Pressão pelo adiamento

Com pandemia crescendo rapidamente em quase todo o país, Inep pretende mander calendário presencial do Enem. Primeira prova é neste domingo

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A notícia é mais do que simbólica: ontem morreu, por complicações da covid-19, o general Carlos Roberto Pinto de Souza, diretor Avaliação da Educação Básica do Inep e, portanto, responsável pela elaboração do Enem. Souza estava doente desde dezembro, e fontes ouvidas pela Folha e pelo Globo disseram se tratar de infecção pelo coronavírus. Mas o Inep não confirmou – segundo o órgão, o motivo do falecimento vai ser mantido em segredo “em respeito à família do diretor”…

Marcado inicialmente para novembro do ano passado, o exame foi transferido para este mês, com provas presenciais nos dois próximos domingos (dias 17 e 24). A morte de Souza ocorre num momento em que cresce a pressão pelo adiamento, por razões óbvias: com a circulação do vírus crescendo, uma nova variante mais contagiosa, hospitais cheios em várias cidades e o Brasil tendo de novo uma média de mais de mil mortes diárias, não parece uma decisão acertada fazer com que 5,7 milhões de jovens se sentem lado a lado em ambientes fechados durante cinco horas e meia. Várias entidades da saúde e da educação publicaram uma carta pedindo que as provas sejam realizadas mais adiante, quando a transmissão estiver menor e os serviços de saúde estiverem mais desafogados. A UNE (União Nacional dos Estudantes) e a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) fizeram a mesma proposta. Na última sexta, a Defensoria Pública da União pediu o adiamento à Justiça Federal da 3ª  região. 

No entanto, o Inep defende a manutenção do calendário. Foram estabelecidas regras para reduzir o risco de contágio, como máscaras obrigatórias, menos participantes por sala do que nas edições anteriores, distanciamento entre as carteiras e o impedimento de que estudantes com sintomas façam a prova (haverá uma segunda chamada para estes, em fevereiro). É interessante comparar com o esquema montado pela Coreia do Sul, que comentamos por aqui no ano passado. O país realizou seu vestibular nacional, mas os alunos foram testados e examinados até o último minuto, e a crise sanitária não estava nem de longe tão grave como aqui. E mesmo assim a data foi cercada de preocupação.

No Brasil, a coisa está tão ruim que vários pesquisadores defendem um lockdown nacional (veja aqui e aqui). A maior parte dos especialistas considera que as regras de segurança propostas pelo Inep são importantes, mas insuficientes, e concorda que o melhor seria deixar a prova para outro momento. Um argumento a favor de manter o exame é o de que vários jovens estão mesmo em festas e bares, mas a questão é outra: “Ir a um bar é uma opção. Fazer uma prova que vai garantir a entrada para estudar é uma iniciativa do Estado. Não é porque é errado abrir aglomeração que o Estado deve promover o mesmo erro”, salienta a epidemiologia Ethel Maciel. Também vale ressaltar que, durante a pandemia, a educação esteve na lanterna do ranking de prioridades do governo federal. 

O Enem é o exame que mais preocupa, por conta do volume enorme de participantes em todo o país. Mas universidades que fazem vestibulares independentes estão mantendo as provas, e já houve algumas. Na quarta passada teve prova da Unicamp; no último domingo, foi a primeira fase da Fuvest – as taxas de abstenção foram de 13,8% e 13,2%, respectivamente.

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