Coronavírus: novas variantes podem impactar vacinação?

Estudos mostram que mutação presente na variante brasileira está ligada a piora na resposta dos anticorpos. Porém, ainda não se sabe real impacto nas vacinas existentes

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Novas variantes podem ter três impactos: na taxa de transmissão do vírus, na gravidade da doença provocada e na capacidade de resposta do nosso sistema imune. Nenhuma das principais variantes (leia mais aqui) parece gerar qualquer mudança na gravidade da covid-19, mas já há evidências de que as três podem ser mais transmissíveis. E, embora isso não seja muito intuitivo, para nós é pior ter um vírus mais transmissível do que mais mortal. Sabemos que o crescimento desse coronavírus é exponencial; mesmo com uma letalidade baixa, se ele se espalhar ainda mais rapidamente do que já estamos acostumados há grandes chances de termos hospitais abarrotados e muitas mortes. “Na verdade, mesmo uma variante 30% mais transmissível pode ser muito pior do que uma variante 30% mais mortal”, deduz Christian Yates, professor da University of Bath, no site The Conversation.

A principal pergunta agora é: o quanto essas variantes podem prejudicar a nossa resposta imunológica? É preciso saber, porque isso pode aumentar as reinfecções – jogando por terra, de uma vez por todas, a ideia de obter imunidade coletiva via infecções naturais – e, pior ainda, pode prejudicar a vacinação. Ainda não há uma resposta robusta, mas as pesquisas recentes sugerem que poderemos ter problemas. Dois novos estudos conduzidos na África do Sul e publicados online ontem (veja aqui e aqui) mostraram que mutações como a E484K (presente também na variante brasileira) fizeram com vários dos anticorpos de quem já tinha tido covid-19 antes não reconhecessem ou neutralizassem o vírus. 

Foram estudos feitos em laboratório, e não observando a propagação do vírus no mundo real; além disso, eles foram publicados apenas em plataformas de pré-impressão, ainda sem revisão por pares*. Mas ainda assim as descobertas preocupam. Lembramos que, recentemente, uma pesquisa do Cadde (Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus) sobre a variante brasileira também apontou que poderia haver maior potencial de reinfecção, e essa pode até  ser uma das explicações para a nova alta nos casos em Manaus. 

Não está claro se isso terá impacto nas vacinas conhecidas. Um estudo publicado nesta terça mostrou que as mutações ligadas à variante da África do Sul causaram apenas uma queda “modesta” na potência dos anticorpos gerados pelas vacinas de mRNA – da Pfizer ou da Moderna. Como essas duas vacinas têm uma eficácia geral muito alta, talvez na prática o prejuízo não seja tão grande. Também há que se levar em conta que a resposta imunológica não é feita exclusivamente pelos anticorpos. Já falamos bastante por aqui sobre as células T, essenciais para a prevenção de novas infecções, e nenhum dos estudos até agora deu conta de entender como a resposta dessas células é afetada pelas variantes. Ou seja: é urgente seguir investigando.

* O texto foi alterado para incluir a informação de que os artigos foram publicados apenas em plataformas de pré-impressão, ainda sem revisão por pares.

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