Como o governo planeja minar a CPI da Covid

Obstrução de pauta, cartilha com ‘feitos’ do governo federal e cargo na Esplanada fazem parte do cardápio

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Jair Bolsonaro e a base aliada do governo colocaram em marcha um plano para tumultuar e minar a CPI da Covid – e a sua amplitude é uma prova do quanto o presidente teme responder por suas ações durante a pandemia.

Ontem, governistas de partidos como DEM, PSD e PP assinaram um requerimento do senador Eduardo Girão (Podemos-CE) para criar uma CPI paralela para investigar governadores e prefeitos, como pediu o próprio Bolsonaro na conversa vazada por Jorge Kajuru (Cidadania-GO). Na avaliação de assessores palacianos ouvidos pela Folha, o vazamento teve um efeito positivo na mobilização da tropa do governo.

Essa CPI alternativa teria dois objetivos: tirar o foco do presidente e retardar a instalação da comissão original. Agora, por exemplo, se discute se o Senado pode ou não investigar outros entes federados. O regimento interno da Casa diz que não pode haver CPI sobre “matérias pertinentes” aos estados. Segundo o líder da maioria no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), a maior parte dos líderes de partidos é a favor de ampliar as investigações – fato que também está sendo comemorado pelo Planalto. 

O segundo capítulo da ofensiva começa hoje, quando se espera que o requerimento de criação da CPI da Covid seja finalmente lido pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). A base aliada vai apresentar uma série de questionamentos durante a sessão marcada para 16h com o objetivo de evitar que Pacheco leia o documento. Caso ele consiga ler, a ideia é tumultuar os trabalhos a ponto de os líderes dos partidos não conseguirem indicar os membros da CPI.

Também há planos para depois que a CPI for instalada. Bolsonaro assumiu pessoalmente a articulação para montar uma tropa de choque que defenda o governo e faça um contraponto à oposição na comissão de inquérito. A CPI tem 11 vagas, e o foco do governo é conseguir um nome alinhado no bloco composto por PSDB e Podemos para formar maioria. A oposição tem cinco vagas, e deve ficar por conta do MDB (3); do PT e PROS (1); e de Cidadania, Rede e PDT, com outra vaga. 

Com ou sem maioria, o Planalto pretende elaborar para senadores governistas uma espécie de apostila com indicadores que passem a ideia de que o governo federal atuou positivamente na pandemia. Para essa tarefa, foram escalados dois ministros: Fábio Faria (Comunicações) e… Marcelo Queiroga – afinal, nada mais importante no pior momento da pandemia do que preparar a defesa do presidente. Também aparece nesse script a ideia de fazer uma análise prévia nos principais contratos firmados pelo Ministério da Saúde. 

Por fim, o governo pretende oferecer um cargo na Esplanada para algum senador aliado, com o intuito de melhorar a “articulação política” na Casa. Hoje, a Esplanada não tem um ministro que seja senador, enquanto deputados federais comandam cinco pastas. As hipóteses em análise são os ministérios do Desenvolvimento Regional ou da Agricultura. E os nomes favoritos para ocupar uma das pastas são os dos senadores Eduardo Gomes (MDB) e Jorginho Mello (PL).

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