No Rio, relatos dramáticos dão conta de uma realidade de tortura por falta de sedativos

Problema se repete em São Paulo e outros estados. Desabastecimento poderia ter sido evitado se Ministério da Saúde não tivesse cancelado compra internacional em agosto

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“Eles ficam tudo acordado, sem sedativos, intubados, amarrados e pedindo para não morrer”. O relato chocante é de uma enfermeira do Hospital Municipal Albert Schweitzer, onde há 78 pessoas internadas, mas a situação se repete em muitas outras unidades de saúde do Rio de Janeiro. “Não funciona direito, só deixam eles um pouquinho sedados, mas não apaga da forma que precisa”, conta um médico do Hospital Municipal Pedro II, onde 67 pacientes estão internados, fazendo referência à substituição do medicamento Dormonid, em falta, por outro mais antigo e menos eficiente, o Diazepam.

“Não tinha medicações, não tinha sedativos para os pacientes do CTI e então, infelizmente, eles vieram a óbito. Nós vimos, assim, os profissionais desesperados, chorando, porque não tinha o que fazer pra ajudar, né?”, denuncia outra enfermeira, do Hospital São José, em Duque de Caxias. Entre sábado e domingo, 21 pessoas morreram na unidade – e os profissionais creditam parte das mortes à falta de sedativos. 

“Pode levar à morte, mas por uma série de fatores. Não é só a falta de sedativo que vai levar diretamente o paciente à morte. A falta de sedativo vai somar lá na balança do tratamento, de coisas que estão atrapalhando. E o sedativo não vai estar ajudando o paciente a economizar energia. Com certeza vai prejudicar em muito o tratamento dele, além de ser um desconforto e uma situação desumana”, explica um médico intensivista, ouvido pela reportagem do RJTV

As prefeituras do Rio e de Caxias não negam que faltem sedativos. Os medicamentos estão sendo distribuídos pelo Ministério da Saúde desde março, quando a pasta lançou mão do instrumento da requisição administrativa, obrigando os fabricantes a direcionarem ao governo federal sua produção. 

Em São Paulo, o secretário estadual de saúde fez uma denúncia ontem: num período de 40 dias, enviou nove ofícios ao ministério solicitando medicamentos do kit-intubação. Não recebeu nenhuma resposta. “A situação de abastecimento dos medicamentos, principalmente daqueles que compõem as classes terapêuticas de bloqueadores neuromusculares e sedativos está gravíssima, isto é, na iminência do colapso, considerando os dados de estoque e consumo atualizado pelos hospitais nesses últimos dias”, diz trecho do documento enviado na terça-feira ao governo federal, no qual a secretaria pede o envio de medicamentos em até 24 horas para abastecer 643 hospitais. 

Em centenas de unidades, porém, os medicamentos do kit-intubação já acabaram – e a situação deve ser muito semelhante aos relatos do Rio de Janeiro. Segundo o conselho que reúne os secretários municipais de SP, num total de 3.126. serviços de saúde, o estoque de bloqueadores foi zerado em 2.127 e o de sedativos acabou em 961. “O último caso é fazer o procedimento sem eles. Mas intubar um paciente sem sedativo ou relaxante é tortura, não podemos aceitar”, reconheceu o presidente do conselho, secretário de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple. 

E o que diz o ministro da saúde sobre tudo isso? Marcelo Queiroga não responde a todos os questionamentos, apenas repete uma promessa que faz desde o dia 29 de março: a de que estão para chegar os medicamentos que o governo comprou por intermédio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Lá atrás, demoraria 15 dias – prazo que se esgotou na última terça-feira. Ontem, o ministro disse que a expectativa é de que cheguem “em até dez dias”. Mas como informamos aqui na semana passada, a própria Opas ressalva que alguns dos 22 remédios pedidos pelo governo brasileiro só devem chegar em maio.  Pudera: o pedido de intermediação só foi feito à organização no final de março

Essa semana, chegam da China 3,4 milhões de medicamentos comprados por empresas brasileiras. Serão repassados ao Ministério da Saúde, que promete distribuir imediatamente.

Pois é… Tudo isso remonta à decisão de Eduardo Pazuello de cancelar uma compra internacional dos remédios do kit-intubação no dia 12 de agosto do ano passado. Na época, o Conselho Nacional de Saúde emitiu uma recomendação à pasta, pedindo que voltasse atrás da decisão

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