Novidades sobre a vacinação no Brasil: o começo do fim?
Governo federal prevê início da imunização no dia 20, mas provavelmente só CoronaVac vai estar disponível nessa data. Entenda os pedidos de autorização enviados até agora
Publicado 11/01/2021 às 10:19 - Atualizado 12/01/2021 às 09:40
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OO novo ano chegou com notícias muito aguardadas sobre a vacinação contra a covid-19 no Brasil. Na sexta, a Fiocruz e o Instituto Butantan finalmente enviaram para a Anvisa documentos para análise e aprovação do uso emergencial de suas vacinas. A partir disso, a agência tem dez dias para analisar o material e decidir se autoriza ou não os imunizantes.
Mas não há céu de brigadeiro. No caso da vacina de Oxford/AstraZeneca, que será produzida no país pela Fiocruz, os dados completos já foram publicados em revista científica, mas há incertezas relacionadas a eles. Apesar de a taxa geral de eficácia ter ficado em cerca 70%, falta, por exemplo, saber essa taxa em idosos, o que é bem importante para planejar a vacinação (falamos muito sobre todas essas dúvidas no ano passado, como aqui e aqui). Reino Unido, México e Índia já aprovaram o uso emergencial desse imunizante, mas nos Estados Unidos os dados foram considerados insuficientes. A Agência Europeia de Medicamentos (equivalente à Anvisa na União Europeia) prevê concluir sua análise no fim deste mês.
Por aqui, o pedido da Fiocruz se refere ao uso de apenas duas milhões de doses, compradas prontas do fabricante indiano Serum Institute e que serviriam para antecipar o calendário de vacinação para janeiro – sem elas, a previsão seria ter as primeiras doses em 8 de fevereiro, depois de a Fiocruz receber os insumos farmacẽuticos necessários à produção de 100 milhões de doses. E, é claro, bem depois do prazo anunciado por João Doria (PSDB) para o começo da distribuição da CoronaVac, o que pesa um bocado para o governo federal. Caso a Anvisa dê sinal verde para o uso dessas duas milhões de doses, o Ministério da Saúde vai correr para tentar iniciar a imunização em 20 de janeiro, cinco dias antes da data prevista pelo governo de São Paulo. Mas, com a vacina de Oxford, isso só vai acontecer se o Serum Institute antecipar o envio das doses, que por enquanto estão previstas para sair da Índia no próprio dia 20. Jair Bolsonaro até deixou de lado seu papel de incendiador antivacina e escreveu uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo urgência no fornecimento do imunizante…
O que falta na CoronaVac
Quanto à CoronaVac, as notícias são ao mesmo tempo boas e confusas. Boas porque o pedido de autorização do Butantan veio logo depois da coletiva de imprensa em que o instituto divulgou – após sucessivos adiamentos – uma eficácia de 78% da vacina contra casos leves que precisaram de intervenção médica, e 100% na prevenção de casos graves, moderados ou que precisaram de internação. Mas confusas porque, em seguida, especialistas começaram a apontar problemas. Em geral, as empresas têm divulgado primeiro seus dados via comunicados à imprensa. No caso da CoronaVac, nem isso: as informações foram divulgadas apenas em um pronunciamento encabeçado por Dimas Covas, diretor do Butantan.
Mas o mais complicado é que os números anunciados se referem somente a um recorte do estudo, como explica a ótima reportagem de Fabiana Cambricoli, no Estadão. Segundo o protocolo do ensaio, o desfecho primário (ou seja, o resultado principal a ser observado) era a taxa de eficácia geral, calculada a partir de todos os casos sintomáticos de covid-19 registrados entre os participantes. Mas esse número não foi divulgado. Os 78% e 100% mencionados por Dimas Covas se referem a desfechos secundários (não incluíram todos casos sintomáticos, mas apenas os com características específicas). Como medem coisas diferentes, não podem ser comparados por exemplo aos 95% da Pfizer ou aos 70% de Oxford/AstraZeneca.
O infectologista Esper Kallas, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do centro da pesquisa da CoronaVac no Hospital das Clínicas, diz que a eficácia geral dessa vacina deve ser menor que 78%. Dá para ter uma ideia do valor a partir de números ditos ‘de cabeça’ por Covas na coletiva de imprensa. Segundo ele, foram registrados 218 casos da doença, sendo cerca de 60 no grupo que recebeu a vacina. Se for isso mesmo, a eficácia deve ser em torno de 63%. O que não é ruim, especialmente considerando a facilidade de distribução desse imunizante. Mas é importante saber. O secretário de Saúde de SP, Jean Gorinchteyn, disse que os dados completos só vão ser publicizados depois da análise da Anvisa.
E outras questões apareceram depois da submissão do pedido à agência. É que, após concluir a triagem inicial dos documentos, o órgão disse no sábado que estava tudo certo com os da Fiocruz, mas não com os do Butantan. Diante da velha pressão de Jair Bolsonaro contra a ‘vacina do Doria’, o movimento poderia ser visto com alguma desconfiança, como se projetado especialmente para empacar a aprovação. Foi o que o governador de São Paulo deu a entender, ontem, quando em redes sociais pediu “senso de urgência” à Anvisa. Mas ex-presidentes da agência entrevistados pelo Estadão disseram que os documentos faltantes são mesmo básicos. Entre eles: as características da população do estudo (como idade, sexo, raça, peso, comorbidades) e a contabilidade clara de todos os participantes que entraram no estudo e que completaram cada fase. O Butantan já começou o envio dos dados.