Oxford: publicação em revista científica aponta boa eficácia, mas mantém incertezas

Eficácia média foi de 70%, mas não pôde ser medida em idosos, o que pode comprometer calendário brasileiro. Dados sugerem a necessidade de mais estudos

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Pela primeira vez, dados de fase 3 de uma vacina contra a covid-19 foram publicados em uma revista científica, com revisão de pares: os resultados do imunizante de Oxford/AstraZeneca saíram no periódico The Lancet. Parte das informações do artigo já haviam sido divulgadas via comunicado à imprensa (aquele que acabou gerando mais dúvidas do que certezas). O imunizante mostrou um perfil de segurança aceitável e apresentou uma eficácia média de 70,4% para proteger contra a doença; ela foi de 62,1% no subgrupo que recebeu duas doses padrão e de 90% entre os voluntários que receberam meia dose seguida de uma dose completa. Um dado novo é que o imunizante protegeu contra casos graves: ao todo, dez voluntários foram hospitalizados, mas todos faziam parte do grupo que recebeu o placebo. 

Há uma novidade preocupante. Em ambos os regimes de doses, não houve dados suficientes para avaliar a eficácia em pessoas com 56 anos ou mais, que são justamente as que têm mais chances de morrer. Para calcular essa eficácia, seria necessário ter um número significativo de infectados nessa faixa etária. Mas os mais velhos entraram mais tarde no estudo e, com isso, das 131 infecções analisadas, só cinco foram entre eles. “Temos que esperar mais para ter dados suficientes para fornecer boas estimativas de eficácia da vacina em subgrupos menores”, diz Merryn Voysey, um dos autores do artigo. 

No caso do Brasil – onde essa é a única vacina com acordo de compra já acertado pelo governo federal – a ideia é começar a vacinação justamente pelos idosos; agora há que se pensar o quanto a informação poderia mudar os planos e/ou atrasar ainda mais o já tímido cronograma. Isso porque a liberação do uso do produto nos mais velhos depende da comprovação de que funciona para este público, como lembra a reportagem da Folha. 

Um detalhe chamou particularmente a nossa atenção: a aplicação de apenas uma dose conferiu eficácia de 64.1%, medida após 21 dias. É claro que não dá para saber o quanto essa proteção duraria caso não houvesse a dose de reforço, porque isso não foi testado. Mas o número salta aos olhos.

Outro ponto positivo é que o regime de baixa dosagem foi cerca de 60% eficaz na redução de infecções assintomáticas; isso indica que a vacina pode ter um papel importante (ainda que não determinante) para conter as transmissões. Só que, como observa a Nature, não ficou claro se o regime em duas doses também reduzia significativamente essas infecções. Junto com o baixo preço e as condições mais simples de armazenamento e transporte, essa pode ser uma boa vantagem sobre concorrentes como a Pfizer e a Moderna, em que tal potencial não foi avaliado (só os ensaios de Oxford/AstraZeneca testaram seus voluntários em busca de infecções assintomáticas).  

Talvez o cenário ideal fosse o de cada governo ter vacinas com perfis diferentes para atingir públicos-alvo distintos: imunizantes altamente eficazes entre idosos poderiam ir para esses grupos, enquanto os que demonstram reduzir a transmissão poderiam ser administrados a trabalhadores que têm contato com muita gente. Mas não há cenários ideais, ao menos por aqui. Neste momento, a vacina de Oxford/AstraZeneca – possivelmente menos eficaz, porém mais simples e barata – está sendo aventada como a melhor opção para os países de baixa e média renda (que são também os que dificilmente conseguirão vacinar suas populações inteiras tão cedo). 

No mais, os questionamentos em relação a como os dados foram coletados, reunidos e analisados permanecem basicamente os mesmos que pontuamos aqui: eles não se referem a um grande ensaio único, com um único protocolo, mas a um combinado de estudos independentes. E as diferenças entre eles ficaram ainda mais evidentes no artigo de ontem. Por exemplo: os dois grupos não tiveram apenas uma diferença na dosagem, mas também no intervalo entre as duas doses. Poderia ser esse o motivo da eficácia distinta? Não há como saber sem mais estudos. Inicialmente, os pesquisadores da AstraZeneca disseram que pretendiam continuar os ensaios com mais voluntários. Mas agora não há mais muita certeza: Mene Pangalos, um dos vice-presidentes executivos da farmacêutica, disse ontem que a empresa ainda está deliberando sobre isso.

Rumo às aprovações

Os dados de Oxford/AstraZeneca já estão sendo enviados a agências reguladoras de todo o mundo por submissão contínua. Em alguns países, porém, autorizações emergenciais ainda podem demorar. A famacêutica espera, por exemplo, que a FDA exija a conclusão dos testes que estão em curso nos EUA. E a agência reguladora daquele país não tem confiado muito na AstraZeneca há alguns meses, narra o New York Times. A sucessão de bolas-fora teria começado no dia 8 de setembro, quando a imprensa divulgou a interrupção dos ensaios clínicos devido a um evento adverso grave; o problema é que a farmacêutica havia concluído uma reunião com a FDA horas antes, sem mencionar o problema. 

Por aqui, Lily Yin Weckx, coordenadora dos testes, disse que com as últimas informações já será possível solicitar uso emergencial à Anvisa. Mas reiteramos a ressalva sobre a indefinição quanto à eficácia em idosos. O guia da Anvisa para a aprovação emergencial diz que as empresas devem definir, em seus pedidos, qual é o público-alvo da vacina, e que essa definição precisa ser feita com base nas informações advindas dos testes. 

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