Nogueira se distanciasse do governo Bolsonaro. Nogueira seria candidato ao governo de seu estado, o Piauí, comandado por Wellington Dias, do PT. Ele estava particularmente irritado na semana passada depois que Dias conseguiu a liberação de R$ 800 milhões do Banco do Brasil, operação autorizada pelo Ministério da Economia. Agora, Nogueira já admite a pessoas próximas que deve abrir mão de entrar na disputa.

O rearranjo também pode impactar o destino partidário de Bolsonaro. “Sem legenda, o presidente demonstrou interesse em se filiar a uma sigla menor, como o Patriota, onde não há consenso para receber o chefe do Executivo. Os principais aliados de Bolsonaro, porém, sempre defenderam que ele buscasse um partido estruturado e com musculatura para fazer frente a um duelo com o PT nas próximas eleições”, escreve Jussara Soares, n´O Globo.

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